A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

janeiro 20, 2019

Especulação imobiliária no centro de São Paulo

Olá! Desde que decidi morar e trabalhar em São Paulo, minha opção foi por viver no centro histórico, mais precisamente no que costumam chamar de “centro novo” onde tudo acontece. Apesar do pouco investimento público na área, sempre prometido e nunca executado, penso ser o melhor lugar para se viver. Tenho tudo sempre por perto, duas linhas do metrô quase na porta de casa, linhas de ônibus em frente ao edifício… É claro que nem tudo é uma maravilha. O centro da cidade concentra tudo o que tem de melhor e também o que tem de pior. Moradores de rua, centenas deles, usuários de crack, também aos montes. Lixo. Muito lixo que é colocado no canteiro central do boulevard da Avenida Vieira de Carvalho em horários inapropriados, os quais são imediatamente abertos e espalhados pelas ruas. Na região há muitos bares e restaurantes. Assim, esse é um lixo, digamos, “chamativo”. Muitas latas de bebidas em alumínio, restos de comida, etc.

De uns tempos para cá, o centro tem atraído muitos restaurantes de renome. Posso citar: Ramona, Paribar, Casa do Porco, Mandíbula, Drosophyla, Dona Onça, Apfel, Salada Record, Ponto Chic, Esther Rooftop, Tibiriçá, La Casserole, La Central, Santinho, Barouche, Buraco, Casa de Francisca, Mundo Pão do Olivier, e outros restaurantes, ou bares, que também mereciam fazer parte desta lista, têm algo que os identifica, além da notoriedade e de serem frequentados por uma clientela fiel.

Todos estão localizados no centro de São Paulo.

A maior parte tem endereços do outro lado do Viaduto do Chá. Quem é de São Paulo, sabe que do Viaduto do Chá para a região da Praça da República (onde moro), é o centro novo – aquele quadrilátero formado pelas ruas entre a Xavier de Toledo e as avenidas Ipiranga, São João e São Luiz.

Do lado oposto, fica o centro velho, ou centro histórico – onde se situa o Pátio do Colégio, marco inicial da cidade de São Paulo e da Praça da Sé.

E é no centro novo que está a maior parte dos restaurantes e bares badalados.

A região entrou definitivamente no mapa gastronômico com as chegadas de chefs com o nome marcado na cozinha nacional e internacional, como Jefferson Rueda, da Casa do Porco, e Olivier Anquier, que ganhou notoriedade como apresentador de TV e comanda o Esther Rooftop e o Mundo Pão do Olivier.

A procura por uma mesa para almoçar ou jantar nestes estabelecimentos costuma provocar longas filas, especialmente nos finais de semana. O corredor gastronômico está consolidado.

Mas é preciso conquistar a confiança de um público que tem inúmeras restrições à região central. O centro de São Paulo nunca perdeu a sua pujança e a importância. Os pontos culturais, os bares e os restaurantes sempre foram muito procurados por brasileiros de outras regiões do país e pelos estrangeiros em sua grande maioria. Quem não costuma passear pelo centro é o próprio paulistano, que tem medo! Mas, as estatísticas apontam que o centro de São Paulo é um dos lugares mais seguros e vigiados da megalópole. Como o centro tem muito morador em situação de rua, ficou com fama de violento.

Moro em um apartamento, antigo, com pé direito alto, paredes espessas, espaçoso, e que era bem ventilado. O lugar é lindo – Avenida Vieira de Carvalho, um boulevard que antigamente era como a Avenida Paulista está hoje para São Paulo. Já abrigou restaurantes famosos. O Fasano começou aqui!

Mas, de uns tempos para cá, até por causa desse boom gastronômico, virou moda morar no centro, principalmente pelo povo, digamos, mais “descolado”. Muitos empreendimentos novos pipocam pelo centro. Apartamentos de 18, 28, 35 metros quadrados!!! Recentemente fiquei sabendo de um lançamento na região de Higienópolis, com apartamentos de 10 metros quadrados! Alguns retrofits também estão surgindo.

E minha vizinhança também mudou. Ao lado de meu edifício, exatamente colado com ele, subiram duas torres cobertas por vidro, o Setin Downtown República, que acabou com a iluminação de meu apartamento e de meus vizinhos. Banheiros e cozinha, depois de sua construção, só recebem iluminação direta entre 12h e 13h. Antes e depois disso, iluminação só com luz artificial.


Fotografia é algo mágico. Registra esses pequenos instantes em grandes lembranças… Essa é a vista que me foi roubada. Hoje, no lugar dela, tenho a parede do edifício
Setin Downtown República

Meu apartamento tem uma sacada de onde eu conseguia ver o Copan, o Eiffel, ambos edifícios projetados por Oscar Niemeyer, o edifício Caetano de Campos, que foi inaugurado em 2 de agosto de 1894 e foi sede da primeira Escola Normal Paulista. O prédio constitui-se em um dos mais significativos monumentos republicanos do Estado de São Paulo. Com 225 janelas, 86 metros de largura e 37 metros de profundidade nos pavilhões laterais, o edifício foi construído para ser um dos símbolos da educação do Estado. Hoje é a sede da Secretaria da Educação do Estado. Era uma linda vista.

