A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

fevereiro 8, 2022

Pizza de sardinha

Hoje lembrei da minha infância e adolescência em casa de meus pais, sentado em volta da mesa com macarronada e frango assado no domingo. Ou o tutu de feijão com couve refogada e farofa… Ah, a farofa de cenoura da minha mãe era incomparável! E o que dizer da pizza de sardinha? Do cuscuz, da sopa de mandioca…

Pizza al taglio


Gosto muito de conversar com as pessoas que têm as lembranças afetivas que elas carregam das comidas de suas mães e avós.
Hoje lembrei muito de minha mãe e do jogo de cintura que ela tinha para me fazer comer um pouco de carne. A carne moída era enfeitada com muita batata e um tempero que mascarava o gosto. O frango assado com a farofa de cenoura do qual eu mal comia um pedaço do peito e com muita farofa. E a pizza de sardinha como só ela sabia fazer… e tudo para me agradar.
Essa da foto acabei de fazer e ficou parecida com a dela. E o cheiro delicioso que tomou conta do apartamento foi como se ela estivesse alí, na cozinha. Quase consegui ouvir a voz dela dizendo: “Dinho, fiz pizza de sardinha para você”!

dezembro 2, 2021

Lembranças de infância – “O braço da mãe tá quente”

As lembranças desse texto foram vividas na Vila Martins, na casa em que minha família morava na Rua M1-A, esquina da Avenida M1-A, na cidade de Rio Claro/SP, no final dos anos 60. Eu tinha uns 9 anos, as ruas eram de terra batida e em toda sua extensão havia um terreno enorme, local da antiga linha férrea da Maria Fumaça que ligava Rio Claro a Ajapí, Ferraz e Corumbataí. Em frente de minha casa começariam em breve a construção do Ginásio Estadual Prof. João Batista Leme, atual Escola Estadual com o mesmo nome. Era um tempo de inocência, de brincadeiras de rua, sem televisão e jogos eletrônicos. Volta e meia ouvia-se mercadores passando em carroças e mais raramente em carros, vendendo todo tipo de produto. Lembro do proprietário de “A Feira Permanente” que passava semanalmente com uma carrocinha empurrada por ele, vendendo suas mercadorias. Gritava: “senhoras, venham! Eu tenho meias, lenços, pennnnnnnntes e camisetas”. Essa loja, tradicional de Rio Claro, ainda existe. Está localizada na Rua 1 com a avenida 16 e hoje é administrada por netos daquele senhor. Minha mãe era frequentadora assídua desse Armarinho e eu ia sempre com ela quando fazia suas compras. O dono do negócio – o qual não lembro o nome – era muito simpático, tinha fala mansa, usava uns pequenos óculos de leitura apoiados sobre a ponta do nariz e não sei por que me remetia à figura de um padre. Acredito que devido à sua peculiar gentileza.

Sempre gostei de ler! Passava hora sobre a cama, lendo, viajando nas estórias dos personagens da Disney e do Maurício de Souza. Também adorava ler Júlio Verne e Monteiro Lobato. Minhas revistas em quadrinhos nunca eram novas. Na Avenida 8-A, esquina da Rua 4-B, em frente ao DAAE – Departamento Autônomo de Água e Esgoto, havia um sebo, cujo proprietário era um homem que provavelmente fora acometido de paralisia infantil, pois não tinha movimento nas duas pernas. Fumava muito! Quando terminava de ler minhas revistas, ia até lá e trocava duas já lidas por uma que ainda não tinha lido. E de vez em quando, com algumas poucas moedas, adquiria um novo lote.

João Barbi, Augusto, ? e Cristina Barbi

Estando sempre dentro de casa, acompanhava a rotina de minha mãe e as costumeiras conversas que ela tinha com as vizinhas e com as pessoas que batiam no portão. Havia a Shirlei, uma senhora com pequena deficiência intelectual que costumeiramente passava para tomar um copo de água. Trabalhava como doméstica numa residência próxima. E nesse interim dizia para minha mãe: “D. Malia (minha mãe se chamava Maria). Ela pensa que eu sô clava (escrava) pá passa covão (escovão, para quem não conhece, digamos que era uma enceradeira manual). Num sô clava não!” Também soltava de vez em quando um “daputa” referindo-se à patroa, diminutivo daquele palavrão que não quero escrever aqui.

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setembro 27, 2021

Saudades de minha infância

Nasci e morei em uma fazenda, na cidade de Rio Claro, interior do estado de São Paulo. Ainda criança nos mudamos para a cidade e estudei só em escola pública… Meus amigos de infância tinham apelidos como Quatro Olhos, o Gordo, o Magrelo, o Orelhudo etc. e tudo era levado na base da brincadeira. Não era bulling. Nem sabíamos o que era isso! Éramos humildes, comíamos o que era colocado na mesa, muitas vezes só arroz e feijão, outras, arroz feijão e banana. Ninguém tinha o bolsa família, cesta básica, não havia Google, Facebook, Instagram e nem Wikipédia, tínhamos as enciclopédias Barsa, com suas dezenas de volumes e as pesquisas de estudo eram feitas nas bibliotecas públicas ou na pequena biblioteca da escola.

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Quando nossa mãe saía na janela e dava um grito, a frase “peraí, mãe” era para não sair da rua e não do computador… Apanhei muito de cinto, ficava de castigo e nem por isso me tornei um rebelde sem causa… Nós tínhamos brinquedos, muitos deles feitos com latas velhas, pneus… e não celulares. Colecionávamos figurinhas e não namorados ou namoradas. Batíamos “bafo” com as figurinhas e não nos colegas e nos professores (aliás professor era muito respeitado e admirado). Cantávamos o Hino Nacional com a mão no peito e todas as semanas ao hastearmos a bandeira em frente da escola.

Brincávamos de polícia e ladrão, de amarelinha, esconde-esconde, jogávamos taco, queimada, passa anel, vôlei, pique bandeira, jogávamos bolinhas de gude, usávamos roupas infantis quase sempre de segunda mão, vindas de primos ou irmãos e não nos vestíamos como adultos. Soltávamos bombinhas tipo traque nas festas juninas e empinávamos pipas e pulávamos elástico. Assistíamos o Sítio do Pica Pau Amarelo, Vigilante Rodoviário, Rim Tim Tim, Zorro, Pica Pau etc., na casa do vizinho, porque não tínhamos televisão ou geladeira.

O único pó que quase todos nós éramos viciados era Nescau ou Toddy. Tocávamos a campainha da casa do vizinho e corríamos. E levávamos palmadas por isso! Soltávamos pipas na rua. Tínhamos sempre dever de casa para fazer e fazíamos mesmo e as aulas de educação física eram de verdade. Não nos importávamos se o nosso amiguinho era negro, branco, pardo, pobre ou rico. Meninos ou meninas, todos brincavam juntos e como era bom…

Ah, que saudades da época em que a chuva tinha cheiro de terra molhada… Do cheiro de mato cortado no terreno baldio ao lado da casa. Do cheiro doce das flores da enorme jabuticabeira do quintal do vizinho. E na minha infância, a felicidade tinha gosto de geladinho de Ki-suco sabor groselha e nossa única dor era quando usávamos merthiolate nos raspões dos joelhos…

maio 31, 2021

De onde viemos

Filed under: amor,Coisas que eu gosto,Uncategorized — Augusto Jeronimo Martini @ 9:49
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Autora: Rita Maidana

“Eu venho de lá, onde o bem é maior. De onde a maldade seca, não brota. De onde é sol, mesmo em dia de chuva e a chuva chega como benção. Lá sempre tem uma asa, um abrigo para proteger do vento e das tempestades.

Eu venho de um lugar que tem cheiro de mato, água de rio logo ali e passarinho em todas as estações. Eu venho de um lugar em que se divide o pão, se divide a dor e se multiplica o amor.

Eu venho de um lugar onde quem parte fica para sempre, porque só deixou boas lembranças. Eu venho de um lugar onde criança é anjo, jovem é esperança e os mais velhos são confiança e sabedoria.

Eu venho de um lugar onde irmão é laço de amor e amigo é sempre abraço. Onde o lar acolhe para sempre, como o coração de mãe. Eu venho de um lugar que é luz mesmo em noite escura. Que é paz, fé e carinho.

