A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

junho 27, 2018

Escuta o cheiro!

“Vozinha Virgínia: em meio a plantas, em meio a flores como se uma delas fosse!”

A senhorinha das fotos é minha avó paterna, Virgínia Rosin Calore Martini, filha de italianos, de Padova, Itália, de quem acabei de lembrar. Quando ela estava na cozinha, com suas panelas no fogão, ou colhendo as flores que cultivava no quintal, e eu chegava por perto dizia: “Gusto, escuta que cheiro!” (em italiano, “Gusto, ascolta l’lodore!”).

Lembro-me, como se fosse hoje, das histórias que ela contava. A maioria delas eram histórias verídicas, fatos que ela havia vivido e que ela contava e recontava diversas vezes, como se fossem inéditas a cada nova conversa. E eu sempre as ouvia com muita atenção e admiração, afinal, ela foi um referencial na vida para mim e para todos os que com ela conviveram. 

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Foi ela, o meu avô e meus pais quem me ensinaram sobre o que é ser íntegro, sempre respeitar os mais velhos e batalhar para ser alguém na vida.

Minha avó sempre usava como exemplo histórias de fracasso – de pessoas muito próximas, amigos ou geralmente membros da nossa família, que ela tentou aconselhar, ajudar e dar um direcionamento, mas que foram teimosos e que em algum momento colheu os frutos ruins de sua teimosia, de não terem-na ouvido.

Eu e muita gente da família a teve como parâmetro nos meus referenciais de retidão. Eu, durante muito tempo, pelo menos desde minha infância até o início da minha adolescência.
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março 8, 2016

As flores do jardim de minha Avó

No início dos anos 70, com a nossa vida guardada em caixas, fomos levados a desbravar um local desconhecido. Começou ali a descoberta de um mundo novo para mim e para minhas duas irmãs e minha prima Cida, a qual morava conosco.

Quando fomos morar na Vila Nova, em nossa primeira casa própria, tínhamos um terreno vizinho que pertencia ao meu avô, Primo Martini. E nele foi construída a casa que tempos depois viriam morar ele, minha avó e meu tio Pedro.

Vo1

 

Logo fiz muitas amizades. Todas as brincadeiras comuns giravam em torno de “brincadeiras de meninos”: índios, soltar pipas, esconde-esconde. Caçávamos besouros, ninhos de pássaros em meio ao mato baixo dos terrenos baldios, içás e gafanhotos aos quais arrancávamos as asas para não fugirem. Maldades de criança. Deus perdoa! (more…)

outubro 29, 2013

A paçoca da Semana Santa no sítio de minha avó

Já falei muito aqui sobre as casas da minha infância. Todas elas tinham o cheiro do pão quentinho saindo do forno e o gosto do queijo feito no sítio de minha avó. Para mim, a cozinha sempre é um lugar marcante para a família. E estávamos sempre em volta do fogão de lenha, feito de cimento queimado em um vermelho bem escuro e polido que refletia as cores do fogo da lenha queimando. Que sabor tinha tudo que era feito ali. Me lembro que ficava ansioso ali do lado esperando terminar o doce de leite, o arroz doce, o doce de abóbora… Em época de milho, a cozinha virava festa com toda a família reunida para preparo do curau, do bolo de milho e à noite, o milho assado na brasa da lenha. Que cheiro delicioso exala o milho assado!

Em casa tudo era um pouco artesanal – a manteiga minha mãe mesmo fazia. Nos fundos da casa haviam árvores frutíferas e uma horta… saudades daqueles tempos!

Nos últimos dias tiveram contato com posts escritos pela Tereza, minha irmã mais velha. Muitos me disseram que deveria criar um blog para ela. Foi o que fiz. Visitem o Memórias de Tereza que ela dará continuidade aos “escritos” por lá. Esse abaixo, é a última produção.

Fui cobrada por minha prima Cida de ter esquecido de narrar algo que aconteceu numa quinta feira da semana santa.

Minha avó era muito religiosa e na sexta feira santa, quem tivesse mais de sete anos não podia comer carne, tomar leite e nada que fosse feito de seus derivados .Então na quinta feira costumava-se fazer paçoca de amendoim. Isso já era tradição na família desde os meus bisavós que,  aprenderam com os pais deles desde a época da Itália, e eu até agora ainda faço.

