A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

fevereiro 18, 2021

Janelas – Adélia Prado

Foi antes da revolução dos Beatles, antes da minissaia, quando escândalos políticos não vazavam nos noticiosos da TV. Era um moço pacato e, para o gosto das ‘meninas estudadas’, que nem eu, as meninas da Escola Normal, até mesmo um pouco sonso. Sem garbo, sem aprumo, ficava lá com o pai, na loja de coisa pra fazendeiro, uma pessoa sonolenta. Nunca vi o Otavianinho marchar com os moços do Tiro de Guerra, jogar futebol, nadar, jogar malha no campinho, pertencer à Congregação Mariana, nada, nada mesmo. Parecia clone do pai que ficava na registradora, ele só atendendo a freguesia, embrulhando ração, pesando semente, mal levantando a cabeça pra encarar. Pois, imagine – e é preciso imaginação -, o pai do Otavianinho, o Otaviano velho, morreu e ele herdou a loja. Antes do luto acabar, comprou um rabo-de-peixe, botou um caixeiro mais sonso que ele no balcão e saiu pra vida. Dizem que ele disse experimentando o volante do carro: ‘agora vou pegar isso e as menina.’ Me lembro de que torci o nariz, quando tio Lute contou a novidade, arremedando a fala caipira dele. Pois sim, um mês de passeio no Cadillac foi o suficiente pra estourar com a nossa sólida apreciação sobre a sonsura do Otavianinho. Foi de novo tio Lute quem contou a respeito: já sabem? O Otavianinho quase morreu, ainda agorinha. – Hein? – É.

– De quê? – Por acaso, eu vi tudo, desculpou-se. Sabe o que o Otavianinho andava aprontando? disse controlando mal a excitação. – Pois o mocorongo envinha de há muito pulando a janela da casa do seo Canuto, direto pró quarto da Calixtinha! Oooo queeeeê? meu pai falou. – Pois foi. O Canuto descobriu e queria matar o homem.

Foi lá na loja, armado e aos gritos. É, o Otavianinho deu foi muita sorte, porque agarraram o Canuto e ele teve tempo de escapulir. Escapulir, arre, o único senão estético do relato. bom, tio Lute e meu pai não se deram conta da minha presença. Assim que começaram a conversa aproveitei pra ficar invisível e escutar tudo, tão excitada quanto tio Lute. De noite percebi que meu pai contava a história pra minha mãe, ele também com um gozo desconhecido na voz. Escutei eles rirem, o que me dava sempre enorme felicidade. Na minha cama, depois que Neneca dormiu, foi a minha vez de saborear tudo, economizando ponto por ponto daquela história que mexia com a minha fantasia mais secreta: depois que todos dormissem, o Adalberto da Têxtil viria arranhar feito um gato a janela do meu quarto e eu iria abrir só um pouquinho e ele falaria coisas comigo e proporia outras, com uma voz irreproduzível, de tanto desejo, e eu iria negar-me como Santa Maria Goretti. Ele me tocaria de leve, demoradamente, ou forte e rápido, numa mistura de perversão e respeito. Sairia noite afora, suspirando por mim, e eu passaria a noite em claro, suspirando por ele. Ganhei simpatia pelo Otavianinho e uma admiração pela Calixtinha, que fez aquilo tudo e continuava com a mesma cara inocente. Que mistério, meu deus! O Canuto morria de dengo pelo neto feito à sua revelia, fez as pazes com o genro, que ficou podre de rico. O que eu fico imaginando é porque o Otavianinho pulava a janela de Calixtinha e não namorava como todo mundo, na praça, ou na porta da igreja. Às vezes eu acho que é porque ele era um falso sonso e fui errada de olhar para ele com desdém, ou que a ‘inocente’ da Calixtinha é que armou tudo muito bem armado e o bobo caiu direitinho. Esta segunda hipótese sendo a mais provável, com certeza, a verdadeira. Romeu nenhum pula janela se uma Julieta diligente não afrouxa o trinco. Contudo, tanto tempo passado, considero que, a não ser que as famílias se odeiem e tornem o encontro impossível, é melhor não abrir janela nenhuma, porque a vida é breve e a arte, longa. Mais vale uma janela sempre perigando abrir, que outra para sempre aberta.

Em se tratando de romance, claro. Amo o que dá trabalho. Mas não foi exatamente assim que a Calixtinha raciocinou? Não foram as mesmas minhas razões que a fizeram optar pelo difícil, namorando escondido? Tio Lute falava que o Canuto queria só fazer barulho com o trinta-e-oito. Ah, sei mais nada não, estou ficando confusa. E longe de mim fazer assertivas sobre amor e janelas. O menino da Calixtinha saiu diferente dos dois. ô vida misteriosa!

