A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

julho 14, 2026

Infância

Durante minha infância eu sempre morei na mesma cidade – Rio Claro/SP – uma cidade pequena naquela época, e não tinha muitos amigos, mas ainda assim, com os que tinha, brincávamos bastante, dando vazão à imaginação. Brincadeiras com brinquedos ou até coisas mais simples – latas, pneus velhos, bola de gude etc., no quintal mesmo, ou até na rua. Naquela época a minha rua era pouco utilizada por carros, nem calçamento tinha.

E eu mais um ou dois amigos às vezes entrávamos em lotes vazios, subíamos em árvores, brincávamos de pique-esconde, futebol e outras coisas. Com o tempo livre vinham as ideias de coisas para fazer, ideias essas nem sempre boas. Exemplo: quebrei um dos braços rodando pneu de carro e eu “encaixado” dentro dele; já fizemos algumas idiotices por aí, que devem ter deixado algumas pessoas fulas da vida. O famoso “fazer arte” como diria minha mãe, e que sempre vinha acompanhado de chineladas no traseiro.

Eu gostava muito de assistir desenhos e como não tínhamos TV os via na casa de vizinhos.

Também havia uma vontade grande de comprar coisas e comer doces, mas como toda pessoa da nossa faixa de renda sabia, não dava pra comprar tudo que as crianças pediam. Então, doce era uma vez por mês, comprado na “venda” dos Pizzirani, que ficava na Avenida 32-A, Vila Alemã.

Eu sou o caçula, terceiro filho dos meus pais. Tenho duas irmãs, brigávamos às vezes, eu sempre achei que meus pais tinham um viés para o lado delas, o que me deixava furioso.

Eu era uma criança inteligente e muito imaginativa, lia muito, gibis, principalmente, todos de segunda mão. Na Avenida 8-A, em frente ao DAAE – Departamento Autônomo de Água e Esgoto, havia um sebo. Não lembro o nome, mas o proprietário era um homem que tinha as pernas atrofiadas e se locomovia com o auxílio das mãos. Ele fazia trocas. Levava 4 gibis e trocava por 2.

Eu era um pouco ingênuo mas nem um pouco santo, e bastante reclamão. E sempre fui magrelo, mas só comecei a ficar complexado com isso lá pelo segundo ano do Grupo Escolar, quando me diziam isso na escola. “Você é magrelo e orelhudo”. E minha mãe sempre querendo me engordar com fórmulas gostosas (leite condensado batido com 3 ovos de pata com casca e tudo e um vidro de Biotônico Fontoura). Um cálice antes das refeições. E fórmulas nada gostosas (uma colher de sopa de Óleo de Fígado de Bacalhau).

Morei 21 anos em São Paulo, voltei para Rio Claro faz uns 4 anos, mas a cidade mudou bastante, assim como as pessoas. Hoje em dia as pessoas vivem mais isoladas. Deve ser a tecnologia, ou a violência ou mesmo falta de amigos.

julho 17, 2025

 Livro: Comer Para não Morrer: Conheça o poder dos alimentos capazes de prevenir e até reverter doenças, do Michael Greger

Filed under: Uncategorized — Augusto Jeronimo Martini @ 14:03

Michael Greger é médico, escritor e palestrante da área de nutrição, segurança alimentar e saúde pública reconhecido internacionalmente. Fundou o famoso site NutritionFacts.org, um serviço que disponibiliza gratuitamente vídeos e artigos com as descobertas científicas mais recentes das pesquisas em nutrição. Concluiu duas licenciaturas, uma na Universidade de Cornell e outra na Faculdade de Medicina da Universidade de Tufts e atualmente é diretor do Departamento de Saúde Pública e Agropecuária da Humane Society dos Estados Unidos.

Comer Para não Morrer é um guia do poder dos alimentos que vai garantir saúde e bem-estar ao lado de sua família e amigos por muitos e muitos anos.

Infecções, diabetes, depressão, cardiopatias. Seja qual for a doença, a rotina é a mesma: após exames e consultas, a maioria dos médicos se restringe a receitar um remédio ao paciente. Tratamentos alternativos não são mencionados, e medicina preventiva parece uma realidade distante. O resultado é que milhares de vidas são perdidas prematuramente em virtude de doenças que poderiam ter sido evitadas ou revertidas. Mas não precisa ser assim.