Na quinta feira santa, logo de manhã, a tia Leonor torrou os amendoins, atarraxou o moinho na mesa da cozinha e lá fomos eu e a Cida moer os amendoins.  Ela colocava no moinho e eu virava a manivela, até que emplastou tudo e não ia mais. Então a Cida disse: – deixa que eu empurro  com a mão e você vira! E eu virei, né! Nossa! Foi uma gritaria! Prendeu o dedo dela no moinho  e ai ela chorava porque doía. E eu, de medo,  já que minha avó veio pelo corredor gritando em italiano :”MARIA VIRGINE! DIO SANTO! COSA ME HAI FATO”? Que quer dizer ”VIRGEM MARIA ! SANTO DEUS! O QUE FOI QUE VOCÊ FEZ?” (more…)

outubro 25, 2013

A deliciosa simplicidade da infância narrada por uma de minhas irmãs – Tereza – Final

COMO DIZIA MINHA AVÓ: PIANO, PIANO, SE VÁ LONTANO… Final

…. continuação

Quando a Antônia terminou a terceira série lá na escolinha do sítio, o tio Marino a matriculou na mesma escola nossa, em Rio Claro, para fazer o quarto ano. Assim, ela veio pra ficar o ano todo na nossa casa. Mas quem diz que ela ficou? De jeito nenhum! Não quis ficar longe da mãe e voltou pra casa. Assim, meu tio a matriculou na escola em Ajapi e tinha que levá-la e buscá-la todos os dias.

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Vó Virgínia, com seus 91 anos, Tereza, que nos proporcionou estas lindas recordações de infância e Ivone. Dez/1983.

Nesse tempo o meu pai e meu avô compraram um terreno, cada um deles, na vila Nova. Os lotes eram juntos. Meu pai fez um empréstimo na Caixa Econômica Federal, arrumou os pedreiros e fez a nossa casa. Então não precisamos mudar mais e nem pagar aluguel. (more…)

outubro 24, 2013

A deliciosa simplicidade da infância narrada por uma de minhas irmãs – Tereza – Parte 9

COMO DIZIA MINHA AVÓ: PIANO, PIANO, SE VÁ LONTANO… Parte 9

…. continuação

Simplicidade (Pato Fu)

Vai diminuindo a cidade
Vai aumentando a simpatia
Quanto menor a casinha
Mais sincero o bom dia
…..

Café tá quente no fogo
Barriga não tá vazia
Quanto mais simplicidade
Melhor o nascer do dia

Em umas dessas férias que passei no sítio chegou por  lá um irmão da minha avó. Ele morava em Jundiaí e trouxe suas duas filhas mais novas. O nome dele era Carlos e as meninas, a mais velha, se chamava Nice e a outra era a Celina. Ficaram uns quinze dias lá e foi uma farra.

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Meus pais, Antonio Martini e Maria Angela Graciolli Martini, durante a lua de mel, em Aparecida/SP.

Atrás do paiol onde eram guardados o milho e aboboras para tratar das galinhas, porcos e dos outros animais e as ferramentas de trabalho, tinha um pé de Chico Magro (também conhecido como uva japonesa) o qual já era bem velho. Inventamos de ir comer o tal do Chico Magro. (more…)

outubro 22, 2013

A deliciosa simplicidade da infância narrada por uma de minhas irmãs – Tereza – Parte 7

COMO DIZIA MINHA AVÓ: PIANO, PIANO, SE VÁ LONTANO… Parte 7

…. continuação

Teve uma vez que meu avô e tios estavam trabalhando na plantação de arroz que ficava perto do rio lá no sitio onde o tio Marino morava (sitio do Colégio Koelle). Não me lembro se era hora do café, porque os homens estavam descansando e nós pedimos se podíamos ir ver o rio. Eles deixaram porque estava perto.

