A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

março 30, 2021

Mais algumas lembranças de infância

Gosto de escrever sobre minhas lembranças de infância. Tenho o privilégio de ter comido doce de abóbora com coco feito em tacho de cobre. E feito com as abóboras colhidas no sítio de meus avós paternos ou com aquelas plantadas no quintal de minha casa.  Aquele doce, apurado no fogão a lenha, não troco por nenhum doce industrializado – era doce feito com amor e muita dedicação por uma pessoa muito especial para mim: minha mãe.

Desde que me conheci por gente ela fazia doces, uma arte que certamente aprendeu com sua mãe ou como cozinheira que foi no Haras e Fazenda Morro Grande (hoje Ajapí), distrito rural de Rio Claro. Meus avós paternos foram administradores dessa fazenda e depois passaram a morar em um sítio que adquiriram dos irmãos de meu avô, naquele distrito.

Nessa pequena propriedade passei alguma parte de minha infância e as férias escolares de minhas irmãs sempre eram por lá. Para mim, menino de cidade, tudo era uma aventura: dormir sob a luz de lamparina (o interior do nariz ficava preto), tirar água do poço, ver minha avó cozinhar no fogão a lenha, assar pães no forno a brasa (espécie de forno parecido com a casa do pássaro João de Barro), andar a pé do sítio até Ajapí, passear de carroça, ver minha tia Leonor passar roupas no ferro a brasa, meus tios e avô matarem porcos para a subsistência.

No dia 01 de janeiro meus avós realizavam uma Festa para comemorar o novo ano, quando também era comemorado o aniversário de meu avô, Primo Martini.

Na semana que antecedia a comemoração, minha avó fazia tachos de doces, massas caseiras, meus tios e avô matavam leitoas e frangos. Tinha pães assados no forno a brasa. Como não havia energia elétrica, não tinha geladeira. Meu avô encomendava barras enormes de gelo, que eram quebradas e o gelo picado era colocado em tambores para resfriar os refrigerantes, as cervejas ou a serpentina por onde passava o Chope.  Tinha também o vinho de garrafão. Lembro-me que minha avó misturava água e açúcar no vinho e dava pra gente comer com pão! Era tanta fartura de comidas e bebidas que hoje me pergunto como ela, minha mãe e tias davam conta de tantos afazeres. Vinham todos os parentes com seus filhos e os amigos das redondezas. Era muita gente!

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fevereiro 18, 2021

Janelas – Adélia Prado

Foi antes da revolução dos Beatles, antes da minissaia, quando escândalos políticos não vazavam nos noticiosos da TV. Era um moço pacato e, para o gosto das ‘meninas estudadas’, que nem eu, as meninas da Escola Normal, até mesmo um pouco sonso. Sem garbo, sem aprumo, ficava lá com o pai, na loja de coisa pra fazendeiro, uma pessoa sonolenta. Nunca vi o Otavianinho marchar com os moços do Tiro de Guerra, jogar futebol, nadar, jogar malha no campinho, pertencer à Congregação Mariana, nada, nada mesmo. Parecia clone do pai que ficava na registradora, ele só atendendo a freguesia, embrulhando ração, pesando semente, mal levantando a cabeça pra encarar. Pois, imagine – e é preciso imaginação -, o pai do Otavianinho, o Otaviano velho, morreu e ele herdou a loja. Antes do luto acabar, comprou um rabo-de-peixe, botou um caixeiro mais sonso que ele no balcão e saiu pra vida. Dizem que ele disse experimentando o volante do carro: ‘agora vou pegar isso e as menina.’ Me lembro de que torci o nariz, quando tio Lute contou a novidade, arremedando a fala caipira dele. Pois sim, um mês de passeio no Cadillac foi o suficiente pra estourar com a nossa sólida apreciação sobre a sonsura do Otavianinho. Foi de novo tio Lute quem contou a respeito: já sabem? O Otavianinho quase morreu, ainda agorinha. – Hein? – É.

– De quê? – Por acaso, eu vi tudo, desculpou-se. Sabe o que o Otavianinho andava aprontando? disse controlando mal a excitação. – Pois o mocorongo envinha de há muito pulando a janela da casa do seo Canuto, direto pró quarto da Calixtinha! Oooo queeeeê? meu pai falou. – Pois foi. O Canuto descobriu e queria matar o homem.

Foi lá na loja, armado e aos gritos. É, o Otavianinho deu foi muita sorte, porque agarraram o Canuto e ele teve tempo de escapulir. Escapulir, arre, o único senão estético do relato. bom, tio Lute e meu pai não se deram conta da minha presença. Assim que começaram a conversa aproveitei pra ficar invisível e escutar tudo, tão excitada quanto tio Lute. De noite percebi que meu pai contava a história pra minha mãe, ele também com um gozo desconhecido na voz. Escutei eles rirem, o que me dava sempre enorme felicidade. Na minha cama, depois que Neneca dormiu, foi a minha vez de saborear tudo, economizando ponto por ponto daquela história que mexia com a minha fantasia mais secreta: depois que todos dormissem, o Adalberto da Têxtil viria arranhar feito um gato a janela do meu quarto e eu iria abrir só um pouquinho e ele falaria coisas comigo e proporia outras, com uma voz irreproduzível, de tanto desejo, e eu iria negar-me como Santa Maria Goretti. Ele me tocaria de leve, demoradamente, ou forte e rápido, numa mistura de perversão e respeito. Sairia noite afora, suspirando por mim, e eu passaria a noite em claro, suspirando por ele. Ganhei simpatia pelo Otavianinho e uma admiração pela Calixtinha, que fez aquilo tudo e continuava com a mesma cara inocente. Que mistério, meu deus! O Canuto morria de dengo pelo neto feito à sua revelia, fez as pazes com o genro, que ficou podre de rico. O que eu fico imaginando é porque o Otavianinho pulava a janela de Calixtinha e não namorava como todo mundo, na praça, ou na porta da igreja. Às vezes eu acho que é porque ele era um falso sonso e fui errada de olhar para ele com desdém, ou que a ‘inocente’ da Calixtinha é que armou tudo muito bem armado e o bobo caiu direitinho. Esta segunda hipótese sendo a mais provável, com certeza, a verdadeira. Romeu nenhum pula janela se uma Julieta diligente não afrouxa o trinco. Contudo, tanto tempo passado, considero que, a não ser que as famílias se odeiem e tornem o encontro impossível, é melhor não abrir janela nenhuma, porque a vida é breve e a arte, longa. Mais vale uma janela sempre perigando abrir, que outra para sempre aberta.

Em se tratando de romance, claro. Amo o que dá trabalho. Mas não foi exatamente assim que a Calixtinha raciocinou? Não foram as mesmas minhas razões que a fizeram optar pelo difícil, namorando escondido? Tio Lute falava que o Canuto queria só fazer barulho com o trinta-e-oito. Ah, sei mais nada não, estou ficando confusa. E longe de mim fazer assertivas sobre amor e janelas. O menino da Calixtinha saiu diferente dos dois. ô vida misteriosa!

  • Fonte: Livro “Filandras”, Adélia Prado

janeiro 8, 2021

Mais lembranças de infância

Já escrevi vários posts sobre minhas lembranças de infância. Como tem muita coisa que não lembro, pedi para as minhas irmãs, Tereza e Ivone e para alguns primos e primas que relatem fatos que lembrem de quando éramos pequenos para que façam parte destas memórias aqui no A Simplicidade das Coisas.

Hoje a Tereza fez uma vídeo chamada comigo. Comentou que ontem, conversando com o Ademilson, seu marido, lembrou de alguns fatos de quando tinha entre 4 e 5 anos de idade. Isso quer dizer que provavelmente tais memórias são do ano em que eu nasci – 1959 ou bem próximo dele.

A estação de Morro Grande, provavelmente anos 1940. Foto cedida por Júlio Cesar Piesigilli, Jaú, SP – Fonte: http://www.estacoesferroviarias.com.br/a/ajapi.htm

Naquela época, minha família morava no Haras Fazenda Morro Grande, de propriedade do Sr. Renato Mário Pires de Oliveira Dias, onde meu avô era o administrador e meu pai e tios eram colonos. Por volta de 1959, meu avô, Primo Martini, comprou o sítio Boa Vista que era de propriedade de seu pai, Luigi Martini e que ficava cerca pouco mais de mil metros do Haras e Fazenda Morro Grande. Portanto, deixou de ser o administrador da fazenda e passou a cuidar de sua propriedade. Toda a mudança foi feita por carroça. Tereza lembrou que na última viagem, os últimos pertences transportados foram os vasos com as plantas de minha avó, Virgínia Rosin Calore Martini. E ela chorou tanto, fez tanta birra dizendo que queria ir junto, que a colocaram em cima da carroça.

Ao chegar ao sítio, Tereza teve a unha do dedão de um dos pés arrancada em um acidente com um dos vasos. Chorou muito. Queria a nossa mãe. O Nelli (diminutivo do sobrenome Antonelli), amigo de meu tio Pedro Cirilo Martini (irmão mais novo de meu pai e o único tio ainda vivo do lado dos Martini) a colocou deitada de bruços sobre o seu cavalo como se estivesse carregando um saco de batatas e a levou para casa. Foi esguelhando por todo o caminho, tal era a dor que sentia. Chegando na fazenda, “a encomenda” foi entregue com a mesma brutalidade com que tinha sido carregada. Tereza tem memória privilegiada. Eu não lembro de quase nada de minha infância antes dos sete anos.

Outro relado feito pela Tereza foi o de um “causo” que meu avô sempre contava e que fazia rir muito a ele e a quem o ouvia. Até a década de 70 havia uma linha férrea que ligava Rio Claro a Corumbataí. A Maria Fumaça circulava em trilhos de bitola estreita e ia parando em alguns lugares durante o trajeto, como a Fazenda São José, o bairro rural de Cachoeirinha, e Morro Grande (atual Distrito de Ajapí) etc.

Pois bem. Uma das famílias mais abastadas de Morro Grande era a do clã dos Piccoli, sendo o seu patriarca conhecido como Dr. Piccoli. Ele não era doutor nem nada, mas o chamavam assim por conta de sua influência e poderio local. Para se ter uma ideia, a estação de trem ficava dentro de sua propriedade. E ela está lá até hoje. Segundo meu avô, numa viagem entre Rio Claro e Morro Grande o Dr. Piccoli vinha todo garboso, fingindo ler um jornal (e pelo que meu avô dizia ele não sabia ler). Em certo momento uma senhora percebeu que o jornal estava de ponta cabeça. Tocou no ombro dele e disse: “Dr. Piccoli, seu jornal está de ponta cabeça”. Ao que ele respondeu: “Eu sei. Já li ele todinho. Agora estou deslendo”.

Verdade ou não, percebe-se que o Dr. Piccoli era um italiano de raciocínio rápido.

dezembro 23, 2020

Infância – traído pela memória

Cada vez mais os recursos tecnológicos, tão presentes em nosso dia a dia, cumprem o papel de unir as pessoas. Participo de alguns grupos no WhatsApp. Um deles, denominado “Amigos para sempre”, é formado por minhas professoras do primário e pelos amigos de classe. Nos comunicamos todos os dias. E hoje o Antônio Carlos Pistaker passou por lá para lembrar que nesse 23/12/2020 comemoramos 50 anos de formatura! Fiquei assustado com a lembrança e com os amigos comentando sobre o dia. O Norberto Demos lembrou que foi o orador da turma. Outros também registraram suas recordações. E eu não lembro de nada! Será que não estive nessa cerimônia? Tento puxar pela memória e nada!

Ultimamente venho pensado muito na minha infância, não com saudade ou saudosismo e nem com desejo que tudo tivesse sido diferente. Apenas tenho pensado. Talvez para resgatar as lembranças da criança que fui, que pude ser, que me deixaram ser. Tenho me esforçado para lembrar pequenos momentos que podem ter definido minha personalidade, os traumas, a visão de mundo e até o jeito que hoje lido com a felicidade ou com os momentos de frustração.

Foto por Rodolfo Clix em Pexels.com

Nossa máquina cerebral é um sistema maluco e seletivo, a ciência explica. Mas não quero saber da ciência e do jeito polarizado de pensar que toda causa tem um efeito. Quero complicar mesmo, dialogar com o meu EU do passado, perguntar para ele o que achou de suas vivências, o que ele gostava de fazer e o que não gostava e se ele gostava de ser criança.

Mas nessa espécie de viagem no tempo, embora eu tenha na lembrança que gostava de ser uma criança solitária, é impossível fugir do diálogo com as pessoas que fizeram parte da minha infância. Com essas pessoas eu não dialogo no sentido de conversar exatamente. Dialogo apenas com lembranças sutis de rotinas que tento reviver na memória e que se eu lembro muito bem, de alguma maneira, faz parte de quem sou hoje.

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dezembro 10, 2020

O presépio – Adélia Prado

Filed under: amor,Atualidades,Brasil,Coisas que eu gosto,Lembranças,Uncategorized — Augusto Jeronimo Martini @ 19:20
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Minha alma debate-se, tentada à tristeza e seus requintes. Meu pai morto não vai repetir este ano: “Nada como um frango com arroz depois da missa.” Minha irmã chora porque seu marido é amarradinho com dinheiro e ela queria muito comprar uns festões, uns presentinhos mais regalados, ô vida, e ele acha tudo bobagem e só quer saber de encher a geladeira com mortadela e cerveja. Talvez, por isto, ou porque me achei velha demais no espelho da loja, sinto dificuldades em ajudar Corália.

O Presépio

Queria muito chorar, deveras estou chorando, às vésperas do nascimento do Senhor, eu que estremeço recém-nascidos. Estou achando o mundo triste, querendo pai e mãe, eu também. Corália disse: você é tão criativa! E sou mesmo, poderia inventar agora um sofrimento tão insuportável que murcharia tudo à minha volta. Mas não quero. E ainda que quisesse, por destino, não posso. Este musgo entre as pedras não consente, é muito verde. E esta areia. São bonitos demais! À meia-noite o Menino vem, à meia-noite em ponto. Forro o cocho de palha. Ele vem, as coisas sabem, pois estão pulsando, os carneiros de gesso, a estrela de purpurina, a lagoa feita de espelhos. vou fazer as guirlandas para Corália enfeitar sua loja. A radiação da “luz que não fere os olhos” abre caminho entre escombros, avança imperceptível e os brutos, até os brutos, banhados. Desfoco um pouco o olhar e lá está o halo, a expectante claridade, em Corália, em Joana com seu marido e em mim, também em mim que escolho beber o vinho da alegria, porque deste lugar, onde “o leão come a palha com o boi”, esta certeza me toma: “um menino pequeno nos conduzirá”.

Do livro Filandras, de Adélia Prado – Editora Record – Rio de Janeiro     •     São Paulo, 2001 – página 111.

dezembro 6, 2020

2020

[…] “A maior parte da nossa memória está fora de nós, numa viração de chuva, num cheiro de quarto fechado ou no cheiro duma primeira labareda, em toda parte onde encontramos de nós mesmos o que a nossa inteligência desdenhara, por não lhe achar utilidade, a última reserva do passado, a melhor, aquela que, quando todas as nossas lágrimas parecem estancadas, ainda sabe fazer-nos chorar. Fora de nós? Em nós, para melhor dizer, mas oculta a nossos próprios olhares, num esquecimento mais ou menos prolongado”.
Marcel Proust
In A sombra das raparigas em flor

Salvo engano, foi Clarice Lispector que disse que o talento da escrita nasce da frequência com que ela é experimentada. E que há quem pense que só os que gostam devem escrever. Não é verdade. Todos que têm algo a dizer, que têm o que compartilhar, que precisam documentar o que vivem, que querem refletir sobre as coisas da vida e sobre o próprio trabalho, que ensinam a ler e escrever… precisam escrever. E minha amiga Rosa Hebling, de Rio Claro/SP, professora aposentada e ótima escritora, tem muito o que compartilhar com suas memórias. Nesse ano atípico resolveu criar em seu perfil do Facebook “O Diário da Rosa”, onde documenta o que já viveu e reflete sobre isso.

O ponto de partida foi em 02 de maio, com “O Diário da Rosa 0”. Nasce com uma carta dedicada à sua neta Jade. No dia 09 do mesmo mês, surge “O Diário da Rosa #1”, onde ela escreve: ” Minha filha Renata me disse assim: – Mãe, você gosta de escrever. Por que você não faz um… tipo assim, um diário da quarentena?

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“Depois de uns dias, me peguei pensando: “diário de quarentena? ”. O que pode haver de interessante para contar sobre a rotina de alguém confinado nos poucos metros quadrados de seu apartamento?”