Comer para não morrer trata de um estilo de alimentação capaz de prevenir, controlar e até reverter muitas das principais causas de morte da atualidade: a dieta à base de plantas / vegetais — ou plant-based diet, como é conhecida popularmente. Com uma linguagem clara e ferramentas práticas que nos indicam o que comer, quando e em que quantidade, o livro se fundamenta em estudos acadêmicos para desmistificar a ciência por trás dessa forma de nutrição revolucionária e mostra que adotá-la está longe de ser um bicho de sete cabeças.

Fonte: https://veganbusiness.com.br/

𝑽𝒊𝒗𝒆𝒓 𝒐𝒖 𝑫𝒖𝒓𝒂𝒓❓

Filed under: amor,Atualidades,Cidadania,Coisas que eu gosto,Educação,Uncategorized — Augusto Jeronimo Martini @ 13:48

Outro dia, no meio de uma conversa séria sobre planos para o futuro, alguém soltou a pergunta fatal: “Você quer viver ou quer durar?” Na hora, fiquei sem resposta. Parecia uma daquelas pegadinhas existenciais que dão um nó no cérebro. Como assim, “viver ou durar”? Não é a mesma coisa? E foi aí que comecei a pensar melhor.

Durar é aquela vida meticulosamente planejada. Acordar cedo, comer aveia, fazer exames regulares, evitar frituras e álcool, usar protetor solar até dentro de casa. É pagar boletos em dia, manter um currículo atualizado e separar o lixo reciclável corretamente. É não se expor a riscos desnecessários, não gastar energia com bobagens, seguir a cartilha da longevidade. O problema é que, às vezes, quem só dura esquece de viver.

Viver, por outro lado, é sair sem rumo e descobrir um boteco com o melhor torresmo do bairro. É rir até perder o fôlego, mudar de caminho porque um cachorro simpático quis te acompanhar, aprender a tocar violão aos 60 anos só para tocar mal e sem compromisso. É dizer “sim” para convites improváveis e “não” para convenções sem sentido. Viver é tomar sorvete sem culpa, se apaixonar sem garantias, dançar sem saber os passos.

E então, veio a dúvida cruel: e se eu tentar fazer as duas coisas? E se eu quiser durar e viver? Tomar vinho, mas comer brócolis? Correr na esteira, mas também correr para pegar um pôr do sol na praia? Manter a poupança organizada, mas também viajar sem planejamento de vez em quando?

O problema é que nossa sociedade idolatra os que duram. São eles que recebem prêmios de “exemplo de disciplina” e ocupam capas de revistas de negócios. Viver, por outro lado, é visto como irresponsabilidade. Quem vive demais é chamado de impulsivo, imaturo, inconsequente. Mas e se o verdadeiro erro for passar tanto tempo tentando durar que, no final, esquece-se de viver?

Me lembrei de um conhecido que, durante toda a vida, economizou cada centavo, sempre dizendo que ia aproveitar quando se aposentasse. Morreu um mês depois de pendurar as chuteiras, sem ter usado metade das camisas bonitas que guardava “para ocasiões especiais”. Também lembrei de um amigo que vivia cada dia como se fosse o último e… bem, um dia foi mesmo. Talvez a grande sabedoria esteja em não cair em nenhum dos extremos.

Então, qual é a resposta certa? Eu decidi que não quero apenas durar. Mas também não quero viver como se não houvesse amanhã, porque, convenhamos, na maioria das vezes há. Quero equilibrar o manual da longevidade com o roteiro das boas histórias. Quero me cuidar para ter energia suficiente para as aventuras que ainda me esperam. Quero, sim, evitar os riscos idiotas, mas não me privar dos riscos emocionantes. Quero durar, mas com conteúdo.

E se um dia alguém me perguntar qual foi a minha escolha, espero poder responder com um sorriso maroto: “Eu escolhi viver. E durei bastante fazendo isso.”

Crônica de Carlos Coelho

A morte é um dia que vale a pena viver

Filed under: amor,Atualidades,ética,Coisas que eu gosto,Educação,Saúde,Uncategorized — Augusto Jeronimo Martini @ 13:41

Resenho escrita por Angelo Faleiro e publicada em seu blog pessoal.

Algumas pessoas podem achar estranho o interesse em um livro sobre a morte. A maioria de nós não gosta de pensar nela, embora ela seja uma realidade. Gosto de meditar sobre a vida tendo a morte sob os holofotes. A consciência da finitude é angustiante, mas nos oferece uma perspectiva mais apurada sobre como deveríamos viver esta vida.

O livro “A morte é um dia que vale a pena viver”, escrito pela médica Ana Claudia Quintana Arantes, é uma mistura bem elegante de conceitos relacionados a cuidados paliativos e reflexões sobre a vida diante da perspectiva da morte.

Gostaria que mais médicos lessem a obra para que procurassem proporcionar a kalotanásia, a bela morte. Meu avô sempre falava sobre isso (sem usar esse termo, é claro). Ele pedia a Deus uma boa morte. Infelizmente, não tenho certeza de que ele a teve.

Alguns termos usados por Ana Claudia vão demorar para sair da minha mente. Ela fala sobre “zumbis existenciais”, pessoas que vivem sem viverem, que estão ausentes de suas próprias vidas, sem conexão consigo e com os outros; para essas pessoas, só falta morrer fisicamente.

“Muita gente não está viva de fato, mesmo com o corpo funcionando bem. É uma coisa terrível. Pessoas que enterraram suas dimensões emocional, familiar, social e espiritual.” ~ Ana Claudia Quintana Arantes

Ana Claudia também usa a metáfora do muro para falar sobre a morte (imagem emprestada de William Breitbart, psiquiatra). De acordo com a ilustração, estamos vivendo, caminhando pelo mundo até que nos deparamos com um muro. Ao chegarmos ali, não há como voltar ou escalar. Só podemos olhar para trás.

“O que norteia nosso caminho e nos impele a fazer boas escolhas é a certeza de que, quaisquer que sejam nossos caminhos e escolhas, o muro nos aguarda.” ~ Ana Claudia Quintana Arantes

Ao abordar a dimensão espiritual diante da morte, Ana Claudia é feliz em chamar a atenção para a diferença entre acreditar e ter fé. Quando se acredita, existe um tipo de relação de troca em que a frustração de não receber a cura ou mais vida faz a pessoas desmoronar quando a morte se aproxima. Quando se tem fé, o moribundo se entrega aos cuidados de Deus, “aquele que pode nos levar ao nosso destino. (…) Ao verdadeiro sentido de dizer: ‘Seja feita a vossa vontade.’”.

Na parte final do livro, Ana Claudia retoma e comenta os cinco tipos de arrependimento mais comuns entre pacientes no final da vida, originalmente citados pela enfermeira Bronnie Ware. Essa é uma das partes mais propícias à reflexão sobre a vida. São cinco capítulos muito enriquecedores.

“Dizemos que depois do trabalho vamos viver, mas esquecemos que a opção ‘vida’ não é um botão ‘on/off’ que a gente liga e desliga conforme o clima ou o prazer de viver.” ~ Ana Claudia Quintana Arantes

Gostei bastante do livro. Tem uma mistura de poesia em prosa com conhecimento e caminhos para reflexão pessoal. Se alguém quer pensar sobre a vida, deveria começar meditando sobre como ela é um recurso limitado e temporário – pelo menos esta vida.

O livro “A morte é um dia que vale a pena viver”, com 191 páginas, foi escrito por Ana Claudia Quintana Arantes, publicado pela Casa da Palavra em 2016 e pode ser comprado na Amazon.

maio 26, 2025

Crendices e simpatias

Filed under: Infância,Lembranças,Memórias,Saúde,Uncategorized — Augusto Jeronimo Martini @ 12:21
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Pouco a pouco estamos perdendo a conexão com o mundo espiritual e nos tornando materialistas demais. Lembro-me que quando criança minha mãe, tias e vizinhas davam um jeitinho para tudo, sempre com a ajuda de benzimentos, simpatias etc. , que hoje, ao olhar de muitos, não fazem o menor sentido. Mas naquela época todo mundo jurava que dava certo. Exemplos:

•    Para diminuir um galo na testa depois de uma batida: aperte uma faca de aço em forma de cruz no galo.

•    Para abrir o apetite das crianças: bata em um liquidificador 1 litro de Biotônico Fontoura, 1 lata de leite condensado e 3 ovos de pata com casca e tudo. Coe e guarde numa garrafa bem fechada e vá administrando todos os dias, aos poucos. Bebi muito isso. E adorava. Detestava quando minha mãe substituía isso por óleo de fígado de bacalhau.

•    Para ajudar a criança a falar as primeiras palavras: depois da passagem de ano, a primeira chuva de janeiro deve ser colhida em um copo e essa água deve ser dada para a criança beber.

•    Para saber o sexo do bebê: coloque sob uma almofada um garfo, e sob outra uma colher. Se a grávida sentar na almofada com o garfo, a criança é um menino, se escolher a colher, é uma menina. A grávida não pode saber que a simpatia está sendo feita.

•    Para ajudar a criança a começar a andar: levar a criança pela mão, varrendo o caminho onde ela vai passar.

Dias atrás, conversando com Maria Aparecida, uma senhora muito simpática que como eu é aluna em um Curso de Panificação, ela contou-me que quando criança sua mãe tinha uma técnica diferente e terrível para administrar o óleo de fígado de bacalhau:

  • Sua mãe vinha com o vidro do remédio em uma das mãos e na outra uma colher das de sopa. E ela, em uma das mãos tinha que segurar um cinto de couro que era de seu pai e na outra mão segurava a chave da porta de entrada da casa. A mãe dizia: “abra a boca”. E enfiava goela abaixo uma colherada do maldito óleo. Se ela soltasse a chave ou o cinto, levava uma surra.

Tenho um primo de segundo grau que sofria de bronquite. Na crendice popular, existe uma simpatia que consiste em colocar uma Formiga Feiticeira num saquinho de pano sendo este dependurado no pescoço da criança deixando-o na altura do peito. A formiga pica a criança várias vezes sendo seu veneno assimilado pelo corpo curando assim a bronquite. Se é crendice ou não, o meu primo distante sofreu com as picadas, mas nunca mais teve crises.

Para quem quiser saber mais, a Formiga-Feiticeira ou Hoplocrates cephalotes (Mutillidae na verdade é uma fêmea de vespa da família Mutillidae. Nesta família, machos são alados e fêmeas não têm asas. São também ectoparasitas de insetos imaturos.

setembro 24, 2024

Um ano sem Ana Maria…

Hoje, 24 de setembro de 2024, faz um ano que Ana Maria de Almeida Camargo nos deixou.

Ficou um grande vazio em nossas vidas…, principalmente daqueles que falavam ou teclavam com a Ana diária ou semanalmente, daqueles que trabalhavam com ela em algum dos diversos projetos dos quais participava simultaneamente, daqueles que a mantinham informada de suas atividades, daqueles que pediam conselhos e opiniões, daqueles que foram seus orientandos, daqueles que se tornaram seus amigos…

Entrevista de Ana Maria à UNIVESP (2016)

Só não ficou um vazio profundo porque Ana Maria nos deixou a inspiração e a força para continuarmos nosso trabalho em prol da Arquivologia, dos Arquivos e dos profissionais da área, graduados ou não.

Obrigada, Ana!

Saudades…

Fonte: https://arqsp.org.br/um-ano-sem-ana-maria/

fevereiro 1, 2024

Governo de São Paulo muda decreto sobre acesso à informação e tira atribuições do APESP

No apagar das luzes de 2023, o Governo de São Paulo decidiu implodir o papel de destaque do Arquivo Público do Estado (APESP) na legislação que regula o direito de acesso à informação em âmbito estadual.

Publicado em 09 de dezembro do ano passado, o Decreto nº 68.155 cria um novo regulamento para o acesso à informação no Estado. O dispositivo amplia o rol de agentes públicos que podem classificar documentos no grau ultrassecreto, mesmo movimento realizado no governo do ex-presidente Jair Bolsonaro – de quem Tarcísio de Freitas, hoje governador de São Paulo, foi um dos principais ministros.

Além de facilitar as possibilidades de sigilo, o novo decreto também empodera a Controladoria Geral do Estado (CGE), hoje chefiada por Wagner Rosário (ex-ministro da Controladoria Geral da União no Governo Bolsonaro). O aumento de poder atribuído à CGE coincide com o desmantelamento das atribuições do APESP. O Decreto 58.052/2012 havia dado ao Arquivo Público do Estado o status de instituição basilar para o estabelecimento da política estadual de arquivos e de gestão de documentos. Conforme o dispositivo, cabia ao APESP, inclusive, a presidência da Comissão Estadual de Acesso à Informação, além do controle do Sic.SP. Ambos foram transferidos para a CGE no novo regulamento.

O decreto mais recente também altera pontos importantes na estrutura das CADA (Comissões de Avaliação de Documentos e Acesso), fundamentais para o estabelecimento da política de gestão e acesso no Estado. Pelo decreto de 2012, as CADA eram vinculadas à autoridade máxima de cada órgão da administração, estavam compostas por servidores de nível superior de diferentes áreas e, dentre suas atribuições, ficavam responsáveis pelas orientações sobre sigilo e acesso. O novo decreto extirpou todos estas importantes características.

Nas disposições finais, o dispositivo promulgado por Tarcísio de Freitas em dezembro passado, revoga também uma disposição de 1984: o inciso XII do artigo 6º do Decreto 22.789, que dá ao APESP a atribuição de “propor a política de acesso aos documentos públicos”.

Cabe lembrar que, há quase 40 anos, o Arquivo Público do Estado de São Paulo se dedica profundamente à regulamentação da gestão de documentos e do acesso à informação em São Paulo. Caracterizado por avanços significativos desde então, o APESP agora se une ao grupo das instituições arquivísticas estaduais esvaziadas – ao menos parcialmente – pela administração pública – grupo infelizmente predominante na realidade arquivística brasileira.

Em uma publicação em seu sítio institucional, o APESP anunciou que “no último dia 12 de dezembro, o Governo do Estado de São Paulo publicou no Diário Oficial do Estado o Decreto Nº 68.155, que estabelece uma nova regulamentação da Lei de Acesso à Informação (LAI) no Estado em conjunto com o programa de proteção a denunciantes de irregularidades contra a administração pública estadual”. Na mesma publicação e em tom resignado, o coordenador da instituição, Thiago Nicodemo (mantido pela gestão de Tarcísio), afirmou que o APESP cumpriu sua missão. “Sei que a Controladoria do Estado fará um trabalho brilhante daqui em diante” – afirmou.

Fonte: girodaarquivo

A paralisação do Memórias Reveladas e os 60 anos do Golpe Militar

O ano de 2024 marca os 60 anos do golpe de 1964.

Temos certeza de que inúmeros serão os eventos e manifestações para “rememorar” o período da ditadura militar. A efeméride é um momento importante para reforçar as lutas contra as forças autoritárias, responsabilizar autores de mortes e desaparecimentos, denunciar atrocidades, buscar reparações históricas, permitir o direito à memória e à verdade e, sobretudo, relembrar a sociedade o que aconteceu para que não se repita. Afinal, sabemos que o perigo não passou.

 Nesse sentido, é fato que um grande aliado para ajudar na construção de reflexões importantes em relação àquele episódio é o Memórias Reveladas.

 Criado em 2009, pela então ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, no contexto de implementação de uma política de direito à memória e à verdade promovida pelo Estado brasileiro, o Centro de Referência das Lutas Políticas no Brasil (1964-1985): Memórias Reveladas tem por objetivo disponibilizar os arquivos sobre o regime militar e as lutas políticas durante a Ditadura. Sob a coordenação do Arquivo Nacional, mantém uma base de dados que integra, em rede, acervos e instituições, resultado de acordos de cooperação firmados entre a União, estados e o Distrito Federal, num total de cerca de 160 instituições parceiras.

 Desde sua criação o Memórias Reveladas atuou no sentido de constituir uma política integrada de acervos sobre a resistência à ditadura militar, contemplando sua identificação, tratamento, preservação e difusão. Ademais, o Centro mantém o Prêmio de Pesquisa Memórias Reveladas, concurso monográfico de trabalhos que utilizam fontes documentais do período de 1964-1985, além de promover eventos diversos, como exposições, seminários e publicações sobre a temática.

 Não causa surpresa a ninguém que, durante o governo do presidente Jair Bolsonaro, o Memórias Reveladas foi alvo de inúmeras denúncias públicas sobre a tentativa de esvaziamento de suas atividades como, por exemplo, a desvinculação do Gabinete da direção-geral do Arquivo Nacional e, por conseguinte, seu rebaixamento institucional; o grande atraso no lançamento das obras vencedoras da edição 2017 do Prêmio de Pesquisa Memórias Reveladas – publicadas somente em 2022, após uma série de denúncias dos autores nos meios de comunicação – e a suspensão de novas edições. Como se não bastasse, acompanhamos a paralisação dos trabalhos de organização e disponibilização de acervos das Delegacias de Ordem Política e Social – DOPS junto aos arquivos estaduais, além de censuras e perseguições contra servidores da área no Arquivo Nacional.