  • Fonte: Livro “Filandras”, Adélia Prado

dezembro 4, 2020

O terceiro olho – Adélia Prado

Filed under: Coisas que eu gosto,Lembranças,Memórias,Uncategorized — Augusto Jeronimo Martini @ 10:44
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Apesar do sol, do dia esplêndido, depois de tanta chuva, a mulher não quis descer do carro. Espero aqui, ela disse, numa espécie de pequena vingança, uma pirraça possível na sua idade. Vingança contra a vida, afinal, porque ninguém lhe devia nada. Mas a vida não é Deus? Abaixou o espelho em frente da poltrona e resolveu olhar-se.

Foto por Sam Kolder em Pexels.com

A ruga vertical no meio da testa, a cada dia mais funda. Amanhecia já com ela, como se tivesse dormido a noite inteira com aquele ar preocupado. “Ruga vertical é ruga de neurótico”, ouvira da Marialva, mas não dava pra confiar muito na sua psicologia de bolsa. Em todo caso, andava mesmo irritadiça, enjoada, entojada, como diria sua mãe, com a paciência nos limites. Então, ora, continuou a olhar-se e fixamente, no lugar onde dizem termos o “terceiro olho”, bem ali onde o vinco de sua testa acentuava-se. Ficou muito instigante a coisa, seu rosto transmutava-se, por quais razões não sabia. Desviava-se da sua aparência conhecida e virava monstro, os arcos das sobrancelhas parecendo dois braços de uma outra pessoa que lhe carregava os olhos sob as axilas. A figura, um homúnculo, parecia adernar, à direita, esquerda, monstrinho de pesadas pernas, anão de circo exibindo-se, oferecendo-lhe os olhos com que ela via seus olhos. Experimentou ficar estrábica, era bom.

Descansava do esforço, do empenho de não perder o monstrinho. Olhava, olhava, querendo ver o que via, cada vez mais e mais até não ver mais nada e descansar das tarefas que a esperavam. Caiu alguma coisa na pequena oficina, o barulho desconcentrou-a. Meu Deus, ela disse, me ajuda a… não sabia a palavra. Católica ortodoxa, ficou com vergonha de dizer me ajuda a entrar em “alpha”. Disse apenas: me ajuda. O hominho reapareceu. Mas Lisiene ligou a mangueira nas couves e a figurinha sumiu, sensibilíssima aos ruídos da casa. Em seguida o Radar latiu desesperado e o moço do gás bateu na porta junto com a Olinda querendo saber da Lisiene se ela tinha melhorado do machucão no pé e entregou um maço de arnica que era bem uma floresta. Finda a interrupção, dispôs-se a recomeçar. Já concentrada, o marido veio até a garagem: vou na fundição do He Man ver se, com base nesta, ele faz outra peça pra mim; quer ir também? Fundição do He Man!? Justo na hora em que o hominho voltava a caretear.

Do livro Filandras, de Adélia Prado – Editora Record – Rio de Janeiro     •     São Paulo, 2001 – página 115.

março 3, 2015

Hilda Hilst em ocupação no Itaú Cultural

“O teatro surgiu numa hora de muita emergência, em 1967, quando havia a repressão. Eu tinha muita vontade de me comunicar com o outro imediatamente. Como não podia haver comunicação cara a cara, então fiz algumas peças, todas simbólicas, porque eu não tinha nenhuma vontade de ser presa, nem torturada, nem que me arrancassem as unhas. Então fiz, por analogia, várias peças que qualquer pessoa entenderia o que se pretendia dizer numa denúncia. Fiz oito peças e, depois, parei. Era só uma emergência daquele momento em que eu desejava uma comunicação mais imediata com as pessoas. Mas também não deu certo. As pessoas vão ao teatro para se divertir, ninguém vai ao teatro para pensar.” (Um diálogo com Hilda Hilst. Entrevista concedida a Nelly Novaes Coelho, Rio Claro, Arquivo Municipal, 1989).

hilda-hilst

No mesmo evento uma ouvinte pergunta se Hilda havia aprendido pintura, ao que escuta como resposta: “Não, não aprendi pintura. Às vezes, quando fico muito tensa e não consigo escrever, aí eu pinto, desenho um pouco.”

Tive o prazer de conhece-la pessoalmente quando fui buscá-la em uma tarde chuvosa em Corumbataí/SP, onde estava hospedada em casa de amigos. Hilda seria entrevistada por Nelly Novaes Coelho em um ciclo de palestras, promovido em 1989, pela Profa. Dra. Ana Maria de Almeida Camargo e que recebeu o nome de “Feminino Singular”. O evento aconteceu no Arquivo Público e Histórico do Município de Rio Claro, onde trabalhei de 1985 até 2002. Adorava o meu emprego no Arquivo e só saí de lá por conta do baixo salário. Caso contrário estaria por lá até hoje! Hilda veio sentada ao meu lado, em meu Fuscão branco, ano 1975, falante, simpática e fumando muito. Durante os poucos quilômetros que separam Corumbataí de Rio Claro, conversamos sobre plantas e cachorros, sua paixão. Hoje ela está sendo homenageada e relembrada num grande evento aqui em São Paulo. (more…)

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