A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

junho 27, 2018

Escuta o cheiro!

“Vozinha Virgínia: em meio a plantas, em meio a flores como se uma delas fosse!”

A senhorinha das fotos é minha avó paterna, Virgínia Rosin Calore Martini, filha de italianos, de Padova, Itália, de quem acabei de lembrar. Quando ela estava na cozinha, com suas panelas no fogão, ou colhendo as flores que cultivava no quintal, e eu chegava por perto dizia: “Gusto, escuta que cheiro!” (em italiano, “Gusto, ascolta l’lodore!”).

Lembro-me, como se fosse hoje, das histórias que ela contava. A maioria delas eram histórias verídicas, fatos que ela havia vivido e que ela contava e recontava diversas vezes, como se fossem inéditas a cada nova conversa. E eu sempre as ouvia com muita atenção e admiração, afinal, ela foi um referencial na vida para mim e para todos os que com ela conviveram. 

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Foi ela, o meu avô e meus pais quem me ensinaram sobre o que é ser íntegro, sempre respeitar os mais velhos e batalhar para ser alguém na vida.

Minha avó sempre usava como exemplo histórias de fracasso – de pessoas muito próximas, amigos ou geralmente membros da nossa família, que ela tentou aconselhar, ajudar e dar um direcionamento, mas que foram teimosos e que em algum momento colheu os frutos ruins de sua teimosia, de não terem-na ouvido.

Eu e muita gente da família a teve como parâmetro nos meus referenciais de retidão. Eu, durante muito tempo, pelo menos desde minha infância até o início da minha adolescência.

Hoje vejo que muitas coisas impregnadas em meu caráter herdei de meus pais e avós: sou sistemático, gosto das coisas da terra, de natureza, de trabalhos manuais, de saber um pouco de tudo sobre o funcionamento em uma casa, de estudar, ler e escrever. E algo que sempre apreciei e aprendi nas tardes e noites ao lado de meus avós: o prazer de conversar com os mais velhos e saber ouvi-los.

Os mais velhos têm muito a contribuir nas nossas vidas, independentemente da classe social a que pertencem e da origem. Deles podemos extrair momentos preciosos de sabedoria e vivência. Mas, para isso, é importante tentar compreendê-los e imaginar como as coisas seriam na época deles, ou na perspectiva deles.

Lembro-me que meu pai sempre reclamava do valor das contas de energia e água. E minha avó dizia: ” no, no Toni. Isso é muito barato! Eu levanto, giro a torneira e a água sai. Vou ali, aperto o interruptor e a luz acende. Quando eu morava no sítio e tinha vocês pequenos, precisava acordar antes do gado para ir até a nascente buscar água, pois eles iriam até elas a sujariam. E eu ia com três crianças pequenas – Marino, Ernesto e você: uma no colo e dois dependurados em minha saia. E com uma canga no pescoço para trazer dois baldes de água dependurados. A noite, meu nariz ficava todo preto com a fuligem das lamparinas que funcionavam a querosene e com essa luz eu tinha que fazer tudo na casa.”

Sim, gosto muito de conversar com idosos. Pessoas que, na maioria das vezes, querem ser ouvidas. Tenho muito amor e respeito por eles e muitos amigos dizem que tenho uma paciência de Jó para ouvi-los.

Minha avó Virginia faleceu com 93 anos (1902 – 1995). E eu agradeço a Deus por ter aproveitado muito o tempo que estive com ela. Tive tempo para compreendê-la mais e melhor e aprender muita coisa ao meu respeito.

Hoje, em meu trabalho, atendi um senhor de cerca de 78 anos que me inspirou a escrever este texto. Tive necessidade de escrever isto porque, por incrível e estranho que pareça, “escutei” nele o cheiro dos meus avós.

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