A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

dezembro 5, 2020

O tempo – Adélia Prado

Havia chegado à terceira idade e continuava desinteressada de esportes, ginástica, clubes de dança, enfim, do que cheirasse a “lazer para velhos que, divertindo, melhora a saúde e prolonga a vida”. Ignorava teimosamente a ginecologia preventiva e seus hormônios sintéticos, com a mesma hostilidade que dedicava aos sucos de fruta artificiais. A linha do maxilar, o pescoço, o ao redor dos olhos e da boca deviam cair e engelhar a seu tempo e em paz. Até que a filha chegou da rua com as fotografias da festa e ela levou um susto enorme. Tirou incontinente o seu retrato da proteção de plástico e rasgou-o com brutalidade. Emudeceram todos que tagarelavam a sua volta. Levantou-se e se fechou no banheiro, ainda sem chorar. O que vou fazer?, pensou. O que é que se faz numa situação assim? Pra quem e de quem reclamo?

Foto por Edu Carvalho em Pexels.com

Não era engraçado nem trágico, pois tinha boa saúde, era só dramático – o que cansa -, porque dramas sucedem-se e perduram como pêndulos em moto-perpétuo, insolúveis na sua natureza dialógica. Olha! Uma palavra dessas nesta hora não é um pouco engraçado? Lembrou-se de seus trinta anos, já então lembrando-se dos quinze e dos quinze dizendo ao diretor do teatro na escola: quando eu era menina …Que brincadeira era aquela? Entendeu a atriz famosa, após as agruras da gravidez e do parto dizendo que Deus brinca com as mulheres. O que é mesmo que a chateava? Onde era exatamente o ponto que doía tanto? A vergonha. Ser velho dá vergonha e dá vergonha porque é impudico, arrazoou fugindo do problema. Invejou as freiras teimosas que ainda usam seus hábitos. Deu-se conta de um sentimento ruim, o de que além de velha pecava pela rejeição de sua velhice e pecava feio, aumentando-se por consequência e castigo em mais velhice e mais feiura. O corredor estreitava-se, havia combinado um passeio, a família esperava dela cara boa e sanduíches. Meu Deus! Foi quando começou a rir, a rir, a rir, o marido batendo preocupado à porta do banheiro, temendo um ataque de nervos, coisa bem sem graça. Mas não era nenhum colapso. A mulher lembrara-se de que pela manhã, antes das fotos chegarem, se encontrara com a Marinalva no mercadinho que a brindou com o seleto cumprimento: tá boa? Ainda bem, na televisão você estava muito mais acabadinha… E estampado no caderno de variedades que embrulhava os tomates em meia página colorida, a Neusa Helena, sua colega de escola que não via há quarenta anos. Lá estava, a mais bonita da sala, redonda e feliz, a cabeça tombada no ombro do namorado arranjado no Clube da Terceira Idade, recomendando às senhoras que fizessem como ela, assim, assim e assim. Era uma overdose, pensou achando-se atualizada em seus termos. Mas – e o drama retornou sinalizando uma trégua – o que abunda não vicia e se não morri posso engordar mais ainda. No fundo do seu coração agradeceu a Deus que lhe conservava a vida e lhe recordava o que foi como tábua em águas tormentosas: “Beleza é energia.” Tratou de lavar a cara e ir cuidar dos sanduíches. Ao marido disse em especial: me desculpa, com a certeza de que ao vivo, qualquer mulher é melhor que seu retrato mais feio.

Do livro Filandras, de Adélia Prado – Editora Record – Rio de Janeiro     •     São Paulo, 2001 – página 125.

abril 22, 2015

Quero aproveitar a vida…

Ontem completei 56 anos e essa idade me deixou mais elétrico ainda, e o fato de não ter medo dela, me faz mais feliz também. Só fico preocupado em fazer coisas ridículas e também não quero me parecer como tal. É que quando fiz quarenta e oito anos estava triste, me olhei no espelho e me vi acabado.  Mas agora que fiz 56 estou muito feliz, me olhei no espelho e levei um susto! Não sei de quem é esse rosto com algumas rugas que teima em olhar para mim. Não conheço esse senhor que começa a se apresentar! Estou envelhecendo e o espelho não me desmente, mesmo porque não tenho mais tempo para perder com ele. Quero aproveitar a vida até o último minuto e em qualquer situação. Pretendo fazer tudo que eu nunca fiz, sou jovem na alma, no gestual, no vocabulário e no comportamento. Só no corpo é que não, mas isso é só um detalhe. Quero celebrar a vida com tudo que tenho direito, e que quando a morte chegar – e ainda vai demorar muito tempo! quero que ela me encontre enebriado de felicidade, para que eu possa cumprimentá-la. Ah, e antes dela chegar quero dar a minha última grande festa, onde estarão presentes todos os meus amigos.

56 anos

56 anos!

Um dia a morte vai chegar e vocês já fiquem sabendo o que quero: me vistam com uma roupa bem colorida e podem me colocar um par de óculos escuros! E um bom tanto do meu perfume preferido Fahrenheit Masculino, da Dior. E por favor – não me coloquem algodões no nariz e nem flores – junta mosquitos e eu não quero ninguém me abanando, espantando as moscas. Se quiserem, podem pintar o caixão de laranja e escrevam nele frases dos poemas de Fernando Pessoa e seus heterônimos. Quero música de fundo no velório, daquelas bem alegres. E como dizia minha avó Virgínia, quero muitos risos e que eles contagiem a todos. Depois podem me cremar e os chegados já sabem onde quero que espalhem as cinzas. Já está registrado em cartório!  (more…)

abril 2, 2014

Na velhice é o momento de retribuir o amor e tudo que aprendemos com nossos avós

Convenhamos – o programa Fantástico, da rede Globo de televisão, não tem nada a ver com o nome. Cada vez mais repetitivo, mais cansativo e chato. Nos últimos domingos uma série de reportagens parece ter dado certo – idosos e adolescentes que viviam em mundos distantes, cada um na sua, passaram a conviver juntos. E juntos, descobriram afinidades e surgiu uma bela amizade no quadro “Entre gerações”.

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Aqui, como em muitos países, a população de idosos vem aumentando cada vez mais. A expectativa é que no ano de 2050 o país tenha aproximadamente 63 milhões de pessoas na “melhor idade”. Isso, numa projeção, seria de 72 idosos para cada 100 jovens, segundo dados do Ministério da Saúde. Devemos reconhecer o quanto antes a importância dos idosos na sociedade e fazer com que o carinho e o respeito que merecem seja uma tarefa diária de cada um de nós. Afinal, com toda a sabedoria e bagagem de experiência, eles nos ensinaram lições de vida e cuidaram da gente enquanto precisávamos. E na velhice é o momento de retribuir o amor e tudo que aprendemos com eles. Os laços familiares são o que há de mais importante na vida e, por isso, é uma alegria saber que os nossos avós estão presentes e participando frequentemente das atividades em família.  (more…)

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