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Meu avô por parte de mãe, João Graciolli (Graziolli)

E lá fomos nós descendo, correndo até o rio. Estávamos eu, a Cida, a Antônia, o Geraldo e o Jair. Não me lembro se a Ivone e o Augusto, meus irmãos, também estavam. Sei que chegamos perto da água, colocamos os pés, molhamos as mãos e aí quem resistiu? Queríamos entrar na água, pois estava um calor danado. Mas, se voltássemos molhados iam ficar bravos, porque disseram que poderíamos ver, mas que não era para entrar na água. O que fizemos? Tiramos as roupas, é claro! As meninas ficaram de calcinhas e os meninos de cuecas e fomos todos para dentro da água.  (more…)

outubro 21, 2013

A deliciosa simplicidade da infância narrada por uma de minhas irmãs – Tereza – Parte 6

COMO DIZIA MINHA AVÓ: PIANO, PIANO, SE VÁ LONTANO… Parte 6

…. continuação

Lá em cima na estrada, na entrada do sitio, tinha a escolinha onde estudavam meus primos e as crianças dos sítios vizinhos. Era formada por uma grande sala e só tinha uma professora que dava aulas para a primeira, segunda e terceira series e sempre alguém ia busca-la de carroça em Ajapi e depois ia levá-la, porque ela vinha da cidade de ônibus e o ponto era bem longe. Antes de começar as aulas ela sempre descia na casa da minha avó para tomar café com leite e pão feito em casa. Pão esse amassado pela tia Leonor – que ainda hoje os faz e que são uma delícia! Lá no sítio ela fazia uma receita logo com cinco quilos de trigo e explico porque tanto – dava muito trabalho para esquentar o forno que ficava em um ranchinho do lado de fora da cozinha da minha avó. Era um forno feito de tijolos e barro, no qual se colocava lenha dentro, acendia-se o fogo. Quando ficavam só as brasas e estava bem quente a tia Leonor tirava as brasas e as cinzas e colocava os pães para assar em cima de folhas de bananeira. Quando os pães estavam assados e o forno ainda estava quente ela tirava os pães e enchia de amendoim em casca para torrar, os quais depois guardava em uma cesta e meu avô os comia a noite, depois da janta, sentado no degrau do murinho da área. E a gente também ajudava, é claro!

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Minha mãe, Maria Angela Graciolli com sua irmã, Joana Nathalina Graciolli.

Como eu já disse a terra do sítio de meu avô não era boa para plantação. Só tinha um pouco de pés de café – eram umas poucas fileiras de pés de cada lado da estrada que descia para a casa e perto da escolinha. No meio dos pés de café sempre plantavam abóboras e melancias. Ah, e passando o cafezal plantava-se muitas vezes amendoim ou feijão.  (more…)

outubro 16, 2013

A deliciosa simplicidade da infância narrada por uma de minhas irmãs – Tereza – Parte 3

COMO DIZIA MINHA AVÓ: PIANO, PIANO, SE VÁ LONTANO… Parte 3

…. continuação

Quando meu pai começou a trabalhar na PREMA, que era uma firma que tratava postes e também fabricava tintas e piche, nos mudamos novamente. A casa que morávamos era muito pequena, só tinha um quarto e todos dormíamos nele. Se alguém rolasse na cama não caía no chão – era muito apertado e uma cama era grudada na outra! Então nos mudamos outra vez, para a mesma rua, mas na esquina da avenida M-1.

avô, avó

Da esquerda para a direita: as duas primeiras acredito serem irmãs de minha avó, a terceira é a minha avó – Virgínia Rosin Calore e a quarta pessoa é o meu avô, Primo Martini. Segundo minha avó, essa foto foi capturada logo depois que ele a pediu em namoro.

Eu devia estar com oito anos e frequentava o segundo ano na escola. Minha irmã Ivone começou a ir à escola. Nesse tempo meu avô mandou fazer uma carroça com rodas de pneu. Ela era linda –  era pintada nas cores azul e amarela e tinha as iniciais “PM”, de “Primo Martini”. Ele comprou um cavalo baio chamado Passeio, que era só pra ser usado naquela carroça. E, por isso o nome PASSEIO – era só para passear mesmo. Meu avô não deixava ninguém montar o animal.  (more…)

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