Eu venho de lá e não estou sozinho, “SOU CATADOR DE LINDEZAS”, sobrevivo de encantamento, me alimento do que é bom, do bem. Procuro bonitezas e bem querer, sobrevivo do que tem clareza e só busco o que aprendi a gostar. Não esqueço de onde venho e vou sempre querer voltar.

Meu lugar se sustenta do bem que encontro pelo caminho, junto a maços de alfazema e alecrim. Assim, sou como passarinho carregando a bagagem de bondade, catando gravetos de cheiro, para esquentar e sustentar o ninho…

Talvez a vida tenha feito você acreditar que este lugar não existe. Te digo: tem sim, é fácil encontrar. Silencie, respire, desarme-se, perceba, é pertinho. Este lugar que pulsa amor é dentro da gente, é essência, está em cada um de nós. Basta a gente buscar.” Vamos ser CATADORES DE LINDEZAS!!!

janeiro 13, 2021

Outras lembranças de infância – campeonato de melancias!

O post anterior foi com lembranças de minha irmã mais velha, a Tereza. E este traz lembranças da Ivone, minha irmã do meio, que mandou um áudio pelo WhatsApp, lembrando de quando a gente ia passar alguns dias das férias escolares no sítio de nossos avós paternos.

Além de plantarem nas terras do sítio dos Martini, meu avô e tios arrendavam parte de sítios próximos para plantar arroz, feijão e milho etc. Quem já morou em sítio sabe que o trabalho é pesado e as refeições são reforçadas. Por volta das 10 horas da manhã é levado o “café” para os trabalhadores, que nada difere de uma refeição como o almoço. A comida era acondicionada em caldeirões individuais de alumínio, onde tinha arroz, feijão e a “mistura”. Em garrafinhas de vidro era levado o café. Por volta de 13h tinha repeteco: era levado o almoço.

A Ivone lembrou que ela, a Tereza, a Cida e a Antônia (nossas primas que moravam no sítio) iam levar a comida para os trabalhadores na roça (onde os homens estavam cuidando da plantação). Nossa avó tinha também que preparar um caldeirãozinho para cada uma delas, pois queriam comer junto com os trabalhadores, lá, na plantação. E o nosso avô Primo Martini e os filhos,  cultivavam melancias no meio da plantação de arroz.

Em um dos dias, quando as meninas chegaram com o almoço, ela lembrou que nosso avô a pegou por uma das mãos e a levou até o meio do arrozal. Ele já havia escolhido duas melancias e as tinha colocado embaixo das palhas do capim seco que havia sido recentemente carpido, para que ficassem frescas. Depois do almoço as partiu e todos comeram. 

Mas, nesse dia em especial, nosso avô disse para elas: “vamos apostar quem come mais melancia?” E a Ivone começou a comer tanta melancia, tanta, que acabou passando mal. Nosso avô teve que colocá-la na carroça e levá-la urgentemente para a casa de nossa avó. A plantação que estavam cuidando era num sítio próximo, o sítio dos Koelle. 

Quando chegaram na casa de minha avó, ela ficou muito brava com ele e disse: “Primo, onde já se viu fazer uma coisa dessas? Você é adulto, mas ela é uma menininha, ela é uma criança, ela está passando mal!”

Ivone lembra que a nossa avó fez um chá de alguma erva amarga e a fez engolir goela abaixo. Em seguida vomitou muito, botou tudo para fora e melhorou.

Uma curiosidade: lembro que a maioria das melancias plantadas no sítio não eram consumidas ou vendidas. Serviam para alimentar os porcos.

janeiro 8, 2021

Mais lembranças de infância

Já escrevi vários posts sobre minhas lembranças de infância. Como tem muita coisa que não lembro, pedi para as minhas irmãs, Tereza e Ivone e para alguns primos e primas que relatem fatos que lembrem de quando éramos pequenos para que façam parte destas memórias aqui no A Simplicidade das Coisas.

Hoje a Tereza fez uma vídeo chamada comigo. Comentou que ontem, conversando com o Ademilson, seu marido, lembrou de alguns fatos de quando tinha entre 4 e 5 anos de idade. Isso quer dizer que provavelmente tais memórias são do ano em que eu nasci – 1959 ou bem próximo dele.

