A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

setembro 27, 2021

Saudades de minha infância

Nasci e morei em uma fazenda, na cidade de Rio Claro, interior do estado de São Paulo. Ainda criança nos mudamos para a cidade e estudei só em escola pública… Meus amigos de infância tinham apelidos como Quatro Olhos, o Gordo, o Magrelo, o Orelhudo etc. e tudo era levado na base da brincadeira. Não era bulling. Nem sabíamos o que era isso! Éramos humildes, comíamos o que era colocado na mesa, muitas vezes só arroz e feijão, outras, arroz feijão e banana. Ninguém tinha o bolsa família, cesta básica, não havia Google, Facebook, Instagram e nem Wikipédia, tínhamos as enciclopédias Barsa, com suas dezenas de volumes e as pesquisas de estudo eram feitas nas bibliotecas públicas ou na pequena biblioteca da escola.

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Quando nossa mãe saía na janela e dava um grito, a frase “peraí, mãe” era para não sair da rua e não do computador… Apanhei muito de cinto, ficava de castigo e nem por isso me tornei um rebelde sem causa… Nós tínhamos brinquedos, muitos deles feitos com latas velhas, pneus… e não celulares. Colecionávamos figurinhas e não namorados ou namoradas. Batíamos “bafo” com as figurinhas e não nos colegas e nos professores (aliás professor era muito respeitado e admirado). Cantávamos o Hino Nacional com a mão no peito e todas as semanas ao hastearmos a bandeira em frente da escola.

Brincávamos de polícia e ladrão, de amarelinha, esconde-esconde, jogávamos taco, queimada, passa anel, vôlei, pique bandeira, jogávamos bolinhas de gude, usávamos roupas infantis quase sempre de segunda mão, vindas de primos ou irmãos e não nos vestíamos como adultos. Soltávamos bombinhas tipo traque nas festas juninas e empinávamos pipas e pulávamos elástico. Assistíamos o Sítio do Pica Pau Amarelo, Vigilante Rodoviário, Rim Tim Tim, Zorro, Pica Pau etc., na casa do vizinho, porque não tínhamos televisão ou geladeira.

O único pó que quase todos nós éramos viciados era Nescau ou Toddy. Tocávamos a campainha da casa do vizinho e corríamos. E levávamos palmadas por isso! Soltávamos pipas na rua. Tínhamos sempre dever de casa para fazer e fazíamos mesmo e as aulas de educação física eram de verdade. Não nos importávamos se o nosso amiguinho era negro, branco, pardo, pobre ou rico. Meninos ou meninas, todos brincavam juntos e como era bom…

Ah, que saudades da época em que a chuva tinha cheiro de terra molhada… Do cheiro de mato cortado no terreno baldio ao lado da casa. Do cheiro doce das flores da enorme jabuticabeira do quintal do vizinho. E na minha infância, a felicidade tinha gosto de geladinho de Ki-suco sabor groselha e nossa única dor era quando usávamos merthiolate nos raspões dos joelhos…

setembro 10, 2021

Jardim Chervezon, em Rio Claro/SP

O “Grande Cervezão” é um complexo formado por mais de uma dezena de bairros, surgidos quase todos de loteamentos clandestinos. Dentre eles, destaca-se o Jardim Chervezon, um bairro que pode ser visto como uma outra cidade, cheia de histórias e controvérsias.

A criação do Distrito Industrial no setor Norte de Rio Claro, em 1970, favoreceu o surgimento de novos loteamentos nas proximidades, forçando uma expansão territorial urbana.

No dia 7 de Janeiro daquele ano, Santo Oliva Chervezon requereu, junto à Divisão de Protocolo e Arquivo da Prefeitura Municipal, o loteamento de uma área de 274.390 metros quadrados, que fazia divisa com a FEPASA, com os loteamentos Parque das Indústrias e Jardim Independência, bem como com terras dos Irmãos Brescansin e de Sílvio Hilsdorf e Filhos. Essa área de terreno era denominada “Chácara Potreiro”; e, nela, seria implantado um futuro bairro: o Jardim Chervezon.

O projeto contava com 35 quadras, 10 áreas institucionais e 5 sistemas de lazer. O acesso se daria pelas ruas 6 (antiga estrada de acesso a Brotas) e M-4 e pela avenida M-21.

O requerimento foi recusado com base nas considerações do Departamento de Engenharia, que dizia que a área compunha-se por terrenos baixos para onde escoavam as águas pluviais e alguns córregos da região Norte de Rio Claro. Eram, portanto, terrenos alagadiços, a princípio impróprios para que ali se assentassem edificações. Afim de se tornarem adequados à utilização urbana, teriam que passar por uma ampla drenagem.

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agosto 29, 2021

Minha infância teve cheiro de capim gordura

“Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo”.

Adélia Prado

Nasci, no final década de 1950, no município de Rio Claro/SP, mas meus pais, tios e avós moravam e trabalhavam na Fazenda e Haras Morro Grande, distrito rural daquela cidade. Sou o terceiro filho de uma família de três irmãos, que era para ser de quatro. Minha mãe perdeu um filho quando estava grávida de 6 meses. Meu pai era o terceiro dos oito irmãos de uma família de filhos de italianos. Só conheci a minha avó paterna, Virgínia Rosin Calore Martini. Ela contava as aventuras da longa travessia do oceano que seus pais fizeram, da Itália até o Brasil, que teria durado seis meses, entre outras histórias.

Meu avô, Primo Martini, com minha avô, Virgínia Calore Martini, em sua primeira foto juntos, na saída da missa da igreja de Santo Antônio, em Morro Grande, quando começaram a namorar.

Depois de algum tempo, meu avô, Primo Martini, comprou um sítio bem próximo da fazenda onde trabalhavam. A casa, bem simples, ficava em uma parte baixa do terreno, com muitas árvores frutíferas ao redor, como laranjeiras e mangueiras. Tinha também um pé de jambo enorme, que ficava do lado esquerdo da casa, no qual eu e meus primos costumávamos subir. Tudo permeado pelas flores da minha avó. Roseiras, cravos, dálias, rainhas margaridas, olgas, primaveras…Tinha duas cozinhas na casa e um corredor comprido onde havia os quartos de dormir. E lá no sítio, não havia separação entre a vida dos adultos e das crianças. As tarefas eram feitas em conjunto, quer sejam as domésticas ou as da roça, cada um com responsabilidades compatíveis com a idade e a força.

Cultiva-se basicamente arroz, feijão e milho. Mas lembro que tinha velhos pés de café, talvez plantados pelo antigo proprietário ou outro qualquer, que ainda produziam. Do lado de fora da janela da sala de jantar tinha um pequeno parreiral, que produzia uvas brancas e escuras e que quando produziam tinham seus cachos vigiados por meu avô. Nas festas de ano novo, sempre tinha vinho tinto de garrafão e lembro que minha avó misturava vinho com água e açúcar cristal. Colocava em canecas e dava para nós, ainda crianças, molhar o pão. Não, ainda não bebíamos vinho puro. Ter o direito de tomar vinho correspondia a um ritual de passagem da vida de criança para a de adulto. Todo o trabalho no sítio era feito manualmente. Cada filho que nascia representava mais uma enxada, um machado, uma foice, um facão… A cada ano e com a parcimônia e sabedoria do meu avô e tios, derrubava-se nova porção de mato para ampliar a área de cultivo. Uma junta de bois ou um cavalo puxava o arado. Por ali, raramente usava-se o dinheiro. O que havia era muito escambo.

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março 30, 2021

Mais algumas lembranças de infância

Gosto de escrever sobre minhas lembranças de infância. Tenho o privilégio de ter comido doce de abóbora com coco feito em tacho de cobre. E feito com as abóboras colhidas no sítio de meus avós paternos ou com aquelas plantadas no quintal de minha casa.  Aquele doce, apurado no fogão a lenha, não troco por nenhum doce industrializado – era doce feito com amor e muita dedicação por uma pessoa muito especial para mim: minha mãe.

Desde que me conheci por gente ela fazia doces, uma arte que certamente aprendeu com sua mãe ou como cozinheira que foi no Haras e Fazenda Morro Grande (hoje Ajapí), distrito rural de Rio Claro. Meus avós paternos foram administradores dessa fazenda e depois passaram a morar em um sítio que adquiriram dos irmãos de meu avô, naquele distrito.