 Com a eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ansiávamos que o Memórias Reveladas tivesse sua situação revista, mas infelizmente isso não aconteceu. Nem o fato dos 60 anos do golpe militar parece impulsionar essa possibilidade. O que nos leva a essa triste constatação são questões como: a) os órgãos colegiados que compõem o Memórias Reveladas, e que possuem um papel fundamental na elaboração de projetos de difusão e de produção de conhecimento sobre o período da ditadura militar do país, não foram compostos ou convocados pela atual gestão do Arquivo Nacional; b) na nova estrutura do Arquivo Nacional, aprovada pelo Decreto nº. 11.874, de 29 de dezembro de 2023, o Memórias Reveladas manteve-se subordinado à área voltada ao tratamento técnico do acervo sob a guarda da instituição arquivística, reforçando o esvaziamento político que o Centro de Referência vem experimentando desde 2016; c) de maneira semelhante, não houve, até o momento, uma nova edição do Prêmio de Pesquisa Memórias Reveladas, cuja periodicidade deveria ser bienal.

Essa morosidade do Arquivo Nacional em recompor o Memórias Reveladas mantém a política de enfraquecimento do Centro de Referência, criado no âmbito das ações de recolhimento, ao Arquivo Nacional, dos acervos dos extintos Conselho de Segurança Nacional, Comissão Geral de Investigações e Serviço Nacional de Informações (SNI). Vale lembrar que tais ações foram iniciadas em 2005 e tiveram por objetivo a garantia do direito da sociedade à memória e à verdade.

Portanto, um dos aspectos mais graves do esvaziamento do Memórias Reveladas é a paralisação da disponibilização de acervos sobre a ditadura e a resistência no Brasil, por meio de um banco de dados alimentado de forma cooperativa por arquivos e instituições públicas e privadas que compõem a Rede Nacional de Cooperação e Informações Arquivísticas.

Cumpre destacar que foi por meio dessa cooperação que foram identificados, tratados e disponibilizados, pelos arquivos estaduais, documentos dos DOPS que serviram para a implementação/execução das ações de reparação às vítimas da ditadura militar, e para a produção acadêmica e científica dedicada à investigação do passado recente do país, aspectos fundamentais para a construção da cidadania e o fortalecimento da democracia.

Pelo andar da carruagem, nem os 60 anos do golpe militar, tampouco os recentes acontecimentos antidemocráticos, são motivos relevantes para a direção do Arquivo Nacional retomar as importantes ações do Centro de Referência das Lutas Políticas no Brasil (1964-1985): Memórias Rev

Replicado do blog da Associação de Arquivistas de São Paulo: A paralisação do Memórias Reveladas e os 60 anos do Golpe Militar (pontodevistaarqsp.wixsite.com)

janeiro 23, 2024

Tiradentes MG, destino turístico imperdível

Tenho a tendência em bater longos papos com pessoas estranhas que encontro pela vida afora. E isso resulta em uma série de conhecidos que preenchem meus dias com conversas agradáveis, conselhos e informações.

Passei 07 dias desse mês em Tiradentes/MG e cidades vizinhas, onde pude apreciar a linda arquitetura colonial, a deliciosa comida mineira, as estradas e paisagens montanhosas. Em uma de minhas caminhadas pelas ruelas de Tiradentes, mais precisamente próximo da rua Jogo de Bola, cruzei com D. Josephina, de 90 anos, elegantemente vestida, dando passos lentos com seu andador de apoio, que ao me ver esboçou um largo sorriso e disse: “boa tarde!”. O que aconteceu em seguida segue no relato abaixo.