A estação de Morro Grande, provavelmente anos 1940. Foto cedida por Júlio Cesar Piesigilli, Jaú, SP – Fonte: http://www.estacoesferroviarias.com.br/a/ajapi.htm

Naquela época, minha família morava no Haras Fazenda Morro Grande, de propriedade do Sr. Renato Mário Pires de Oliveira Dias, onde meu avô era o administrador e meu pai e tios eram colonos. Por volta de 1959, meu avô, Primo Martini, comprou o sítio Boa Vista que era de propriedade de seu pai, Luigi Martini e que ficava cerca pouco mais de mil metros do Haras e Fazenda Morro Grande. Portanto, deixou de ser o administrador da fazenda e passou a cuidar de sua propriedade. Toda a mudança foi feita por carroça. Tereza lembrou que na última viagem, os últimos pertences transportados foram os vasos com as plantas de minha avó, Virgínia Rosin Calore Martini. E ela chorou tanto, fez tanta birra dizendo que queria ir junto, que a colocaram em cima da carroça.

Ao chegar ao sítio, Tereza teve a unha do dedão de um dos pés arrancada em um acidente com um dos vasos. Chorou muito. Queria a nossa mãe. O Nelli (diminutivo do sobrenome Antonelli), amigo de meu tio Pedro Cirilo Martini (irmão mais novo de meu pai e o único tio ainda vivo do lado dos Martini) a colocou deitada de bruços sobre o seu cavalo como se estivesse carregando um saco de batatas e a levou para casa. Foi esguelhando por todo o caminho, tal era a dor que sentia. Chegando na fazenda, “a encomenda” foi entregue com a mesma brutalidade com que tinha sido carregada. Tereza tem memória privilegiada. Eu não lembro de quase nada de minha infância antes dos sete anos.

Outro relado feito pela Tereza foi o de um “causo” que meu avô sempre contava e que fazia rir muito a ele e a quem o ouvia. Até a década de 70 havia uma linha férrea que ligava Rio Claro a Corumbataí. A Maria Fumaça circulava em trilhos de bitola estreita e ia parando em alguns lugares durante o trajeto, como a Fazenda São José, o bairro rural de Cachoeirinha, e Morro Grande (atual Distrito de Ajapí) etc.

Pois bem. Uma das famílias mais abastadas de Morro Grande era a do clã dos Piccoli, sendo o seu patriarca conhecido como Dr. Piccoli. Ele não era doutor nem nada, mas o chamavam assim por conta de sua influência e poderio local. Para se ter uma ideia, a estação de trem ficava dentro de sua propriedade. E ela está lá até hoje. Segundo meu avô, numa viagem entre Rio Claro e Morro Grande o Dr. Piccoli vinha todo garboso, fingindo ler um jornal (e pelo que meu avô dizia ele não sabia ler). Em certo momento uma senhora percebeu que o jornal estava de ponta cabeça. Tocou no ombro dele e disse: “Dr. Piccoli, seu jornal está de ponta cabeça”. Ao que ele respondeu: “Eu sei. Já li ele todinho. Agora estou deslendo”.

Verdade ou não, percebe-se que o Dr. Piccoli era um italiano de raciocínio rápido.

novembro 10, 2020

Lembranças de infância – o sítio de meus avós!

O sítio Boa Vista pertencia aos meus avós paternos Primo Martini e Virgínia Rosin Calore Martini. Ficava próximo da cidade de Rio Claro/SP, no Distrito de Morro Grande (hoje Ajapi), onde tudo era lindo e cheirava gostoso. Não possuía energia elétrica. A luz da lua cheia era a única luz que tinha nas noites escuras. Na casa, somente lampiões e lamparinas, que deixavam a gente com a parte interna do nariz toda preta por conta da queima do querosene. 
Na frente da casa tinha um barranco e nele um jardim muito bem cuidado pela minha avó, cheinho de rosas, dálias, margaridas. Tinha uns caminhos, que nós chamávamos de trilhos, os quais levavam aos locais mais usuais, como o galinheiro, o paiol, o poço.  