Nessa pequena propriedade passei alguma parte de minha infância e as férias escolares de minhas irmãs sempre eram por lá. Para mim, menino de cidade, tudo era uma aventura: dormir sob a luz de lamparina (o interior do nariz ficava preto), tirar água do poço, ver minha avó cozinhar no fogão a lenha, assar pães no forno a brasa (espécie de forno parecido com a casa do pássaro João de Barro), andar a pé do sítio até Ajapí, passear de carroça, ver minha tia Leonor passar roupas no ferro a brasa, meus tios e avô matarem porcos para a subsistência.

No dia 01 de janeiro meus avós realizavam uma Festa para comemorar o novo ano, quando também era comemorado o aniversário de meu avô, Primo Martini.

Na semana que antecedia a comemoração, minha avó fazia tachos de doces, massas caseiras, meus tios e avô matavam leitoas e frangos. Tinha pães assados no forno a brasa. Como não havia energia elétrica, não tinha geladeira. Meu avô encomendava barras enormes de gelo, que eram quebradas e o gelo picado era colocado em tambores para resfriar os refrigerantes, as cervejas ou a serpentina por onde passava o Chope.  Tinha também o vinho de garrafão. Lembro-me que minha avó misturava água e açúcar no vinho e dava pra gente comer com pão! Era tanta fartura de comidas e bebidas que hoje me pergunto como ela, minha mãe e tias davam conta de tantos afazeres. Vinham todos os parentes com seus filhos e os amigos das redondezas. Era muita gente!

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fevereiro 18, 2021

Janelas – Adélia Prado

Foi antes da revolução dos Beatles, antes da minissaia, quando escândalos políticos não vazavam nos noticiosos da TV. Era um moço pacato e, para o gosto das ‘meninas estudadas’, que nem eu, as meninas da Escola Normal, até mesmo um pouco sonso. Sem garbo, sem aprumo, ficava lá com o pai, na loja de coisa pra fazendeiro, uma pessoa sonolenta. Nunca vi o Otavianinho marchar com os moços do Tiro de Guerra, jogar futebol, nadar, jogar malha no campinho, pertencer à Congregação Mariana, nada, nada mesmo. Parecia clone do pai que ficava na registradora, ele só atendendo a freguesia, embrulhando ração, pesando semente, mal levantando a cabeça pra encarar. Pois, imagine – e é preciso imaginação -, o pai do Otavianinho, o Otaviano velho, morreu e ele herdou a loja. Antes do luto acabar, comprou um rabo-de-peixe, botou um caixeiro mais sonso que ele no balcão e saiu pra vida. Dizem que ele disse experimentando o volante do carro: ‘agora vou pegar isso e as menina.’ Me lembro de que torci o nariz, quando tio Lute contou a novidade, arremedando a fala caipira dele. Pois sim, um mês de passeio no Cadillac foi o suficiente pra estourar com a nossa sólida apreciação sobre a sonsura do Otavianinho. Foi de novo tio Lute quem contou a respeito: já sabem? O Otavianinho quase morreu, ainda agorinha. – Hein? – É.

– De quê? – Por acaso, eu vi tudo, desculpou-se. Sabe o que o Otavianinho andava aprontando? disse controlando mal a excitação. – Pois o mocorongo envinha de há muito pulando a janela da casa do seo Canuto, direto pró quarto da Calixtinha! Oooo queeeeê? meu pai falou. – Pois foi. O Canuto descobriu e queria matar o homem.

Foi lá na loja, armado e aos gritos. É, o Otavianinho deu foi muita sorte, porque agarraram o Canuto e ele teve tempo de escapulir. Escapulir, arre, o único senão estético do relato. bom, tio Lute e meu pai não se deram conta da minha presença. Assim que começaram a conversa aproveitei pra ficar invisível e escutar tudo, tão excitada quanto tio Lute. De noite percebi que meu pai contava a história pra minha mãe, ele também com um gozo desconhecido na voz. Escutei eles rirem, o que me dava sempre enorme felicidade. Na minha cama, depois que Neneca dormiu, foi a minha vez de saborear tudo, economizando ponto por ponto daquela história que mexia com a minha fantasia mais secreta: depois que todos dormissem, o Adalberto da Têxtil viria arranhar feito um gato a janela do meu quarto e eu iria abrir só um pouquinho e ele falaria coisas comigo e proporia outras, com uma voz irreproduzível, de tanto desejo, e eu iria negar-me como Santa Maria Goretti. Ele me tocaria de leve, demoradamente, ou forte e rápido, numa mistura de perversão e respeito. Sairia noite afora, suspirando por mim, e eu passaria a noite em claro, suspirando por ele. Ganhei simpatia pelo Otavianinho e uma admiração pela Calixtinha, que fez aquilo tudo e continuava com a mesma cara inocente. Que mistério, meu deus! O Canuto morria de dengo pelo neto feito à sua revelia, fez as pazes com o genro, que ficou podre de rico. O que eu fico imaginando é porque o Otavianinho pulava a janela de Calixtinha e não namorava como todo mundo, na praça, ou na porta da igreja. Às vezes eu acho que é porque ele era um falso sonso e fui errada de olhar para ele com desdém, ou que a ‘inocente’ da Calixtinha é que armou tudo muito bem armado e o bobo caiu direitinho. Esta segunda hipótese sendo a mais provável, com certeza, a verdadeira. Romeu nenhum pula janela se uma Julieta diligente não afrouxa o trinco. Contudo, tanto tempo passado, considero que, a não ser que as famílias se odeiem e tornem o encontro impossível, é melhor não abrir janela nenhuma, porque a vida é breve e a arte, longa. Mais vale uma janela sempre perigando abrir, que outra para sempre aberta.

Em se tratando de romance, claro. Amo o que dá trabalho. Mas não foi exatamente assim que a Calixtinha raciocinou? Não foram as mesmas minhas razões que a fizeram optar pelo difícil, namorando escondido? Tio Lute falava que o Canuto queria só fazer barulho com o trinta-e-oito. Ah, sei mais nada não, estou ficando confusa. E longe de mim fazer assertivas sobre amor e janelas. O menino da Calixtinha saiu diferente dos dois. ô vida misteriosa!

  • Fonte: Livro “Filandras”, Adélia Prado

janeiro 15, 2021

Nos trilhos do samba paulista

A professora Kelly Magalhães, do Curso de Arquitetura, Urbanismo e Paisagismo da Unesp de Bauru, desenvolveu o projeto “NOS TRILHOS DO SAMBA PAULISTA”, fruto do encontro entre pesquisadores e membros da comunidade, que desde 2017, desenvolvem debates e seminários de Extensão Universitária “O SAMBA NA CIDADE”. 



Ao dar destaque ao Samba, é desvelado os meandros e mecanismos desse importante Patrimônio Cultural Afro-Brasileiro. Tendo em vista a valorização, incentivo e divulgação dessa cultura, promove a aproximação da UNESP Bauru e do IAU-USP com a ASTEC (Associação de Sambistas Terreiros e Comunidades do Estado de São Paulo) e com o “Coletivo Samba”.

O Kolombolo é um dos parceiros e proponente do projeto “Nos Trilhos do Samba Paulista” e através do edital Matchfunding BNDES+ lançou a campanha de arrecadação pela Benfeitoria:


www.benfeitoria.com/nostrilhosdosamba

Funciona assim:  A cada real arrecadado o BNDES paga dois. Mas se caso não atingirem a meta, devolverão tudo e o projeto não acontece. Assista ao vídeo acima para saber mais sobre o projeto. Para estimular a participação, eles criaram uma série de recompensas, confira!


Participe, compartilhe, faça esta história acontecer! 


Siga o projeto no Instagram em: www.instagram.com/nostrilhosdosamba


https://benfeitoria.com/nostrilhosdosamba

janeiro 13, 2021

Outras lembranças de infância – campeonato de melancias!

