A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

julho 11, 2016

Meu pai…

No fim da tarde, quando o meu pai chegava, estávamos todos em casa. Chegava quase sempre sisudo por conta dos problemas e das chatices que tinha vivido durante o dia. Mas o meu pai gostava de chegar a casa. E isso, para nós, estava bem. Ele gostava de nos ver, apesar de não demonstrar. Sentíamos isso.

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Ele tocava acordeão fazendo algumas caretas e também tocava violão abstraindo-se do frenesi típico de uma casa com três filhos e um ou outro primo ou prima agregados.
O meu pai ouvia o rádio sentado na cadeira que era só dele, apesar do burburinho de nossas conversas. Só nos mandava calar para ouvir “A Voz do Brasil” ou algum programa musical de interesse. Era de falar muito pouco. Nós éramos a sua casa, o seu mundo, a sua vida.
Tive a sorte de crescer assim. Cresci com um pai que apesar de não demonstrar trazia amor para casa, boa disposição, emotividade, verdade e sabedoria. Um pai que tinha preocupação de dar e não de receber, que gostava de partilhar e que tinha a preocupação de nos ensinar os valores nos quais acreditava. Ele achava importante os filhos aprenderem aquilo que ele aprendeu com a vida, mas não tinha o cuidado, penso que pela sua simplicidade, de aconselhar os filhos para um dia escolherem ser aquilo que quisessem. O meu pai não me perguntava pelas notas da escola, não opinava sobre as minhas roupas e não me questionava sobre os meus estados de alma. Como disse antes, ele era de poucas palavras. Em sua simplicidade, achava que bastava saber ler, escrever, fazer contas, para entrar no mercado de trabalho. Que muito estudo era bobagem. A vida é que ensinava. Assim, o caminho que percorri pós colégio, foi por minha conta.


O meu pai não me exigia resultados, pedia-me esforço, ser reto no trabalho e com os com quem convivia, que amasse a vida e que reconhecesse o privilégio da família que tinha. Só o vi chorar em situações de grandes perdas, como na morte de meus avós e minha mãe. Não demonstrava ser alegre, mas era um exemplo de coerência, de trabalho e de grandeza. Também era intolerante. Não admitia desonestidades, não admitia injúrias. Era genuinamente bom. Não via maldade nos outros e facilmente cedia para evitar o conflito, o ódio e a agressividade. Só tinha orgulho dos seus valores e da sua família, em todo o resto era humilde.O meu pai nunca conheceu os meus professores, também não me ensinou a andar de bicicleta – aprendi sozinho, nos finais de tarde e aos domingos, na bicicleta com a qual ele trabalhava. Também nunca me levou ao médico e não me lembro de me ter lido histórias à noite ou ter me dado um colo quando criança. Lembro que me pedia muitas vezes a opinião de algum trabalho que iria fazer na casa ou no quintal – e acho que isso era para me conhecer melhor, e lembro-me que as raras vezes que se zangou comigo foi por coisas sérias que têm a ver com a formação de carácter. Apanhei dele e senti a sua mão pesada apenas uma vez. O meu pai era o suporte da minha mãe e os dois eram o nosso suporte.Sei que os pais de hoje são diferentes do meu pai. Hoje eles vão à escola e às festas dos filhos. Trocam as fraldas, lavam a louça, sabem escolher as roupas das filhas e preparam o jantar. Os pais de hoje têm de partilhar funções que antes eram da exclusividade das mães. O mundo mudou e nessa mudança é obrigatório que os pais também mudem. Mas o papel fundamental dos pais nem é esse, essa partilha de funções são uma consequência normal de uma realidade diferente. O papel fundamental do pai continua a ser transmitir amor e alegria aos filhos. Com o meu pai não aprendi a andar de bicicleta mas aprendi que numa casa onde as pessoas, apesar da simplicidade, tem motivos para rirem alto e onde os filhos sabem que é lá que o pai gosta de chegar todos os dias no fim da tarde, vive uma família feliz. Sim, a família Martini foi e é simples, mas os meus pais conseguiram criar pessoas felizes!

p.s. – Ainda sobre os pais modernos – hoje pai também fica grávido! Segundo um casal de amigos que adotou uma garotinha, hoje ele, o marido, tem que curtir muitos momentos de leitura. Às vezes são duas ou três histórias antes de  dormir… Chapeuzinho Vermelho, Branca de Neve, Cinderela, A Bela Adormecida, e como toda menina, ela é a princesa e ele é sempre o “píncipe”. Sim, ele teve que aprender a ser o príncipe, daqueles que se ajoelha aos pés da princesa, corteja com o chapéu e beija a sua mão.

Disse que aprendeu a fazer “Maria Chiquinha” nos cabelos dela! E na primeira vez que fez, quando chegou com ela na escola e a professora elogiou e perguntou: “- Quem deixou os seus cabelos tão lindos?
Ela respondeu: – Foi o papai! A professora e as mães que estavam por perto olharam para ele como se fosse um E.T.
Para ser pai basta estar disposto. Disposto a participar, a aprender, a errar, a ensinar, a educar, a amar e a quebrar regras!

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6 Comentários »

  1. Republicou isso em O LADO ESCURO DA LUA.

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    Comentário por anisioluiz2008 — julho 12, 2016 @ 8:10 | Responder

  2. SAUDADES DOS MEUS PAIS !!!!

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    Comentário por IVONE VERONICA MARTIN — julho 12, 2016 @ 9:53 | Responder

  3. Transmitir amor, alegria e o sentimento de que gosta de chegar ao lar, no fim do dia…

    Isso é bonito…

    E talvez central na criação de pessoas que gostem da aventura da vida…

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    Comentário por Adriano Picarelli — julho 13, 2016 @ 14:14 | Responder

  4. Amei este texto…Pai palavra forte e muito firme…Nome que exige de cada um no seu jeito de pensar e entender como ser um pai faz a grande diferença.O meu é de um jeito e dos outros outros jeitos…Mais graças a Deus tenho um pai ainda que mesmo sendo contra tudo ou todos me faz um bem danado o ter ainda por perto.

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    Comentário por irany Soares de Araujo — julho 19, 2016 @ 14:59 | Responder


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