A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

fevereiro 1, 2012

Biciclotecas – as bibliotecas itinerantes do centro de São Paulo!

Em alguns posts que escrevi há algum tempo atrás sobre minhas impressões da viagem que fiz a Santiago, Chile, lembro de ter comentado que numa manhã, quando estava sentado em uma das praças daquela capital, vi chegar um rapaz com uma bicicleta, tipo triciclo, bem diferente das bikes comuns  – tinha uma caixa grande e alta atrás. Ele estacionou, abriu a caixa que transformou-se em uma mini biblioteca. Lá tinha livros, revistas e jornais. Pois então. Hoje em São Paulo vi coisa parecida!

Imagem: Folha de São Paulo

Estava fazendo meu caminho diário e a pé para o trabalho quando tive uma surpresa – em frente ao Theatro Municipal havia duas bicicletas com uma espécie de caixa vermelha e grande acoplada atrás, onde lia-se: “Bicicloteca”.

Fiquei muito curioso para saber mais sobre aquilo. Como estava com o horário apertado, fiz uma foto e segui adiante, sem conversar com os rapazes condutores. Na hora do almoço pesquisei na internet e vi que é um projeto que começou com o apoio de uma ONG,  o Instituto Mobilidade Verde. Vou contar um pouco sobre esse projeto curioso!

O Sr. Robson César Correia de Mendonça, de 61 anos, quando ainda era morador de rua, encontrou na biblioteca de um albergue o livro “A Revolução dos Bichos”. Tal leitura causou uma revolução na vida dele – levou-o a criar a Bicicloteca, que nada é mais que uma biblioteca sobre duas rodas que circula na região central da cidade de São Paulo.

O projeto evoluiu muito durante o ano passado. Começou com um triciclo com um baú – o qual foi furtado no centro da cidade. Uma campanha na mídia, no twitter e nas redes sociais sensibilizaram a população e a iniciativa privada. A Bicicloteca foi recuperada e foi ampliada. Hoje o projeto distribui mais de 8.000 livros nas praças e de forma gratuita. Compartilha também internet grátis e realiza diversas atividades tais como oficinas de silk screen, música e concursos literários. As pessoas se aproximam, escolhem o livro e levam. Não é preciso apresentar qualquer documento. Depois de ler, pode doar para outra pessoa ou devolver em uma das biciclotecas. O uníco compromisso é não vender o livro. E os organizadores da Bicicloteca sempre estão abertos para doações!

Abaixo, segue uma entrevista que a revista Época fez com o Sr. Robson Mendonça em dezembro do ano passado. E acima há um vídeo. Vale a pena ler a reportagem e assistir ao vídeo.

“Biciclotecário”, o homem que montou uma biblioteca sobre rodas
Conheça a história do ex-agropecuarista Robson Mendonça, que já emprestou mais de 4 mil livros a moradores de rua do Centro de São Paulo. “Carrego até 200 quilos de livros”
Vida Urbana – andrezza czech • Foto daniela toviansky – 12/12/2011

Robson Mendonça, “biciclotecário”, 60 anos, seis meses de atividade

Eu era agropecuarista em Alegrete (RS) e há dez anos decidi vender tudo e vir para São Paulo. Logo que cheguei, fui assaltado. Sem dinheiro ou documentos, virei morador de rua. Minha mulher e filhos vieram pouco depois, mas morreram num acidente de carro. Por causa da emergência, pedi para dar um telefonema num prédio público e fui proibido de entrar. Fiquei revoltado, juntei um pessoal de albergues e formamos um grupo para lutar pelos nossos direitos. Surgiu o Movimento Estadual da População em Situação de Rua, que ajuda a encaminhar os sem-teto a cursos e empregos. Só em 2011 tiramos 242 pessoas da rua.

Descobri que não conseguiria nada sem estudo. Tentava pegar livros em bibliotecas, mas não podia, porque não tinha comprovante de residência. Decidi que um dia criaria uma biblioteca itinerante que não exigisse nenhum cadastro. Quando conheci o Lincoln Paiva, presidente do Instituto Mobilidade Verde, enviei o projeto e eles viabilizaram a “bicicloteca”. Levo até 200 quilos de livros pelo Centro todos os dias, quase 300 obras! Temos cerca de 18 mil livros para ser emprestados e 90% dos leitores são moradores de rua.

Há dois meses a bicicloteca foi roubada durante uma reportagem. Descobri quem a levou e a polícia foi comigo buscar o triciclo, que precisou ser reformado. Vamos conseguir mais dez biciclotecas até o fim de 2012. Já conseguimos até um modelo elétrico que disponibiliza Wi-Fi e uma webcam, para cadastrar fotos dos moradores e ajudar as famílias a encontrá-los.

Hoje moro em uma pensão e leio bastante. Meu autor preferido é Mario de Andrade e o livro que mais marcou minha vida foi A revolução dos bichos, de George Orwell. Tenho lido muitos textos na área de Direito para aprender sobre jurisprudência e entender os casos da população de rua. Não acreditam que eu faço isso de graça. Um dia um rapaz da Praça da Sé disse que antes da bicicloteca ele e os colegas viviam bebendo cachaça e agora estão estudando. Quer pagamento maior que ver alguém aprender?

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6 Comentários »

  1. Boa noticia!!!! belo post!

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    Comentário por Biba Arruda Marques — fevereiro 2, 2012 @ 9:32 | Responder

  2. Boas leituras, bons pensamentos.

    Curtir

    Comentário por Emília — fevereiro 5, 2012 @ 17:29 | Responder

  3. Grande Augusto, tudo bem?

    Muito legal o seu blog! Como foram de viagem?

    Foi um prazer conhecê-los. Esperamos por vocês em BH.

    Um grande abraço a você e ao Alim.

    Ass: Daniel Neto (Nenel)

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    Comentário por Daniel Neto (Nenel) — fevereiro 14, 2012 @ 23:42 | Responder

    • Olá Nenel!
      Fomos muito bem. Esperamos que também tenham tido sorte igual.
      Abraços para vc e Débora. Estando em São Paulo, entrem em contato com a gente!
      Augusto

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      Comentário por Augusto Martini — fevereiro 15, 2012 @ 18:12 | Responder


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