A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

janeiro 12, 2012

A ação de desocupação da Cracolândia e a degradação humana

Moro em pleno centro de São Paulo, em um edifício construído pelo ex-governador Adhemar de Barros. É um  primeiro andar  que dá para uma rua que já teve ares aristocrátivos – Avenida Dr. Vieira de Carvalho. Das janelas frontais do apartamento admiro a Praça da República e a escultura do Índio Caçador, do consagrado João Batista Ferri. A depender do dia e horário, a visão que tenho das janelas muda da água para o vinho. Durante o dia a rua ainda é um fervor de engravatados e pessoas bonitas que andam apressadamente para seus escritórios, para os bancos. A noite a coisa muda de figura. Mas, mesmo durante o dia é possível, vez ou outra, ver passar algum ser humano que mais parece um zumbi. 

Mapa da Cracolância. Fonte: Folha de São Paulo

Do último dia 3 para cá a situação ficou um pouco pior. A polícia de São Paulo começou uma batalha com os mais miseráveis entre os miseráveis dessa megalópole – os viciados em crack. A área que ocupavam é a “Nova Luz”, nome oficial dado para uma região a qual pretendem reerguer. Mas, o nome popular é mesmo Cracolândia! Fica em pleno centro de São Paulo e funciona há pelo menos 20 anos como ponto de usuários de crack. E só agora nossas autoridades resovelram assim, de um dia para outro, que em uma cidade como São Paulo não se pode permitir que exista um mercado aberto para a venda do crack ou de qualquer outra droga. Olha, para quem não é daqui, não dá para descrever em palavras o nível de miséria que é a cracolância. Acredito que tenham visto nos noticiários de TV a quantidade imensa de lixo que foi retirado do local.

Ação na Cracolândia - Fonte: Folha de São Paulo digital

Na Cracolândia, em 2011, 210 pessoas foram presas acusadas de tráfico, 120 kg foi o total de cocaína e crack apreendidos, e as estatísticas por aí vão.  Após a ação policial, surgem números que demonstram como a miséria humana pode ser fonte de lucro: a venda de drogas na área movimentava R$ 1 milhão por mês.

De um lado, temos o poder público que não consegue controlar tais áreas da capital e nem oferece condições mínimas de vida aos habitantes do local, viciados ou não. E do outro lado temos o fracasso das políticas de combate e prevenção do usos de drogas.

Lá na Cracolândia temos a exposição pública da miséria humana. Mas, no domingo, a Folha de São Paulo trouxe uma matéria dizendo que longe dela, em bairros de classe média, existem apartamentos exclusivos para o uso do crack.

Com a operação, o centro de São Paulo está cada vez mais com cara de cenário de guerra: os viciados reagem como podem, se dispersam quando a polícia está por perto, mas voltam aos locais habituais quando os policiais saem. E, se conseguirem fazê-los dispersar, simplesmente migrarão para outras regiões e criarão novas cracolândias.

O problema é complexo e não é de fácil solução. Devemos cruzar os braços e não fazer nada, como o que se tem feito há 20 anos?  Muitos criticam a ação, mas, até agora, ninguém acenou com uma alternativa sólida e aceita.

Bem, isso tudo é uma história que mostra cada vez mais a degradação do centro da cidade. A região da Cracolândia, atual – que é a Nova Luz e antiga Campos Elíseos, e que a décadas atrás  tinha “ares franceses”, faz parte do passado.

São Paulo está ficando cada vez mais desumana. A miséria está cada vez mais visível e espalhada. Já há moradores de rua nos Jardins e em Higienópolis! De minha janela é comum ver meninas grávidas perambulando pela região, viciadas, que param nas portas dos bares pedindo algum dinheiro. E por dois reais dizem que fazem qualquer coisa. A Folha de São Paulo tem trazido em suas páginas a história de algumas dessas meninas/mulheres grávidas que nem têm idéia das consequências que as crianças que levam na barriga terão quando nascerem.

Uma das grávidas da Cracolândia. Fonte: Folha de São Paulo digital

E  ontem li uma reportagem que me emocionou. A Sra. Teresa Beatriz Viega, uma aposentada de 68 anos, todas as noites saia pelas ruas da região em busca de sua nora Desirée, de 35 anos, viciada e grávida de quatro meses. O filho de Teresa, João, está preso por tráfico, e a aposentada é o único laço que pode levar Desirée a ter um pouco de vida civilizada. Hoje vi que ela encontrou a nora.

Teresa Beatriz Viega, 68 anos e sua nora Desirée, de 35 anos. Fonte: Folha de São Paulo digital

Os viciados da Cracolândia – e os viciados em crack em geral – possuem um perfil definido, segundo pesquisa coordenada por Maria Gorete Marques de Jesus, do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo. Ela analisou 923 casos e verificou que a maioria (54%) é jovem (entre 18 a 29 anos), pobre (61% não têm como pagar advogado e, por isso, eram atendidos pela Defensoria Pública), e de baixa escolaridade (80% tinham apenas o ensino fundamental).