A partir disso Rosa vem nos presenteando com lindos textos, recheados das mais diversas lembranças. Hoje ela nos brindou com o “Diário da Rosa #29”, que, com sua permissão, reproduzo abaixo. Boa leitura!

Foto por cottonbro em Pexels.com

“Diário da Rosa #29” – Dezembro chegou. Ainda continuo obedecendo ao isolamento social, mas sei que Papai Noel já está preparado para nos assaltar em todo final de corredor de supermercado, querendo nos agarrar em todas as portas de lojas, tentando escalar janelas das poucas casas que ainda se preocupam em vestir-se para o Natal.

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dezembro 5, 2020

O tempo – Adélia Prado

Havia chegado à terceira idade e continuava desinteressada de esportes, ginástica, clubes de dança, enfim, do que cheirasse a “lazer para velhos que, divertindo, melhora a saúde e prolonga a vida”. Ignorava teimosamente a ginecologia preventiva e seus hormônios sintéticos, com a mesma hostilidade que dedicava aos sucos de fruta artificiais. A linha do maxilar, o pescoço, o ao redor dos olhos e da boca deviam cair e engelhar a seu tempo e em paz. Até que a filha chegou da rua com as fotografias da festa e ela levou um susto enorme. Tirou incontinente o seu retrato da proteção de plástico e rasgou-o com brutalidade. Emudeceram todos que tagarelavam a sua volta. Levantou-se e se fechou no banheiro, ainda sem chorar. O que vou fazer?, pensou. O que é que se faz numa situação assim? Pra quem e de quem reclamo?

Foto por Edu Carvalho em Pexels.com

Não era engraçado nem trágico, pois tinha boa saúde, era só dramático – o que cansa -, porque dramas sucedem-se e perduram como pêndulos em moto-perpétuo, insolúveis na sua natureza dialógica. Olha! Uma palavra dessas nesta hora não é um pouco engraçado? Lembrou-se de seus trinta anos, já então lembrando-se dos quinze e dos quinze dizendo ao diretor do teatro na escola: quando eu era menina …Que brincadeira era aquela? Entendeu a atriz famosa, após as agruras da gravidez e do parto dizendo que Deus brinca com as mulheres. O que é mesmo que a chateava? Onde era exatamente o ponto que doía tanto? A vergonha. Ser velho dá vergonha e dá vergonha porque é impudico, arrazoou fugindo do problema. Invejou as freiras teimosas que ainda usam seus hábitos. Deu-se conta de um sentimento ruim, o de que além de velha pecava pela rejeição de sua velhice e pecava feio, aumentando-se por consequência e castigo em mais velhice e mais feiura. O corredor estreitava-se, havia combinado um passeio, a família esperava dela cara boa e sanduíches. Meu Deus! Foi quando começou a rir, a rir, a rir, o marido batendo preocupado à porta do banheiro, temendo um ataque de nervos, coisa bem sem graça. Mas não era nenhum colapso. A mulher lembrara-se de que pela manhã, antes das fotos chegarem, se encontrara com a Marinalva no mercadinho que a brindou com o seleto cumprimento: tá boa? Ainda bem, na televisão você estava muito mais acabadinha… E estampado no caderno de variedades que embrulhava os tomates em meia página colorida, a Neusa Helena, sua colega de escola que não via há quarenta anos. Lá estava, a mais bonita da sala, redonda e feliz, a cabeça tombada no ombro do namorado arranjado no Clube da Terceira Idade, recomendando às senhoras que fizessem como ela, assim, assim e assim. Era uma overdose, pensou achando-se atualizada em seus termos. Mas – e o drama retornou sinalizando uma trégua – o que abunda não vicia e se não morri posso engordar mais ainda. No fundo do seu coração agradeceu a Deus que lhe conservava a vida e lhe recordava o que foi como tábua em águas tormentosas: “Beleza é energia.” Tratou de lavar a cara e ir cuidar dos sanduíches. Ao marido disse em especial: me desculpa, com a certeza de que ao vivo, qualquer mulher é melhor que seu retrato mais feio.

Do livro Filandras, de Adélia Prado – Editora Record – Rio de Janeiro     •     São Paulo, 2001 – página 125.

dezembro 4, 2020

O terceiro olho – Adélia Prado

Filed under: Coisas que eu gosto,Lembranças,Memórias,Uncategorized — Augusto Jeronimo Martini @ 10:44
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Apesar do sol, do dia esplêndido, depois de tanta chuva, a mulher não quis descer do carro. Espero aqui, ela disse, numa espécie de pequena vingança, uma pirraça possível na sua idade. Vingança contra a vida, afinal, porque ninguém lhe devia nada. Mas a vida não é Deus? Abaixou o espelho em frente da poltrona e resolveu olhar-se.

Foto por Sam Kolder em Pexels.com

A ruga vertical no meio da testa, a cada dia mais funda. Amanhecia já com ela, como se tivesse dormido a noite inteira com aquele ar preocupado. “Ruga vertical é ruga de neurótico”, ouvira da Marialva, mas não dava pra confiar muito na sua psicologia de bolsa. Em todo caso, andava mesmo irritadiça, enjoada, entojada, como diria sua mãe, com a paciência nos limites. Então, ora, continuou a olhar-se e fixamente, no lugar onde dizem termos o “terceiro olho”, bem ali onde o vinco de sua testa acentuava-se. Ficou muito instigante a coisa, seu rosto transmutava-se, por quais razões não sabia. Desviava-se da sua aparência conhecida e virava monstro, os arcos das sobrancelhas parecendo dois braços de uma outra pessoa que lhe carregava os olhos sob as axilas. A figura, um homúnculo, parecia adernar, à direita, esquerda, monstrinho de pesadas pernas, anão de circo exibindo-se, oferecendo-lhe os olhos com que ela via seus olhos. Experimentou ficar estrábica, era bom.

Descansava do esforço, do empenho de não perder o monstrinho. Olhava, olhava, querendo ver o que via, cada vez mais e mais até não ver mais nada e descansar das tarefas que a esperavam. Caiu alguma coisa na pequena oficina, o barulho desconcentrou-a. Meu Deus, ela disse, me ajuda a… não sabia a palavra. Católica ortodoxa, ficou com vergonha de dizer me ajuda a entrar em “alpha”. Disse apenas: me ajuda. O hominho reapareceu. Mas Lisiene ligou a mangueira nas couves e a figurinha sumiu, sensibilíssima aos ruídos da casa. Em seguida o Radar latiu desesperado e o moço do gás bateu na porta junto com a Olinda querendo saber da Lisiene se ela tinha melhorado do machucão no pé e entregou um maço de arnica que era bem uma floresta. Finda a interrupção, dispôs-se a recomeçar. Já concentrada, o marido veio até a garagem: vou na fundição do He Man ver se, com base nesta, ele faz outra peça pra mim; quer ir também? Fundição do He Man!? Justo na hora em que o hominho voltava a caretear.

Do livro Filandras, de Adélia Prado – Editora Record – Rio de Janeiro     •     São Paulo, 2001 – página 115.

dezembro 1, 2020

Os jardins de minha infância

Em suas caminhadas, você já passou por um lugar e de repente deu de cara com uma planta que pela beleza ou cheiro te fez lembrar do jardim de sua avó? Eu já passei por isso diversas vezes.

A isso chamamos de memória afetiva, que é essa sensação de uma lembrança gostosa e que desperta sentimentos que ficaram gravados em nossa mente. Isso acontece toda vez que revivemos essa situação, seja pelo olhar, pelo cheiro, por uma música, um sabor ou qualquer sensação que nos leva de volta a um passado. Talvez de todos eles o paladar seja o que nos remeta mais para as nossas lembranças de infância.

Minha avó paterna, Virgínia Rosin Calore Martini

E quem não teve uma avó, uma tia, uma mãe, uma vizinha de “dedo verde” que possuía um jardim ou uma horta onde cada planta tinha uma história para estar ali?

O primeiro jardim que eu lembro era o da D. Leonil Klain, uma vizinha que tivemos em Rio Claro. Eu devia ter por volta de 6 a 7 anos e o Ronaldo Klein, meu primeiro amigo, era um dos filhos dela. Seus irmãos era a Sandra e o Carlos. Lembro até hoje de um arbusto que ela tinha no quintal, com nome popular de “buquê de noiva” (Spirea cantoniensis). Dava flores brancas minúsculas, que floresciam em pequenos cachos que lembravam um pequeno buquê. Também tinha ervas medicinais, jabuticabeira, canteiros com verduras. Era um quintal repleto de plantas. Algumas grandes e majestosas, outras médias e algumas bem pequenininhas. Na falta de vasos ou canteiros, qualquer recipiente virava local de plantas: de latas de óleo até latas de tintas vazias. O importante era que cada planta tivesse espaço para crescer e ficar linda.