D. Josephina

Ela parou e começou a puxar conversa. Disse que saiu de casa logo cedo para sua lenta caminhada. Perguntou de onde eu era e em seguida emendou que era nascida e criada em Tiradentes. Que adora conversar e contar “causos”. Disse: “você conhece Papo Suado (fubá suado)?” Diante de minha negativa, começou a contar que quando era jovem, ao cair da tarde e começo da noite, as pessoas se reuniam nas casas para rezar o terço. Depois de terminada a profissão de fé, sentavam na frente das casas para tomar café e comer papo suado. Em uma panela de ferro, colocavam toucinho para fritar. Depois acrescentavam fubá úmido com um pouco de sal. As vezes também colocavam queijo. Depois de pronto e morno, uma generosa colherada era acondicionada na palma da mão a qual era comprimida como um bolinho e comia-se junto com o café.

Josephina falou que a carne do Natal não deve ser porco, vaca ou galinha. Que tem que ser um pernil de cordeiro bem assado, com temperos e especiarias. E elencou sua receita. E frisou: “você pode fazer essa mesma receita em qualquer outra época do ano. Mas, com o sabor e o aroma quando é feito na noite de Natal, nunca ficará igual.”

Também discorreu sobre receita para curar a ressaca e disse ser infalível. Molhar o fubá, fazer bolinhas e dentro de cada uma delas colocar um pedacinho de pau de canela. Levá-las ao fogo em uma panela com água e deixar ferver. As bolinhas não desmancham. Depois de fervidas, retirar as bolinhas e tomar a água resultante da fervura. É tiro e queda, segundo ela. Você estará pronto para novo porre!

Rua Jogo de Bola

Ela ficou viúva faz 3 anos. Tem 3 filhos e todos tentam agradá-la da melhor forma possível. Gosta da boa comida acompanhada de um bom vinho. E ao final de nossa conversa deu um conselho sobre o melhor cartão de crédito que podemos ter nessa vida: “Eles são três – a amizade, o amor e a caridade”.

Nos despedimos. Ela estava a caminho do Restaurante Padre Toledo onde trabalhou durante 51 anos. Iria comer uma tapioca e tomar uma taça de vinho. Deu seu endereço, e disse sorrindo: quando passar pela rua Jogo de Bola, número tal, a porta está sempre aberta. Pare para tomar um café e papearmos.

Saúde e força para D. Josephina!

outubro 10, 2022

O meu pai glutão

Meu pai era um operário que fazia trabalho pesado, mas antes disso foi agricultor. Acho que posso classificá-lo como um pouco bruto em seu modo de ser. Mas como dizem, “os brutos também amam”. Apesar da dificuldade que tinha em expressar o seu amor, era portador de um coração doce, enorme e aparentemente entre mim e minhas duas irmãs não tinha um filho preferido, como deve ser com todos os pais.

Comia muito mal e em quantidade, mas com gosto. Adorava carnes de panela bem gordas, muita manteiga ou margarina no pão, toras de mortadela, tigelas grandes de doces de abóbora, banana etc., torresmos e um sem-fim de tranqueiras. Mas não foi por conta de doença cardíaca que morreu. Acho que essa fome desmensurada foi por conta da infância e juventude que teve e as dificuldades que passou. Tinha mania de fazer estoque de alimentos não perecíveis. A cozinha era o maior cômodo da casa e em um dos cantos havia um enorme baú de madeira onde ficavam acondicionados dezenas de quilos de arroz, feijão, trigo, açúcar, sal, latas de óleo, margarina… Quando ficava sabendo que em dito supermercado havia um produto em promoção ia até lá e comprava o tanto que o dinheiro que tinha no bolso dava para comprar.

Meu pai, Antonio Martini, era um ecologista nato

Me lembro claramente da sensação de que eu tinha vendo-o comer. Dava gosto de vê-lo comer com tanto prazer. Minha mãe é quem preparava o prato. Prato fundo. Montanha de arroz com feijão e sobre ele a “mistura do dia”. A comida tinha que estar morna e ao lado do prato sua colher de estimação. Sim, ele comia de colher e tinha que ser a colher dele. Era raro ele aceitar um convite de almoço na casa de parentes ou amigos. Mas, quando ia, a colher o acompanhava, no bolso. Mesmo ainda criança, eu acho que percebia que aquela fome não era só de comida. Se fosse, ele já estaria satisfeito com três sanduíches de pão com mortadela. Mas ele chegava a devorar dez, doze de uma só vez… Dizia: “Maria, hoje não vou jantar. Vou comer pão com mortadela”. Tive que viver algumas décadas ainda para entender os vários tipos de fome das pessoas em suas tentativas de compensações.

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