A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

fevereiro 2, 2017

Lembranças de infância – sítio Boa Vista

Ah, o sítio Boa Vista, que pertenceu ao meu avô, Primo Martini. Era razoavelmente próximo da cidade (Rio Claro/SP), onde tudo era lindo e cheirava gostoso, apesar da simplicidade e da “terra ruim”, como ele mesmo dizia. Há bem mais de quarenta anos atrás a energia elétrica não tinha chegado por lá. Tinha apenas em um sítio vizinho, pelo que me lembro. Durante a noite o sítio e as estradas das cercanias eram iluminados só pela luz da lua. Era a única luz que tinham nas noites escuras. Na casa apenas a luz de velas, do fogão a lenha e de lamparinas – que para quem não conheceu vou descrever – podia ser feita de latão, vidro ou lata mesmo, com um pavio de cordinha de algodão que conduzia o querosene de dentro da lamparina para fora e podia ficar acesa a noite toda. O problema é que quando estava acesa soltava uma fumaça preta que deixava marcas pelas paredes e teto, e o nariz que ficava preto por dentro.

img_0123

Primo Martini

 

Na frente da casa e nas laterais tinha um jardim muito bem cuidado pela minha avó. Também perto de onde ficava o poço caipira tinha uma horta e mais flores. Para chegar até a casa tinha dois caminhos nos quais podiam passar carroças e carros (não tão comuns naquela época!). Um dos caminhos é o que passava antes pelo poço, que ficava à esquerda e a casa era lá embaixo. O outro caminho começava na escolinha rural – que era composta de apenas uma sala de aula em terreno cedido pelo meu avô e onde as crianças da região aprendiam as primeiras letras.

 

Mas tinham outros caminhos para se chegar até a casa, que nós chamávamos de trilhos. Geralmente eram caminhos marcados pelo gado e que a gente aproveitava para andar por eles. Da casa de meu avô, muito ao longe e a noite, via-se a claridade emanada das lâmpadas da cidade de Corumbataí e do distrito de Ferraz.

A casa de minha avó tinha duas cozinhas – uma era a dela e a outra da minha tia Leonor. Mas das duas e em frente à porta da cozinha, alguns metros para baixo, ficava o terreiro de secar café e logo abaixo o paiol, um cômodo enorme, com paredes fechadas por madeira e que servia para guardar a colheita (batatas, arroz, feijão…) e ferramentas. Estava sempre cheinho de milho, já seco, usado para alimentar as galinhas, gado e porcos. Do lado do paiol tinha uma espécie de tanque de tijolos e bem rasinho, cheio de água que servia de bebedouro para as galinhas.

Do lado direito do terreiro de café ficavam os chiqueiros dos porcos e os galinheiros. E do lado esquerdo ficava o curral das vacas.

Eu e minhas irmãs, se quiséssemos, podíamos passar parte de nossas férias por lá. Eu, por ser o caçula, tentei ficar várias vezes, mas chorava e tinha que voltar para a cidade e para perto de minha mãe. 

Nos fundos das terras do sítio tinha a “Gruta do Índio”, na qual só podíamos ir acompanhados de um adulto. Tenho até hoje guardada uma ponta de flecha feita de rocha a qual encontrei por lá. Essa “gruta” era uma escavação em um barranco bem alto de onde minava água. Era um local bem úmido e cheio de vegetação. Nunca soube se aquilo realmente foi um lugar habitado por indígenas. Mas a lenda que corria a boca solta pela região dizia ser verdade.

No sítio de meu avô não passava nenhum rio. Apenas uma pequena nascente a qual tinha um pequeno volume de água e onde o gado insistia em pisotear, apesar dos constantes consertos que meu avô e tios faziam no cercado. Adorámos brincar naquela água que escorria terreno abaixo e em suas pequenas ilhas – o leito já quase todo assoreado por areia ou piçarras dividiam o curso da água em dois ou três e a essas manchas de terras em meio à água dávamos o nome “pequenas ilhas”.

A noite sentávamos perto do fogão de lenha ou no alpendre, a luz de lamparinas – e ali ficávamos horas ouvindo minha avó, avô e tios contar histórias de assombrações e fantasmas, de bruxas e fadas, coisas que eles ouviram também dos avós deles. E isso sempre com três ou quatro lamparinas acesas e as brasas fumegantes do fogão de lenha e uma bacia de pipocas. Mas tudo isso só acontecia depois de rezarmos o terço.

Muitas vezes minha avó cantava canções religiosas ou mesmo o “Terezinha de Jesus”, e várias outras cantigas lindas. Às vezes as pipocas eram substituídas por arroz-doce, pudim de pão, broa de milho ou batata-doce.

No próximo post relembrarei um pouco mais desse tempo inesquecível e do qual tenho muitas saudades.

Anúncios

3 Comentários »

  1. Delícia de lembranças!

    Curtir

    Comentário por Alda M S Santos — fevereiro 12, 2017 @ 18:41 | Resposta


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Obrigado por assinar o meu blog! Espero que goste!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: