A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

julho 25, 2017

O abate do porco

O olfato e a memória gustativa é algo fantástico. Nos remetem a lembranças do passado  que ficam guardadas com carinho no cantinho da memória.  Quem não lembra do cheiro da comida da avó, dos pães que a mãe enrolava e assava no forno, do suave aroma que vinha das panelas que ficavam sobre a chapa do fogão a lenha?

Nem precisamos provar novamente a comida. Basta lembrar para entrarmos novamente na cena que esteve tão presente em algum momento da vida. São receitas antigas, como o pão, a macarronada, o bolo de fubá, o bolinho de chuva, a linguiça caseira…

porco

Imagem: listenandlearn.com.br

Lembro muito bem das brincadeiras de infância no sítio de meu avô e com os amigos de minha rua. Mas também estão muito presentes as situações ligadas à comida. Algumas dessas últimas não tão agradáveis…

Tínhamos um quintal grande na casa popular recém-construída no bairro Vila Nova, em Rio Claro/SP, levantada com o financiamento da Caixa Econômica Federal. Era uma casa simples, de dois quartos, sala, cozinha e banheiro, com cômodos bem pequenos, mas, como dizia meu pai “um dia será nosso”. E, nesse quintal tínhamos nossa horta e um pequeno pomar, quase sempre galinhas e um porco, criado em chiqueiro.

O dia de matar o porco era um evento! Geralmente vinha um tio para ajudar e eu também tinha que estar por perto para pequenos serviços. Na cozinha, minha mãe, minha avó, minha tia, minhas irmãs e a Cida, minha prima, já estavam com as panelas e caldeirões prontos para receber as carnes e o toucinho, que viraria banha. Tudo já preparado na noite anterior.

A fuzarca começava bem cedinho mo rancho que meu pai construiu logo depois da casa.  Geralmente era num sábado ou feriado. A atividade demorava, pois, além do abate, tinha que se fazer os cortes e já preparar as carnes, que cruas virariam linguiça ou iam ser preparadas e depois descansar no caldeirão de banha. Não tínhamos geladeira. Era a conhecida “carne de lata”.

O abate, confesso, era cruel. O porco que tínhamos alimentado e vimos crescer era retirado do chiqueiro e tinha as patas amarradas. Em seguida levava uma pancada no meio da testa e uma faca era enfiada entre as patas dianteiras, acertando o coração. O bicho gritava. O sangue era coletado e virava chouriço (uma tripa enchida com o sangue de porco, gordura e temperos variados). Perdia-se somente as vísceras. E meu pai nos proibia de ter dó. Caso contrário, segundo ele, a morte do bicho seria mais sofrida. Crendices.

Não sei se por conta desses eventos, nunca gostei de carne. Minha mãe precisava “enfeitar” muito a carne moída, colocando muito tempero e batatas para eu comer. Sempre gostei de peixes e um pouco de frango. Mas também comia muito pouco dessas proteínas. Depois que cresci, fui por mais de 12 anos ovolactovegetariano. Há poucos anos voltei a comer carnes. Como pouco. Mas como. Não todos os dias. Uma ou duas vezes na semana. Não mais que isso. E em porções bem pequenas. Cheguei a escrever um post sobre isso. Se quiserem ler, cliquem aqui.

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2 Comentários »

  1. Que horror matar um animal só para satisfazer nosso apetite…..
    E tem mais: diminuir a quantidade ou comer de vez em quando não muda nada para os bichinhos que têm medo, sofrem e querem viver.
    Horrível!

    Curtir

    Comentário por vera helena — julho 26, 2017 @ 14:20 | Responder

    • Oi Vera.
      Sem dúvida a forma de abate utilizada antigamente era um horror. Mas os seres humanos ditos “pensantes”, matam-se uns aos outros (alguns até praticam o canibalismo) com tanta ou maior crueldade. Para você, o problema de comer carne é moral: não teríamos o direito de matar para comer. Mas, se você acha que basta parar de comer carne para acabar com a matança, está enganada. Há muito mais produtos no mercado que incluem animais mortos do que imagina a nossa vã filosofia. Boa parte da indústria de vestuário depende de animais. O couro, você sabe, é a pele de bichos abatidos. Então, o sapatinho bonito que você gosta e acha confortável, veio de uma vaca abatida. Para separar o fio de seda, é preciso ferver o bicho-da-seda. Aqueles filmes fotográficos que os fotógrafos utilizam e os de cinema, sem ser o digital, são recobertos por uma gelatina, retirada da canela da vaca. Dos pés bovinos saem também substâncias usadas na espuma dos extintores de incêndio. O sangue bovino rende um fixador para tinturas e a gordura acaba em pneus, plásticos, detergentes, velas e no PVC. Cremes de barbear, xampus, cosméticos derivam da glicerina, substância que contém gordura bovina. A quantidade de medicamentos feitos com pedaços de gado, do pâncreas ao cordão umbilical, passando pelos testículos, é imensa. Então, nos remédios que você consome, também tem resquícios de bichinhos. Há um pouco das vacas também em vários produtos da indústria alimentícia – e não estamos falando só de bife à parmigiana. A gelatina deve a consistência ao colágeno arrancado da pele e dos ossos. Aliás, quase toda comida elástica contém colágeno – da maria-mole ao chiclete. Os queijos curados são feitos com uma enzima do estômago do bezerro. Além dos bovinos, vários outros animais são usados pela indústria de comida. Vegans devem ficar de olho nos rótulos e evitar em alguns corantes. Tem um que tinge de azul e é feito de besouros moídos. Um que tinge de vermelho, é feito de lesmas amassadas.
      E sim, apesar de em pequenas quantidades, voltei a comer carne sim, muitas vezes sinto que não devia, mas precisei. Há a necessidade de reposição de nutrientes em dietas que abandonam a carne e muitos deles só são substituídos por remédios. Então, não dá pra gente ficar discutindo, por exemplo, a necessidade de água e terrenos para produzir 1 kg de carne e 1 kg de tomates ou 20 pés de alface. Esta comparação carece muito de estudos e análises. Seria prudente uma análise de 1 kg de carne para XXX kg de frutas, legumes e etc. que equivalem aos mesmos nutrientes de 1 kg de carne, e ai fazer a comparação de terreno e água. Sem contar os demais subprodutos, quais seriam seus substitutos e quais os impactos ao usá-los. Não é uma discussão fácil. Dá muito pano pra manga.

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      Comentário por Augusto Martini — julho 26, 2017 @ 15:06 | Responder


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