O post anterior foi com lembranças de minha irmã mais velha, a Tereza. E este traz lembranças da Ivone, minha irmã do meio, que mandou um áudio pelo WhatsApp, lembrando de quando a gente ia passar alguns dias das férias escolares no sítio de nossos avós paternos.

Além de plantarem nas terras do sítio dos Martini, meu avô e tios arrendavam parte de sítios próximos para plantar arroz, feijão e milho etc. Quem já morou em sítio sabe que o trabalho é pesado e as refeições são reforçadas. Por volta das 10 horas da manhã é levado o “café” para os trabalhadores, que nada difere de uma refeição como o almoço. A comida era acondicionada em caldeirões individuais de alumínio, onde tinha arroz, feijão e a “mistura”. Em garrafinhas de vidro era levado o café. Por volta de 13h tinha repeteco: era levado o almoço.

A Ivone lembrou que ela, a Tereza, a Cida e a Antônia (nossas primas que moravam no sítio) iam levar a comida para os trabalhadores na roça (onde os homens estavam cuidando da plantação). Nossa avó tinha também que preparar um caldeirãozinho para cada uma delas, pois queriam comer junto com os trabalhadores, lá, na plantação. E o nosso avô Primo Martini e os filhos,  cultivavam melancias no meio da plantação de arroz.

Em um dos dias, quando as meninas chegaram com o almoço, ela lembrou que nosso avô a pegou por uma das mãos e a levou até o meio do arrozal. Ele já havia escolhido duas melancias e as tinha colocado embaixo das palhas do capim seco que havia sido recentemente carpido, para que ficassem frescas. Depois do almoço as partiu e todos comeram. 

Mas, nesse dia em especial, nosso avô disse para elas: “vamos apostar quem come mais melancia?” E a Ivone começou a comer tanta melancia, tanta, que acabou passando mal. Nosso avô teve que colocá-la na carroça e levá-la urgentemente para a casa de nossa avó. A plantação que estavam cuidando era num sítio próximo, o sítio dos Koelle. 

Quando chegaram na casa de minha avó, ela ficou muito brava com ele e disse: “Primo, onde já se viu fazer uma coisa dessas? Você é adulto, mas ela é uma menininha, ela é uma criança, ela está passando mal!”

Ivone lembra que a nossa avó fez um chá de alguma erva amarga e a fez engolir goela abaixo. Em seguida vomitou muito, botou tudo para fora e melhorou.

Uma curiosidade: lembro que a maioria das melancias plantadas no sítio não eram consumidas ou vendidas. Serviam para alimentar os porcos.

janeiro 8, 2021

Mais lembranças de infância

Já escrevi vários posts sobre minhas lembranças de infância. Como tem muita coisa que não lembro, pedi para as minhas irmãs, Tereza e Ivone e para alguns primos e primas que relatem fatos que lembrem de quando éramos pequenos para que façam parte destas memórias aqui no A Simplicidade das Coisas.

Hoje a Tereza fez uma vídeo chamada comigo. Comentou que ontem, conversando com o Ademilson, seu marido, lembrou de alguns fatos de quando tinha entre 4 e 5 anos de idade. Isso quer dizer que provavelmente tais memórias são do ano em que eu nasci – 1959 ou bem próximo dele.

A estação de Morro Grande, provavelmente anos 1940. Foto cedida por Júlio Cesar Piesigilli, Jaú, SP – Fonte: http://www.estacoesferroviarias.com.br/a/ajapi.htm

Naquela época, minha família morava no Haras Fazenda Morro Grande, de propriedade do Sr. Renato Mário Pires de Oliveira Dias, onde meu avô era o administrador e meu pai e tios eram colonos. Por volta de 1959, meu avô, Primo Martini, comprou o sítio Boa Vista que era de propriedade de seu pai, Luigi Martini e que ficava cerca pouco mais de mil metros do Haras e Fazenda Morro Grande. Portanto, deixou de ser o administrador da fazenda e passou a cuidar de sua propriedade. Toda a mudança foi feita por carroça. Tereza lembrou que na última viagem, os últimos pertences transportados foram os vasos com as plantas de minha avó, Virgínia Rosin Calore Martini. E ela chorou tanto, fez tanta birra dizendo que queria ir junto, que a colocaram em cima da carroça.

Ao chegar ao sítio, Tereza teve a unha do dedão de um dos pés arrancada em um acidente com um dos vasos. Chorou muito. Queria a nossa mãe. O Nelli (diminutivo do sobrenome Antonelli), amigo de meu tio Pedro Cirilo Martini (irmão mais novo de meu pai e o único tio ainda vivo do lado dos Martini) a colocou deitada de bruços sobre o seu cavalo como se estivesse carregando um saco de batatas e a levou para casa. Foi esguelhando por todo o caminho, tal era a dor que sentia. Chegando na fazenda, “a encomenda” foi entregue com a mesma brutalidade com que tinha sido carregada. Tereza tem memória privilegiada. Eu não lembro de quase nada de minha infância antes dos sete anos.

Outro relado feito pela Tereza foi o de um “causo” que meu avô sempre contava e que fazia rir muito a ele e a quem o ouvia. Até a década de 70 havia uma linha férrea que ligava Rio Claro a Corumbataí. A Maria Fumaça circulava em trilhos de bitola estreita e ia parando em alguns lugares durante o trajeto, como a Fazenda São José, o bairro rural de Cachoeirinha, e Morro Grande (atual Distrito de Ajapí) etc.

Pois bem. Uma das famílias mais abastadas de Morro Grande era a do clã dos Piccoli, sendo o seu patriarca conhecido como Dr. Piccoli. Ele não era doutor nem nada, mas o chamavam assim por conta de sua influência e poderio local. Para se ter uma ideia, a estação de trem ficava dentro de sua propriedade. E ela está lá até hoje. Segundo meu avô, numa viagem entre Rio Claro e Morro Grande o Dr. Piccoli vinha todo garboso, fingindo ler um jornal (e pelo que meu avô dizia ele não sabia ler). Em certo momento uma senhora percebeu que o jornal estava de ponta cabeça. Tocou no ombro dele e disse: “Dr. Piccoli, seu jornal está de ponta cabeça”. Ao que ele respondeu: “Eu sei. Já li ele todinho. Agora estou deslendo”.

Verdade ou não, percebe-se que o Dr. Piccoli era um italiano de raciocínio rápido.

dezembro 6, 2020

2020

[…] “A maior parte da nossa memória está fora de nós, numa viração de chuva, num cheiro de quarto fechado ou no cheiro duma primeira labareda, em toda parte onde encontramos de nós mesmos o que a nossa inteligência desdenhara, por não lhe achar utilidade, a última reserva do passado, a melhor, aquela que, quando todas as nossas lágrimas parecem estancadas, ainda sabe fazer-nos chorar. Fora de nós? Em nós, para melhor dizer, mas oculta a nossos próprios olhares, num esquecimento mais ou menos prolongado”.
Marcel Proust
In A sombra das raparigas em flor

Salvo engano, foi Clarice Lispector que disse que o talento da escrita nasce da frequência com que ela é experimentada. E que há quem pense que só os que gostam devem escrever. Não é verdade. Todos que têm algo a dizer, que têm o que compartilhar, que precisam documentar o que vivem, que querem refletir sobre as coisas da vida e sobre o próprio trabalho, que ensinam a ler e escrever… precisam escrever. E minha amiga Rosa Hebling, de Rio Claro/SP, professora aposentada e ótima escritora, tem muito o que compartilhar com suas memórias. Nesse ano atípico resolveu criar em seu perfil do Facebook “O Diário da Rosa”, onde documenta o que já viveu e reflete sobre isso.

O ponto de partida foi em 02 de maio, com “O Diário da Rosa 0”. Nasce com uma carta dedicada à sua neta Jade. No dia 09 do mesmo mês, surge “O Diário da Rosa #1”, onde ela escreve: ” Minha filha Renata me disse assim: – Mãe, você gosta de escrever. Por que você não faz um… tipo assim, um diário da quarentena?

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“Depois de uns dias, me peguei pensando: “diário de quarentena? ”. O que pode haver de interessante para contar sobre a rotina de alguém confinado nos poucos metros quadrados de seu apartamento?”

A partir disso Rosa vem nos presenteando com lindos textos, recheados das mais diversas lembranças. Hoje ela nos brindou com o “Diário da Rosa #29”, que, com sua permissão, reproduzo abaixo. Boa leitura!

Foto por cottonbro em Pexels.com

“Diário da Rosa #29” – Dezembro chegou. Ainda continuo obedecendo ao isolamento social, mas sei que Papai Noel já está preparado para nos assaltar em todo final de corredor de supermercado, querendo nos agarrar em todas as portas de lojas, tentando escalar janelas das poucas casas que ainda se preocupam em vestir-se para o Natal.

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dezembro 5, 2020

O tempo – Adélia Prado

Havia chegado à terceira idade e continuava desinteressada de esportes, ginástica, clubes de dança, enfim, do que cheirasse a “lazer para velhos que, divertindo, melhora a saúde e prolonga a vida”. Ignorava teimosamente a ginecologia preventiva e seus hormônios sintéticos, com a mesma hostilidade que dedicava aos sucos de fruta artificiais. A linha do maxilar, o pescoço, o ao redor dos olhos e da boca deviam cair e engelhar a seu tempo e em paz. Até que a filha chegou da rua com as fotografias da festa e ela levou um susto enorme. Tirou incontinente o seu retrato da proteção de plástico e rasgou-o com brutalidade. Emudeceram todos que tagarelavam a sua volta. Levantou-se e se fechou no banheiro, ainda sem chorar. O que vou fazer?, pensou. O que é que se faz numa situação assim? Pra quem e de quem reclamo?

Foto por Edu Carvalho em Pexels.com

Não era engraçado nem trágico, pois tinha boa saúde, era só dramático – o que cansa -, porque dramas sucedem-se e perduram como pêndulos em moto-perpétuo, insolúveis na sua natureza dialógica. Olha! Uma palavra dessas nesta hora não é um pouco engraçado? Lembrou-se de seus trinta anos, já então lembrando-se dos quinze e dos quinze dizendo ao diretor do teatro na escola: quando eu era menina …Que brincadeira era aquela? Entendeu a atriz famosa, após as agruras da gravidez e do parto dizendo que Deus brinca com as mulheres. O que é mesmo que a chateava? Onde era exatamente o ponto que doía tanto? A vergonha. Ser velho dá vergonha e dá vergonha porque é impudico, arrazoou fugindo do problema. Invejou as freiras teimosas que ainda usam seus hábitos. Deu-se conta de um sentimento ruim, o de que além de velha pecava pela rejeição de sua velhice e pecava feio, aumentando-se por consequência e castigo em mais velhice e mais feiura. O corredor estreitava-se, havia combinado um passeio, a família esperava dela cara boa e sanduíches. Meu Deus! Foi quando começou a rir, a rir, a rir, o marido batendo preocupado à porta do banheiro, temendo um ataque de nervos, coisa bem sem graça. Mas não era nenhum colapso. A mulher lembrara-se de que pela manhã, antes das fotos chegarem, se encontrara com a Marinalva no mercadinho que a brindou com o seleto cumprimento: tá boa? Ainda bem, na televisão você estava muito mais acabadinha… E estampado no caderno de variedades que embrulhava os tomates em meia página colorida, a Neusa Helena, sua colega de escola que não via há quarenta anos. Lá estava, a mais bonita da sala, redonda e feliz, a cabeça tombada no ombro do namorado arranjado no Clube da Terceira Idade, recomendando às senhoras que fizessem como ela, assim, assim e assim. Era uma overdose, pensou achando-se atualizada em seus termos. Mas – e o drama retornou sinalizando uma trégua – o que abunda não vicia e se não morri posso engordar mais ainda. No fundo do seu coração agradeceu a Deus que lhe conservava a vida e lhe recordava o que foi como tábua em águas tormentosas: “Beleza é energia.” Tratou de lavar a cara e ir cuidar dos sanduíches. Ao marido disse em especial: me desculpa, com a certeza de que ao vivo, qualquer mulher é melhor que seu retrato mais feio.

Do livro Filandras, de Adélia Prado – Editora Record – Rio de Janeiro     •     São Paulo, 2001 – página 125.

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