Pedro Cirilo Martini – meu tio

Em frente à porta da cozinha, alguns metros abaixo, ficavam o terreiro, onde secava-se os grãos de café e o paiol, que era um galpão coberto, fechado com madeira, o qual servia para guardar a colheita, sempre cheinho de milho, já seco, usado para alimentar as galinhas.  Tinha também os jacás com batatas, as abóboras e ferramentas.

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setembro 29, 2020

A comida é um reflexo da nossa vida, das nossas relações, da nossa história

Fazer um bolo não é só bater gemas e açúcar, claras, colocar farinha, fermento, manteiga e leite. O jeito de fazer esse bolo, de preparar alimentos, pode mostrar a história de uma família, suas tradições, seus caminhos. O cheiro que vem da cozinha não nos induz apenas que haverá bife com cebolas para o almoço, mas nos remete às idas na casa das nossas avós e tias. O apitar da panela de pressão não nos alerta só que o feijão está pronto. O cheiro nos faz lembrar do tempero especial da mãe, da tia, da avó e todas as lembranças das conversas que já tivemos durante as refeições ou festas de aniversários que habitam nossas memórias mais queridas.

As memórias que eu tenho da cozinha e comidas de minha mãe, tias e avó percorrem todo um universo afetivo registrado próximo a fogões e mesas. Penso que a comida conta muito sobre a nossa própria história e nos ajuda a olhar e a pensar sobre a vida de um jeito especial.

Quem não tem receitas de família guardadas em cadernos ou em folhas de papéis avulsos? Como não preservar as histórias que eles nos revelam? Muitas dessas anotações trazem receitas retiradas das embalagens, das caixas e das latinhas, ou passadas por alguma pessoa conhecida. E tudo isso diz muito sobre nós, sobre a maneira como vivemos e quem somos.

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dezembro 15, 2019

Encontro de 50 anos – alunos da EM Dijiliah Camargo de Souza

Meus amigos da Escola Municial Dijiliah Camargo de Souza, de Rio Claro/SP, turma de 1970: que delícia vê-los nessas fotos! Nesse segundo encontro, muita gente, como é de praxe, não foi. Inclusive eu!

Mas grande parte de nossa turma estava lá, revendo os grandes parceiros da infância e nossas mestras – Sônia Lopes Lanzoni e Meire Custódio, que nos mostraram os bons caminhos a seguir entre os anos de 1967 a 1970, relembrando histórias e diluindo as saudades. Saudade dos amigos, de tudo o que foi vivido, mas principalmente de quem fomos. De nossa versão mais simples, ingênua e até “demodê” aos olhos dos jovens de hoje.

Saudade mesmo do que nem lembrávamos mais – pequenos “causos” que viraram anedotas – mas que os amigos lembram por nós. Daquilo que fazíamos, dos papéis que interpretávamos nas leituras e “descrições” que criávamos quando D. Sônia nos mostrava uma figura a qual tínhamos que descrever, dos apelidos e manias tão singulares.

Nesses encontros testemunhamos a passagem do tempo no rosto e no relato de experiências de cada um.

Por algum tempo esquecemos nossos dramas, a vida lá fora, as dificuldades cotidianas. A vida trouxe nos trouxe cicatrizes sim – visíveis ou não – mas nesses encontros temos a sensação de que o tempo não passou.

De que nesse hiato de 50 anos permanecemos os mesmos, independente dos rumos e feições adquiridos.

Reencontrar amigos significa localizar a nós mesmos, é estarmos alinhados com uma porção de nós que existiu e se diluiu, mas necessita ser (re)ativada de tempos em tempos. É reencontrar nosso referencial, o pedaço de nossa história a partir do qual tudo o mais virou mera comparação e entender que, se algum dia fomos tocados, essa relíquia permanece conosco.

Existe poesia nesses reencontros…

Um encantamento sentido por aqueles que se deixaram cativar. Pois como dizia o poeta: “As coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão”.

