A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

março 10, 2014

O assédio contra as mulheres na rua!

Todos os dias venho e volta a pé de casa para o trabalho e vice-versa. Caminho uns 25 minutos pelas ruas e calçadões do centro histórico de São Paulo. E, pelo caminho, vejo sempre “os lobos”, que “comem” as mulheres com os olhos e soltam seu gracejos.

Ouço de “Fiu-Fiu”, “Linda”, “moça bonita”, “a beleza é de nascença?!”, até os mais vulgares como “gostosa”, “vai ser boa assim na minha cama”, “te laberia todinha”, “delícia”, “você está no ponto que eu gosto”…  e por aí vai.

assedio

Com isso tudo surge a questão: Será que toda a mulher está interessada em ouvir cantadas de desconhecidos no espaço público? E os homens estariam satisfeitos se essas cantadas fossem para as suas mães, irmãs ou filhas? Define-se o assédio no espaço público quando alguém recebe um “elogio” ou “cantada” de um desconhecido que de certa forma  ofenda, constrange, humilha ou apavora. E nestes casos, as mulheres são as mais afetadas por este ato, que é considerado violento.

As cantadas não são elogios! Pelo mundo afora, movimentos feministas e especialistas na questão do gênero qualificam as cantadas como um tipo de violência contra a mulher. Chega a ser algo tão comum a mulher ouvir cantadas ou que passe por situações que se assemelham ao assédio sexual que o assunto é raramente discutido e seja visto como uma questão natural. Parece mais um fato de existência, tal como a água é água ou ao longo dos anos o ser humano vai envelhecendo. As mulheres são atormentadas no espaço público, que muitas vezes dizem já não se importar com a situação. Quando debatido, o assédio no espaço público é visto de forma esteorotipada, como se fosse uma idéia eloquente do universo feminista, no qual clama-se por novas formas e leis mais duras de relações sociais para a igualdade do gênero.

Muitas vezes o que leva uma pessoa a assediar a outra é o fato de partir do princípio de que o corpo do outro é algo público. Uma cantada torna-se ofensiva, se provocar constrangimento por parte da vítima. As pessoas têm o direito de ir e vir, e isto é garantido por nossa Constituição. Porém, este direito é violado a partir do momento em que as pessoas sentem receio de circular em espaços públicos, por causa do assédio.

Qual seria o limite entre um elogio e uma cantada? Chamar a mulher de “rainha” é agradável? E colocar a mão no corpo dela, pode? Nos últimos anos, as cantadas no espaço público vêm sendo debatidas em vários países e sua discussão tem-se ampliado para a esfera do assédio sexual e direitos da mulher. Em países como o Egito, EUA e Índia as mulheres organizam-se em redes virtuais para combater o assédio sofrido nas ruas.

o vídeo abaixo, produzido pela Whistling Woods International, busca promover a reflexão sobre um problema grave na Índia: o assédio sexual às mulheres. O filme, chamado de Dekh Le, foi lançado em dezembro do ano passado, quando o estupro e assassinato da estudante Nirbhaya completou um ano. O filme serve também para a realidade de outros países que têm o desrespeito às mulheres como hábito, como o Brasil.

Em 2005, a jovem norte-americana, Emily May e seis amigos, três deles homens, criaram o site Hollaback, que comanda uma onda internacional de reações organizadas digitalmente contra o assédio na rua ao redor do mundo. Hoje, o projeto conta com suporte de centenas de organizadores que foram treinados pelo grupo, a maior parte através de extensivos seminários online. Dois dos maiores centros de ação organizada contra o assédio nas ruas, Egito e Índia participam do projeto. Vale relembrar que estes dois países contabilizam alguns casos de agressões sexuais de rua mais terríveis contra as mulheres que se verificaram nos últimos tempos.

Do Egito é possível acompanhar em tempo real relatórios de assédio na rua que as mulheres podem fazer anonimamente usando o aplicativo móvel, HarassMap. Em 2012, o Egito reforçou as leis contra o assédio sexual na rua, incluindo passadas de mão e assobios, mas, em geral, elas não são cumpridas, conforme está descrito no aplicativo, e muitas vezes, a vítima que relata o assédio é considerada culpada.

Faça um teste e caminhe por uma rua agitada aqui de São Paulo e preste a atenção ao seu redor… e tente detectar quantas mulheres foram cantadas. Este pequeno exercício serve para demonstrar que as cantadas são algo pela qual toda a mulher passa de forma recorrente.

Segundo a blogueira Lola Aronovich, “Ser feminista não é o mesmo que ser Humanista. Cooptar humanista é desonesto e preguiçoso. Nem todos os humanos estão no mesmo patamar. Existe desigualdades entre homens e mulheres (e entre mulheres) e o movimento feminista quer corrigir isso.”

Ao vestir-se, em quem a mulher pensa? Será que pensa em si mesma? No companheiro? Na amiga? Ou nas pessoas com quem irá cruzar na rua? Dentre todas estas questões, pesquisas realizadas aqui no país, em 2013, demonstram que 90% das mulheres brasileiras já trocaram de roupa pensando no lugar onde iriam por medo do assédio. Todas as mulheres têm o direito de se vestirem como quiserem, pois ninguém tem o direito de invadir a intimidade dela só porque está andando na rua. O espaço é público, mas não a roupa que a mulher veste, e muito menos ela!

Anúncios

Deixe um comentário »

Nenhum comentário ainda.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Obrigado por assinar o meu blog! Espero que goste!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: