A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

dezembro 1, 2020

Os jardins de minha infância

Em suas caminhadas, você já passou por um lugar e de repente deu de cara com uma planta que pela beleza ou cheiro te fez lembrar do jardim de sua avó? Eu já passei por isso diversas vezes.

A isso chamamos de memória afetiva, que é essa sensação de uma lembrança gostosa e que desperta sentimentos que ficaram gravados em nossa mente. Isso acontece toda vez que revivemos essa situação, seja pelo olhar, pelo cheiro, por uma música, um sabor ou qualquer sensação que nos leva de volta a um passado. Talvez de todos eles o paladar seja o que nos remeta mais para as nossas lembranças de infância.

Minha avó paterna, Virgínia Rosin Calore Martini

E quem não teve uma avó, uma tia, uma mãe, uma vizinha de “dedo verde” que possuía um jardim ou uma horta onde cada planta tinha uma história para estar ali?

O primeiro jardim que eu lembro era o da D. Leonil Klain, uma vizinha que tivemos em Rio Claro. Eu devia ter por volta de 6 a 7 anos e o Ronaldo Klein, meu primeiro amigo, era um dos filhos dela. Seus irmãos era a Sandra e o Carlos. Lembro até hoje de um arbusto que ela tinha no quintal, com nome popular de “buquê de noiva” (Spirea cantoniensis). Dava flores brancas minúsculas, que floresciam em pequenos cachos que lembravam um pequeno buquê. Também tinha ervas medicinais, jabuticabeira, canteiros com verduras. Era um quintal repleto de plantas. Algumas grandes e majestosas, outras médias e algumas bem pequenininhas. Na falta de vasos ou canteiros, qualquer recipiente virava local de plantas: de latas de óleo até latas de tintas vazias. O importante era que cada planta tivesse espaço para crescer e ficar linda.

D. Leonil Klain

Tinha também roseiras, que junto de outras flores formavam uma festa de cores, formas e texturas. Com tantas plantas, o quintal era um lugar arejado e fresco. E dele emanava uma profusão de cheiros que adentravam pelos corredores e perfumavam toda a casa. Podia-se respirar a vida naquele quintal!

Também me lembro do jardim e da horta nas casas de meus pais e dos meus avós paternos. Meus avós mudaram-se do sítio para uma casa, que ficava vizinha a nossa. E as duas casas tinham um jardim na frente, com rosas, margaridas, dálias entre outras flores e arbustos e uma grande horta nos fundos.

No quintal, além das verduras e legumes (mandioca, couve, alface, almeirão, mostarda, rabanetes, cenouras, rúcula etc.), haviam os temperos, as ervas medicinais, as árvores frutíferas (laranjeira, limoeiro, bananeira), e mais canteiros com flores: rainhas-margaridas (as preferidas de minha avó), kalanchoes, rosas…

Meu pai e minha avó eram do tipo que sempre tinham dezenas de espécies de plantas medicinais no jardim ou na horta. Dor de estomago: suco de couve para curar o mal estar. Se a dor persistisse, entrava o chá de Boldo. Argh! Era horrível. Ou a Losna macerada com um pouco de água. Pior ainda. Ou Marcelinha que também era amarga. Tinha também a Melissa e a Erva Cidreira para acalmar e tantos outros. Muitos vizinhos recorriam ao meu pai quando precisavam de alguma planta medicinal que só existia no campo. E lá ia ele de bicicleta, buscar um galho, uma casca ou um fruto para curar algum mal específico.

Todos os dias eu estava envolvido neste ambiente de flores e plantas e talvez minhas melhores lembranças sejam as do meus tios Marino e Henrique Martini, que traziam sacos de mangas, laranjas, bananas, sacolas repletas de verduras, vindas do sítio em Ajapi. Era uma festa quando o tio Marino chegava com um saco de mangas ou laranjas. É muito clara a lembrança de meu pai sentado em uma cadeira, com o saco de mangas ou laranjas apoiado nos joelhos e saboreando dezenas de frutos de uma só vez! Era incrível. O estômago dele devia ser bem dilatado.

Minha mãe também tinha muito jeito com as plantas. Haviam os vasos de destaque que eu me lembro: as Flores de Maio e a Renda Portuguesa. Eram o xodó dela. Sempre que alguém nos visitava queria uma muda para levar. E minha mãe sempre as presenteava.

Vocês já ouviram de algum conhecido que para certas plantas “vingarem” é preciso “roubar” a muda, caso contrário não terá sucesso no plantio? Coisas de antigamente…

Minha infância foi rica de contato com as plantas e sempre me traz esse prazer em relembrar esse tempo que tudo era mais simples e belo.

De acordo com especialistas, é importante produzir lembranças que irão gerar no futuro as memórias afetivas, pois estas garantirão um crescimento emocional saudável. Com isso, manteremos nossa história, as lembranças vivas e fortalecemos nossos vínculos com pessoas que participaram de nossa vida em algum momento e que de alguma forma nos ajudaram a nos tornar quem somos.

Quis escrever esse texto hoje para que a Sandra, filha da D. Leonil, mostre a ela o quanto marcou minha vida com suas plantinhas tão queridas! Sempre lembro dela com a imagem de guardiã daquele jardim digno de um jardim de avó! E também com uma gratidão enorme por nos auxiliar nos momentos em que minha mãe ficava acamada, com enxaqueca, e ela nos socorria. Beijos e abraços saudosos para D. Leonil.

1 Comentário »

  1. que bom ver a Dona Leonil , quase todos os dias a gente se reunia na casa dela para brincar jogar bola no campinho da frente da casa dela com a coleção de carrinhos do Ronaldo e soldadinhos que também tinha que vinha na lata de tody , e a turma assistia Jonny Quest e os Monstros nossos seriados preferidos e ela nos dava um pedaço de bolo muito gostoso, que tempo bom.

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    Comentário por MARCOS ANTONIO DOS SANTOS — fevereiro 3, 2021 @ 14:14 | Responder


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