Mas, o que me deixa mais assustado com tudo isso é ver que essa desgraça toda está acontecendo  em tão grande escala, não nos cantos mais escondidos ou na periferia de cidades emergentes mais remotas do Brasil. Isso tudo está acontecendo no centro da cidade mais rica do país e da América Latina, bem na frente dos meus olhos e que cada vez mais mostra-se como uma cidade desumanizada e cheia de desgraçados.

Só para finalizar – ontem, quase chegando ao trabalho e na praça em frente ao Poupa Tempo Sé, entrada para a estação do metrô do mesmo nome, uma mulher, inteiramente nua, corria aos gritos, completamente tomada pela insanidade que o crack lhe proporciona. E, nessa mesma praça, a cada manhã, há dezenas de miseráveis que aguardam por um pão, sem nenhum recheio e um pouquinho de café – iguarias que uma senhora idosa lhes oferece. Todos os dias ela chega na praça por volta de 8h00, trazendo um saco de pão e um galão com café. Traz também uma vassoura. Fica sempre no mesmo lugar. Primeiro varre o chão, que está sempre cheio do lixo e dejetos humanos e depois pede que organizem-se em fila e faz sua distribuição. Pacientemente aguarda que comam. E sai pegando os copos descartáveis e pães que eles jogam no chão – apesar dela deixar vários sacos de lixo espalhados para que eles depositem o lixo.

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10 Comentários »

  1. No início da década de 80 era um dos vendedores na conde refrigeração e fazíamos nossa hora feliz em um bar no largo do arouche(não lembro o nome), ainda acho essa região um luxo, mas é verdade que dias melhores se passaram.

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    Comentário por carlos lima — janeiro 12, 2012 @ 16:48 | Responder

    • Boa tarde. Agradeço pela visita. Realmente, como diz uma vizinha, a região era fantástica. Era os Jardins de antanho. Abrs.

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      Comentário por Augusto Martini — janeiro 12, 2012 @ 16:52 | Responder

  2. Augusto, você pode imaginar, saí de Araras aqui do lado da tua cidade de Rio Claro no início da década de 80.
    Eu tinha 17 anos, e você sabe como era o mundinho da gente aqui no interior.
    Eu nunca tinha visto mendigo dormingo em calçada em cima de papelão até ontem.
    Está fazendo 7 anos que voltei para o interior para acabar de criar meus filhos aqui.
    Um abraço, luz e paz. se não leio teu blog alguma coisa está faltando no meu dia, sabia?

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    Comentário por sissi2011 — janeiro 13, 2012 @ 17:42 | Responder

    • Oi Simone. Vc me deixa muito feliz com as visitas ao blog. Um abraço e bom final de semana. Augusto

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      Comentário por Augusto Martini — janeiro 13, 2012 @ 17:44 | Responder

  3. Muito triste toda esta situação. O Serviço Social do Município não tem estruturas para fazer nada, parece que tudo só existe para “inglês ver”. Vamos torcer e acreditar, ainda, de que todas essas pessoas tenham um bom encaminhamento e a cidade possa ter seus antigos bairros um pouco mais tranquilos. Moro na Av. 9 de Julho e por aqui também já existem grupinhos usando crack. Que situação!

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    Comentário por Hélo Bertolucci Jr. — janeiro 16, 2012 @ 9:40 | Responder

    • Bom dia Hélio.
      Obrigado pela visita. Acabei de visitar o seu blog. Fiz um comentário sobre a restauração/reabertura do Solar da Marquesa de Santos e Casa nr. 01.
      Abraços.

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      Comentário por Augusto Martini — janeiro 16, 2012 @ 9:52 | Responder

  4. Oi Augusto, parabéns pelo blog! É sempre interessante ver relatos como o seu, que trazem uma visão de quem tá dentro da coisa. Achei incrível essa senhora que leva café para os viciados…gestos de solidariedade que a gente não imagina que existam em SP. Moro em SJCampos e planejo me mudar pra SP este ano e tenho interesse em ir pro centro. Se você souber me dar algumas dicas de como encontrar um lugar bacana e com um bom preço, fico grata. obrigada!

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    Comentário por Fernanda O. Silva — janeiro 24, 2012 @ 17:35 | Responder

    • Oi Fernanda.
      Eu é que agradeço sua visita. Volte sempre que quiser.
      Vou ver se vejo algo interessante aqui por perto e aviso se achar!
      Um abraço.

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      Comentário por Augusto Martini — janeiro 25, 2012 @ 17:53 | Responder

  5. Triste ver que esta cidade tão rica e cheia de oportunidades, não oferece á estas pessoas auxílio.Que as relações humanas se acabam e se esfriam.é triste ver algo assim!Gostaria de lhe fazer algumas perguntas Augusto, é que sou estudante de jornalismo e queria fazer uma pauta com este tema!Se possível fico grato!

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    Comentário por Washington Ramiro Dos Santos — março 12, 2013 @ 10:01 | Responder

    • Olá Washington. Agradeço sua visita. Fique a vontade para me questionar naquilo que quiser.
      Abrs.

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      Comentário por Augusto Martini — março 12, 2013 @ 12:19 | Responder


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