D. Leonil Klain

Tinha também roseiras, que junto de outras flores formavam uma festa de cores, formas e texturas. Com tantas plantas, o quintal era um lugar arejado e fresco. E dele emanava uma profusão de cheiros que adentravam pelos corredores e perfumavam toda a casa. Podia-se respirar a vida naquele quintal!

Também me lembro do jardim e da horta nas casas de meus pais e dos meus avós paternos. Meus avós mudaram-se do sítio para uma casa, que ficava vizinha a nossa. E as duas casas tinham um jardim na frente, com rosas, margaridas, dálias entre outras flores e arbustos e uma grande horta nos fundos.

No quintal, além das verduras e legumes (mandioca, couve, alface, almeirão, mostarda, rabanetes, cenouras, rúcula etc.), haviam os temperos, as ervas medicinais, as árvores frutíferas (laranjeira, limoeiro, bananeira), e mais canteiros com flores: rainhas-margaridas (as preferidas de minha avó), kalanchoes, rosas…

Meu pai e minha avó eram do tipo que sempre tinham dezenas de espécies de plantas medicinais no jardim ou na horta. Dor de estomago: suco de couve para curar o mal estar. Se a dor persistisse, entrava o chá de Boldo. Argh! Era horrível. Ou a Losna macerada com um pouco de água. Pior ainda. Ou Marcelinha que também era amarga. Tinha também a Melissa e a Erva Cidreira para acalmar e tantos outros. Muitos vizinhos recorriam ao meu pai quando precisavam de alguma planta medicinal que só existia no campo. E lá ia ele de bicicleta, buscar um galho, uma casca ou um fruto para curar algum mal específico.

Todos os dias eu estava envolvido neste ambiente de flores e plantas e talvez minhas melhores lembranças sejam as do meus tios Marino e Henrique Martini, que traziam sacos de mangas, laranjas, bananas, sacolas repletas de verduras, vindas do sítio em Ajapi. Era uma festa quando o tio Marino chegava com um saco de mangas ou laranjas. É muito clara a lembrança de meu pai sentado em uma cadeira, com o saco de mangas ou laranjas apoiado nos joelhos e saboreando dezenas de frutos de uma só vez! Era incrível. O estômago dele devia ser bem dilatado.

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novembro 15, 2020

Enfrentando o ato de matar

Vamos ao supermercado e compramos um pedaço de carne sem sequer ter a noção de que aquilo veio de um ser vivo. A industrialização nos dá a chance de simplesmente esquecer que, para todo pedaço de carne que entra em nossa boca, algo teve de ser sacrificado.

Aposto que se todos tivessem que matar os animais que comem em suas refeições teríamos um número muito maior de vegetarianos e veganos no mundo. Não estou dizendo isso como uma ofensa, mas entenda que é fácil proclamar a verdade óbvia de que “matar é necessário para que eu possa me alimentar”. Difícil é tirar a vida de um animal que não lhe fez nada e que você criou desde filhote. Tenho um primo, o Pedro Rogério Martini, que reside em Rio Claro/SP, minha cidade natal. O pai dele, Pedro Cirilo Martini, um dos meus tios mais queridos, sempre viveu em sítios e mesmo na casa da cidade costumava criar galinhas. Não conseguia matá-las, pois o Rogério (e acho que também seus irmãos, Ana e Reginaldo), adotavam as galinhas como seus bichos de estimação. Não sei se algum deles tornou-se vegetariano. Até gostaria de saber.

Matar um animal para consumir sua carne é algo que poucos homens sabem fazer de maneira eficiente e ética.

Algumas pessoas dizem que dar “carinho” para os animais pode ser perigoso porque você cria apego emocional com os bichos, então o melhor seria tratá-los com indiferença e apenas como recursos de alimento. Eu concordo com essa dica quando se trata de pessoas mais velhas e que nunca tiveram experiências rurais antes, mas penso de uma forma diferente.

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