A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

setembro 20, 2010

O que vejo da minha janela – Escultura “Índio Caçador”, de João Batista Ferri

A Trud, uma simpática senhora do prédio onde moro e que habita o sétimo andar há 45 anos, fala sempre com saudade de nossa Avenida. Dos bons restaurantes, do glamour que já não existe… Diz que o Índio Caçador, escultura que vejo da janela do meu apartamento, foi encomendada em 1939 pelo governo local. O artista e autor escolhido foi João Batista Ferri. A obra fica sobre em um pedestal de 1,20 metros de altura e retrata em bronze o índio durante a caça, atividade considerada essencial dentre os costumes indígenas. Desde então, ele está ali, imponente, como que esperando uma caça que nunca vem, com os olhos fixos na Praça da República. Quando chegamos perto, vemos a perfeição da escultura – as veias do braço saltadas mostram o esforço empreendido. Parece que se colocarmos a mão dá para sentir o sangue correndo num corpo de bronze.

Índio Caçador - de João Batista Ferri

Segundo a Trud, nossa rua mudou muito desde a chegada dela ao lugar. E emenda – é Augustus (que é como ela pronuncia o meu nome em seu sotaque Romeno) – o mundo mudou e as pessoas também! A rua, antes um reduto dos barões do café e de bons restaurantes e cafés, aos poucos foi se degradando.

Falamos da Avenida Dr. Vieira de Carvalho. E o índio caçador retrata em seu semblante um olhar que parece confuso, como se não entendesse as transformações. O seu olhar que deveria ser bravio, se o observarmos bem, agora mostra certo medo, incertezas talvez…

A escultura já foi muito depredada nesses dois anos e meio que moro ali.  Muitas vezes desrespeitada, é escalda por manifestantes… Sua base foi pixada…  Também muitos a ignoram ao passar por ela.  Faz pouco mais de um ano que ela sofreu uma restauração… E novamente já pixaram seu pedestal.

Índio Caçador

Um pouco sobre o escultor João Batista Ferri (texto retirado desse link)

Nasceu em 06 de junho de 1896, na Cidade de São Paulo.
Filho dos emigrantes italianos José Ferri e Massimina Ferri, iniciou os seus estudos no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, com o Prof. Viggiani.
Em 1913, com 17 anos fez a sua primeira viagem à Itália, onde estudou na renomada “Scuola e Laboratório Barolo di Arte Applicata all’Industria”, em Varallo Sesia (Piemonte), com o Mestre Giovanni Mauro e ingressando depois, na Academia de  Belas Artes de “Brera” de Milão.

Em 1917, devido a Primeira Grande Guerra Mundial, volta ao Brasil. De 1919 a 1923, trabalha com o premiadíssimo escultor italiano Ettore Ximenes, no Monumento do Ipiranga e no Monumento a “Amizade sírio-libanesa” – Parque D. Pedro II, doado pela colônia Síria e executado pelo Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo. Em 1922, participa do 1o. Salão Paulista, organizado por um grupo de  jovens e também, da I Exposição de Belas Artes, realizada em São Paulo, no Palácio das Indústrias.

Em 1923, faz nova viagem a Europa, onde executa 3 monumentos aos Mortos da primeira Guerra, nas Cidades de Prato Sesia, Cavaleiro e Boca. Em 1924, participa da Quadrienal de Milão. Em 1925, volta ao Brasil, estabelecendo-se em São Paulo. Em 1928, exerce a função de Secretário da Comissão Executiva do Salão de Arte organizado por “Muse-Italiche”, onde também expôs. Esta exposição foi realizada no antigo Palácio das Indústrias, em maio, sob o patrocínio da ex-Sociedade Italiana de Cultura. Neste mesmo ano participa pela primeira vez do Salão Nacional de Belas Artes, com as obras: Lenda Heróica, Retracto e Índio. Em 1929, participa pela segunda vez do Salão Nacional de Belas Artes, apresentando as obras: Retrato do Prof. Leopoldo e Silva, Espasmos e Raios de Sol, ganhando com esta última escultura, em tamanho natural, a Medalha de Prata, a qual foi adquirida pelo Poeta Olegário Mariano. Em 1932, executa a Herma a Newton Prado, em Leme, e a do Coronel Luiz Dias, em São Jose do Rio Pardo. Em 1933, realiza a sua primeira exposição individual à Rua João Briccola e expõe no Salão Nacional de Belas Artes.  Em 1934, participa do 1o. Salão Paulista de Belas Artes, organizado pelo Governo do Estado de São Paulo, apresentando as obras: Banhista, Nu, Oração ao Sol, Lançador de Peso e Bailarina. Em 1935, participa do 3o. Salão Paulista de Belas Artes de São Paulo. Em 1936, fez exposição, juntamente com Hélios Seelinger e Vicente Leite, no Palácio das Arcadas.
Em 1937 ingressa na Escola de Belas Artes de São Paulo, como Professor de Moldagem, ficando até 1942, e expõe com os quatro irmãos Alípio, João, Pádua e Arquimedes Dutra, no Palácio Arcadas, na Rua Quintino Bocaiúva e visitada pelo então Governador do Estado, Sr. Cardoso de Mello Netto.
Executou em 1938, para o então Prefeito de São Paulo, Prestes Maia, as obras: Índio Caçador, que se encontra na Avenida Dr. Vieira de Carvalho, Guanabara, que está em frente da séde da Prefeitura, no Anhangabaú, e o Tempo na Rua Major Natanael. Para a Prefeitura de Santos: Bacante, no Orquidário Municipal, Monumento a Indústria e Comércio e Municipalidade, no centro, na Cidade de Rio Claro, a Herma de Navarro de Andrade e participa do Salão Paulista de Belas Artes. Expõe ainda, com os Pintores Hélios Seelinger e Paula Fonseca, à Rua Barão de Itapetininga. Em 1939, participa da Exposição Internacional de New York. Em 1941, é agraciado com Medalha de Ouro no Salão Nacional de Belas Artes e no ano seguinte, 1942, é um dos fundadores da Associação Paulista de Belas Artes. Participa do 8o. Salão Paulista de Belas Artes e da Exposição Internacional de Valparaíso, no Chile, onde recebe a Medalha de Honra. A convite do Museu Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro realiza uma exposição individual, em 1943, e outra na Cidade de Piracicaba, São Paulo. Neste mesmo ano ganha o premio Prefeitura de São Paulo, no 9o. Salão Paulista de Belas Artes. Foi membro, em 1944, da Comissão Organizadora que prestou homenagem ao Prefeito Prestes Maia e ao Secretário de Educação de São Paulo, Sr. Sebastião Nogueira Lima, pelo muito que fizeram em prol das Artes Plásticas. Em 1946, expõe em Buenos Aires, juntamente com Júlio Guerra e Joaquim Rocha Ferreira no Salão do “Circulo de Bellas Artes de Buenos Ayres”, e no ano seguinte faz uma exposição individual. Participa do 13o. Salão Paulista de Belas Artes, em 1947, com as obras; Maratonista, Nu e Atleta em Descanso, recebendo a Grande Medalha de Ouro, com esta última e adquirida pelo Governo do estado de São Paulo para a Pinacoteca. Executa em 1949 o Monumento a Valentim Gentil, em Itápolis e em 1951, participa do Salão Baiano de Belas Artes, recebendo a Medalha de Prata e do 16o. Salão Paulista de Belas Artes recebe o Premio Assembléia Legislativa do Estado. De 1954 a 1966 participa de vários Salões Paulista de Belas Artes, acumulando cada vez mais, ao seu currículo diversos prêmios, incluindo o Premio Viagem ao País, conquistado no Salão Nacional em 1960. Em 1977 faz a sua ultima exposição individual no MASP. Em 3 de Fevereiro de 1978 falece Ferri, em São Paulo.

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15 Comentários »

  1. Não entendo o porquê da cidade de São Paulo ter se deteriorado tanto nestes últimos tempos!

    Será que teremos que viver de saudosismo, ou é chegado o tempo de concretizarmos os sonhos de ver a cidade sem lixo e pichações dos muitos que aqui moram?

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    Comentário por Solange — setembro 20, 2010 @ 14:00 | Responder

  2. está faltando por aí mais pessoas que OLHEM COM AMOR para o lugar onde vivem.
    com certeza se soubessem o conteúdo histórico deste belo monumento saberiam preserva-lo…
    se percorressem com as mãos o bronze aquecido pelo sentiriam que há vida ali, que isso deve ser mantido.
    é como a estatua do drumond sentada no banco da praia: sempre tem um infeliz que vai lá o rouba os oculos do poeta.
    monumentos são sagrados.
    são história.
    eu fico muito enfurecida qdo vejo depredações.
    prontofalei!

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    Comentário por lilly — setembro 20, 2010 @ 17:32 | Responder

    • Oi Lilian!

      Pois é. Nosso País não tem memória! Também, em meu caminho diário, passo pela Praça da República. E, na Praça, havia uma obra de arte instalada no meio de um dos lagos, que se chamava Sabiá Laranjeira, do escultor Claude Dunin. Era uma homenagem singela aos sabiás laranjeiras que vivem na Praça da República e que alegram minhas madrugadas, finais de tarde e manhã com o belo canto.
      A obra que havia sido roubada e recuperada, restaurada e recolocada no lugar por volta de 2009, não está mais alí onde foi instalado no olho d’agua da Praça da República na frente da Rua Barão de Itapetininga. Um absurdo. As viaturas da Guarda Civil Metropolitana que tem como uma das funções – a de preservar o patrimônio artístico e cultural da cidade e que vivem por ali não sabem o que dizer. Aliás, a função da guarda Civil Metropolitana e da Polícia Militar na Praça é questionável. A praça está sempre a deriva de marginais, gigolôs, usuários de drogas, mesmo a luz do dia. Uma pena.
      Beijos.
      Augusto

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      Comentário por Augusto Martini — setembro 20, 2010 @ 17:44 | Responder

  3. Como é bom saber da história de cada um que aqui deixou a sua obra marcada, narrada….e muito mais, pelo nosso querido Brasil.
    Bom também é sentir que já se passaram anos e ainda resistem as depredações ou descuidos mesmo do tempo.

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    Comentário por Irany — setembro 20, 2010 @ 17:58 | Responder

  4. Depois que eu ouvi duas pessoas conversando sobre as eleições e uma delas falando que ia votar na Marina Silva e a outra que ouvia disse que nem sabia que a Marina Silva era candidata a presidência… Se para coisas imediatas muitos brasileiros não têm o mínimo de conhecimento, imagine então falar em monumentos históricos. Quantos passam pela Praça do Patriarca e nem sabem quem é o personagem da História do Brasil ali homenageado. E as esculturas dos artistas plásticos pela Praça da Sé que praticamente servem para os moradores de rua estenderem suas roupas. A ação da polícia fica complicada porque qualquer ato pode ser classificado como truculência. Não se pode obrigar um morador de rua a ficar em um albergue. Em outra situação ao se levar um baderneiro/marginal para a delegacia, a equipe policial perde um tempo enorme para se elaborar um boletim de ocorrência. É toda uma estrutura que favorece a omissão.

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    Comentário por Emília — setembro 20, 2010 @ 19:03 | Responder

  5. Fico triste em ver o descaso de tantos com nossas lembranças / patrimônios. Porque não manter viva e inteira tudo o que nos remete ao nosso passado, nossa tradição, costumes e outros? Porque o “homem” teima em destruir, depredar? São tantos os questionamentos e é tamanha a minha indignação que por vezes chego a questionar se todos os seres humanos realmente receberam a inteligência que Deus deu a todos. Sei não. Penso que muitos não entram nessa fila.
    Por outro lado, penso que outros entraram várias vezes nessa fila, que é seu caso… sempre preocupado com a natureza, com nossa história, nos proporcionando momentos agradáveis e de grande conhecimento. Parabéns pela alma sensível. Parabéns pela iniciativa. Parabéns por tudo que faz chegar até a gente. Obrigada de coração!!!!

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    Comentário por Ivana — setembro 20, 2010 @ 19:38 | Responder

  6. Ficamos indignados e perplexos, porém somos uma parcela mínima, infelizmente.
    A grande população não conhece, não respeita, não tem interesse e morrerá na ignorância.
    Somos um povo que não preservamos a nossa memória.
    Abraços, querido.
    Belíssimo post!

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    Comentário por Fátima — setembro 21, 2010 @ 0:10 | Responder

  7. […] o blog do Augusto e leio o título do post: O que vejo da minha janela. Corro lá espiar pela janela da casa dele para ver o mesmo. Da janela da casa dele,_ e eu falo casa e não apartamento, pois ele fez do […]

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    Pingback por olhe para a sua cidade « Blog da Reforma — setembro 22, 2010 @ 13:40 | Responder

  8. […] E foram essas características, que na época (dois anos atrás) desvalorizavam o imóvel, que me atraíram. E tornaram o preço compatível com meu orçamento. Hoje já consigo vendê-lo por duas vezes e […]

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    Pingback por Reforma de varanda de apartamento « A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini — fevereiro 16, 2011 @ 18:24 | Responder

  9. A herma de Newton Prado continua por aqui, os depojos do tenente vieram ocupá-la somente em 1968. A praça da República contava, até há pouco, com os quadros de um pintor e expositor chamado Djalma Urban, nascido em Leme, a exemplo de Newton Prado. O mundo é grande, a Arte torna-o orgânico, há ligações de entre obras e autores e apreciadores. Pena que estas e estes estejam cada vez mais ignorados e incompreendidos.
    Abraço

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    Comentário por Lazaro JOSÉ Sawaya Donadelli — outubro 13, 2011 @ 10:17 | Responder

  10. […] – Avenida Dr. Vieira de Carvalho. Das janelas frontais do apartamento admiro a Praça da República e a escultura do Indio Caçador, do consagrado João Batista Ferri. A depender do dia e horário, a […]

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    Pingback por Ação de desocupação da Cracolândia e a degradação humana « A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini — janeiro 13, 2012 @ 8:54 | Responder

  11. […] me chama de “Augustus” e fala sempre com saudade da rua onde moramos. Diz que o Índio Caçador, escultura que vejo da janela do meu apartamento, foi encomendada em 1939. O artista e autor […]

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    Pingback por A Avenida Dr. Vieira de Carvalho, República, centro de São Paulo | A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini — março 28, 2014 @ 9:20 | Responder

  13. Estive em SP e me vi contemplando aquele índio. Precisava saber mais. Vc ainda atualiza este blog? Sua abordagem me interessa.
    Abreaço
    Joaquim

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    Comentário por JOAQUIM RUDRIGUES — janeiro 30, 2016 @ 16:31 | Responder


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