Via também as árvores da Praça da República e tinha a visita diária de beija-flores, bem-te-vis e outros pássaros. Fora a circulação de ar que me permitia ter o luxo de não precisar de ventiladores. Hoje isso tudo acabou.

Comecei a escrever esse post, pois recebi o texto abaixo de uma amiga, no qual o Sr. Gabriel Priolli escreve exatamente sobre esse problema que acontece em sua região, bairro vizinho ao meu, Santa Cecília. E como aqui, os vizinhos acham essa especulação imobiliária positiva, mesmo sendo privados da energia e luz que o rei sol nos proporcionava gratuitamente.

 

TEMPOS SOMBRIOS 

Há 25 anos, o Sol vem me acordar todos os dias. Quando não é ele, nos dias nublados, é a sua auxiliar, a Claridade.

Junto com eles, sempre passa por aqui a Ventilação, prima do Ar Puro, outros amigos queridos.

Eles todos me ajudam a manter a saúde e o bem estar, me abastecendo de coisas que nenhum dinheiro pode comprar.

Como os travesseiros limpos pela radiação benigna, a energia abundante para as plantas, a alma iluminada e aquecida.

Mas dentro de algumas semanas, senão ainda neste maldito 2018 certamente no infeliz 2019, todos irão embora. Para nunca mais voltar.

Serão afastados de mim pela Especulação Imobiliária, essa rainha absolutista da Paulicéia autodestrutiva.

Mais especificamente, pelo seu ministro Elias Victor Nigri, o grande espetador de paliteiros humanos na região de Vila Buarque, Santa Cecília e infortunados arredores.

Esse construtor de horrendas caixas de morar, altíssimas como a ganância. Esse ladrão de luz.

Vizinhos inconscientes acham que “o nosso imóvel será valorizado”, sabe-se lá por quais critérios, certamente monetários, desumanos.

Mas eu sei – e estou desolado por saber – o quanto estamos perdendo. O patrimônio que jamais vão nos repor.

O que me consola é que, algum dia, também o Dr. Elias estará morando num buraco frio, escuro e mal ventilado, como este a que ele me condena.

Terá a companhia dos vermes, como merece, e felizmente nunca mais sairá de lá.

Fonte: Facebook de Gabriel Priolli

4 Comentários »

  1. Sou de Fortaleza e ainda não fui decretadamente conhecer São Paulo, capital, a cidade mais cosmopolita do mundo. E quando conseguir essa façanha, vou lhe pedir umas dicas. Está nos meus planos: A CEAGESP; o Parque Ibirapuera; o MASP que só passei enfrente e nada mais. Quero conhecer o melhor de Sampa, pela visão de quem conhecer e desfruta das belezas dessa cidade tão badalada.

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    Comentário por NORA PIRES — janeiro 28, 2019 @ 14:12 | Responder

    • Olá Nora. Boa tarde! Agradeço sua visita ao A Simplicidade das Coisas. No campo superior direito do blog há um campos denominado “pesquisar”. Se colocar alí “turismo em São Paulo”, ou simplesmente “São Paulo”, irá conseguir acessar uma série de posts que escrevi dando dicas sobre a cidade. E, se vier para cá e quiser alguma informação que eu possa ajudar, fique a vontade em escrever e perguntar. Um abraço. Augusto

      Em seg, 28 de jan de 2019 às 14:12, A Simplicidade das Coisas — Augusto

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      Comentário por Augusto Martini — janeiro 28, 2019 @ 15:24 | Responder

  2. Morei no centro de São Paulo por oito anos. Isso entre 1985 e 1995. Adorava marar lá. Quando você diz que adora morar no centro porque tem tudo perto sei bem o que é isso. Aos domingos ia passear na Av. Ipiranga, Praça da República, Mappin, Teatro Municipal. Não precisava nem ter dinheiro para se divertir. Ainda lembro do cheiro do prédio que morava. Podia estar o calor que fosse lá dentro era sempre fresquinho. Infelizmente a revitalização do centro ainda não aconteceu e não é construindo esses prédios enormes que isso vai acontecer. De vez em quando passo na frente do prédio para matar a saudade ou ficar com mais ainda.

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    Comentário por Marcia Duarte Lissi — maio 14, 2019 @ 19:00 | Responder

    • Bom dia Márcia.
      Agradeço sua visita ao blog.
      O centro tem suas mazelas, mas, onde em São Paulo não tem?
      Quando dizem para mim que o centro de São Paulo é inseguro, sempre indico as estatísticas policiais, que mostram que o centro é seguro e bem vigiado. A verdade é que São Paulo inteira está desmantelada. O único bairro que eu não via pessoas em situação de rua era Higienópolis, mas lá também já enfrentam esse problema.
      Adoro meu apartamento com paredes de 35 cm de espessura, pé direito de 3,15, tacos de peroba rosa. Onde podemos encontrar imóveis assim hoje em dia? Só no centro!
      Um abraço.
      Augusto

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      Comentário por Augusto Martini — maio 16, 2019 @ 8:40 | Responder


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