E aos amigos do tempo do Grupo Escolar lanço aqui um desafio: deixem registrado nos comentários uma lembrança daquele tempo. Abaixo segue a minha, aquela que está mais latente em minha memória:

– era a primeira semana de aula do 1º ano letivo, e salvo engano o ano era 1967. Naquele dia iríamos ter a visita do Profº Glória, não lembro ao certo se era o Diretor da Escola ou o Supervisor de Ensino Local. Um aluno pediu permissão para a D. Sônia para ir ao banheiro. Ela consultou o garoto se poderia aguardar um pouquinho, pois o Profº Glória estava na sala ao lado e a nossa seria a próxima a ser visita. O garoto disse que sim, que aguardaria. Assim que nosso visitante entrou pela porta da sala, todos nos pusemos em pé, como era de costume. E esse garoto ao levantar urinou nas calças. Coitadinho. Foi motivo de chacota (hoje Bullyng) por vários meses. Algum tempo depois, sempre que nós o encontrávamos na rua ele baixava os olhos, com receio de que iríamos fazer algum tipo de gozação.

Um grande abraço e um beijo em cada um de vocês. Saudades!

Leiam também: Grupo Escolar da Vila Alemã, em Rio Claro/SP – atual E.M. Djiliah Camargo de Souza

dezembro 5, 2018

O Natal ensina

Filed under: amor,Atualidades,Brasil,Cidadania,Educação,Infância,Lembranças,Uncategorized — Augusto Jeronimo Martini @ 13:23
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Texto de Dom José Francisco

O filósofo Nietzsche ficaria do lado da cebola. Ele dizia que tudo era interpretação, e que não havia nenhum núcleo de ser sustentando nossa experiência de vida. Nesse sentido, para ele, a vida não passava de um descascar de cebolas: apenas modos de ver, perspectivas, interpretações. Nada mais além disso.

A visão cristã do mundo prefere ficar do lado da batata. Ainda que escondida por uma crosta ou por um véu, existe uma realidade substanciosa e vital que nos alimenta.

A proximidade do Natal nos ensina a pensar naquilo que viemos representando durante o ano, para nós mesmos e para os outros. Encontrei um livro que colocava essa questão de forma curiosa e cômica. O autor perguntava se o nosso mundo interior se parecia com uma cebola ou com uma batata?

O problema é que, mesmo tratando a vida como batata, nós lhe damos ares de cebola. Vivemos de opiniões, verdades parciais e provisórias, paixões arrebatadoras que só duram uma estação do ano, aparências e modas. Vivemos como se a vida fosse só isso! E nos esgotamos descascando camadas sem nenhum sentido, buscando na exterioridade o que só no centro se pode encontrar.

Dessa forma, a vida corre o risco de ficar sequestrada num enredo sem-fim de interpretações que nos distraem do essencial. Acabamos desabitados de nós próprios pelo tanto que somos invadidos por pontos de vista, absolutizações das circunstâncias, cascas, cascas e mais cascas.

Mas você pode mudar isso.

Faça um Natal diferente. Faça o Natal ser Natal. Apure e aprofunde os sentidos: veja melhor, escute melhor, sinta melhor. Preste atenção.

A oração apura os sentidos. Não uma oração qualquer, mas uma oração feita de atenção, de toda atenção de que a alma for capaz. É da qualidade da atenção que depende a qualidade da oração.

Nestas semanas que antecedem o Natal aceite o desafio da atenção: veja melhor, sinta melhor, ouça melhor. Deus não fala se você não prestar atenção.

É claro que vamos enfeitar nossas ruas e casas com presépios, árvores, guirlandas e bolas. E nem poderia ser diferente! O Natal precisa figurar entre as mais brilhantes lembranças da infância. Antes mesmo de saber o que o Natal significa, a criança precisa aprender o significado da benevolência e do amor.

É hora de deixar nossa confusão de cebola. Chega de cascas. Com tanta casca, tornamo-nos cascudos, insensíveis, indiferentes. E a vida não pode ser só isso. É pouco e queremos mais, sempre mais, porque é vital querer mais. A proximidade do Natal nos leva a pensar naquilo de vital que tange o essencial da alma.

E o Natal ensina. O Natal que o mundo anseia ensina benevolência e amor.

As cascas da cebola têm pouco a nos mostrar desses quesitos. Prefira sentimentos com a robustez da batata, a que alimenta a humanidade desde a aurora dos tempos, desde quando ainda não se falava em Natal, mas já se sabia que, sem benevolência e amor, até as batatas viram cebolas.

O Natal ensina. Não fará mal nenhum a gente aprender.

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