A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

junho 17, 2016

A Criança que ainda habita em mim…

Estou em horário de almoço e ainda em minha sala de trabalho. Sem fome, resolvi não sair para comer. Hoje, estou um tanto saudoso, lembrando daquela época em que trocávamos cartas com os amigos e parentes. Contávamos coisas da vida, alegres ou tristes. Era um prazer pegar o bloco de papel e a caneta para escrever. Igualmente era muito bom o ato de abrir um envelope e ver as palavras saltarem frente aos nossos olhos. Atualmente, com o e-mail, ficamos preguiçosos. Digitamos e apagamos. Nossa história é arquivada em disco rígido. Reescrever e preservar as lembranças em papel é coisa do passado. Falta-nos tempo livre – uma das coisas mais preciosas que tínhamos e abrimos mão.

Sim, aquele era um tempo em que comprávamos o bloco, os envelopes, o cartão, a melhor caneta, ia ao correio…

Hoje, atravessando a Praça da República, região central de São Paulo e vindo para o trabalho, vi dois meninos, moradores de rua, com pouco mais de 9 anos. Um deles, embrulhado num cobertor sujo, comia um resto de lanche. O outro parecia conversar com a árvore sob a qual estavam sentados. E lembrei do “O meu pé de laranja lima”, livro realmente fascinante. Eu o li quando era muito novo. Frequentava a E.E.P.G. Dijiliah Camargo de Souza, na Vila Alemã, onde tive uma excepcional professora de primeiras letras – Sonia Lopes Lanzoni Pimentel Viana, que me fazia ler e muito. Abençoada seja essa mulher!

Bem, só me lembro de que realmente adorei o livro e com a cena de hoje cedo senti uma vontade enorme de reviver a experiência. Relembrar do Zezé, o menino franzino, muito pobre e “aprontão”. Mas que também é um menino sedento de sabedoria – que quer aprender tudo e ser um sábio poeta quando crescer. Porém, não deixa de ser um menino muito generoso e bondoso. Lembro como ele falava do irmão – “Como ele era lindo! Não havia ninguém mais bonito em Bangu!” – assim como o fato de partilhar o seu simples lanche com uma menina ainda mais pobre do que ele, entre tantos outros bonitos gestos.

O menino da Praça tinha muito pouco do Zezé – certamente a conversa com a árvore estava sendo travada sobre o efeito da pedra de crack que supostamente tinha fumado. Mas voltemos ao tema…

Nesse livro, José Mauro de Vasconcelos voltou à sua infância. Zezé vai aprendendo as coisas do mundo através dos olhos de uma criança muito esperta e com um profundo desejo de conhecer o mundo que o rodeia e de crescer para se tornar uma pessoa melhor – desde o passarinho que canta dentro de si (que depois teve de deixar voar para dar lugar ao pensamento – lindo isso, não é? Fico emocionado ao lembrar esse trecho!), passando pelo seu amigo Minguinho (nada mais que o pé de laranja lima, de que também teve de se separar), até todo o enfrentamento do mundo com outros olhos, vendo coisas lindas em objetos normalmente banais – num piscar de olhos Minguinho transforma-se no mais lindo cavalo do mundo!

Tendo consciência de que não podia ter todos os brinquedos que os outros meninos tinham, Zezé apossou-se da magia que o rodeava. Numa capoeira, acabava vendo uma jaula em um Jardim Zoológico, em um tronco um cavalo fantástico, fazendo do quintal uma extensa planície repleta de bisões, búfalos e de índios Apache, vendo uma selva em alguns pés de laranjeiras – e por aí vai. Isso nos ensina que, querendo, a nossa imaginação não tem limites. Isso tudo também imaginei em minha infância pobre. Os brinquedos feitos de latas vazias escolhidas no lixo, com quatro palitos e algumas batatas ou chuchus, dava vida aos porquinhos e bezerros, da minha “fazenda”.

O livro carrega uma mensagem linda – mesmo no meio de tanta pobreza, as menores coisas podem nos trazer felicidade e, por outro lado, há sempre alguém mais pobre que nós… Devemos sempre ajudar essas pessoas, pois poderíamos estar no lugar delas. Devemos sempre ter consciência de que as coisas poderiam ser piores, mas, por outro lado, não estar sempre pensando nas coisas más e sim em todas as coisas boas que temos e que ainda podemos conseguir, mesmo com pouco poder aquisitivo.

Ah, esse livro. Acho que todo mundo o deveria ler. E quem já leu reler e reler. Ele nos auxilia a encarar o mundo com diferentes olhos e inclusive muito provavelmente pode dar ao leitor o prazer de achar-se inundado por uma nova esperança, com uma vontade de viver renascida.

“O meu pé de laranja lima” é um livro que emociona como nenhum outro – tanto nos faz rir quanto nos faz chorar. Apesar de todas as maravilhas que o Zezé, menino prodígio de cinco anos, franzino e pobre, sensível e curioso nos traz; apesar de ter aprendido a ler sozinho; da maneira como compreende todas as coisas de “gente crescida”; de como aprende o que é a dor física e a dor psicológica; de como chega inclusive a desejar a morte – apesar de tudo isso, a narrativa não se torna inacreditável. Muito pelo contrário – talvez porque saibamos que toda aquela pobreza e tristeza e desgraça existem mesmo. Aqui em São Paulo, por exemplo, está em todos os cantos… Nem dá para desviar o olhar.

Esse livro é uma criação que mexe com qualquer pessoa com um mínimo de sensibilidade. Da primeira vez que o li, passaram-se muitos anos, meu caro leitor. Hoje tenho cinquenta e sete anos, e às vezes, na minha saudade, tenho impressão que continuo criança. Tenha a impressão que a qualquer momento vai aparecer um amigo de infância me trazendo figurinhas ou mais bolinhas de gude.

Mas hoje, sou eu que tento distribuir as bolinhas de gude e as figurinhas, porque a vida sem ternura não é lá grande coisa, não é mesmo? Às vezes sou feliz na minha ternura, às vezes me engano, o que é mais comum. Naquele tempo, no meu tempo de criança, eu não sabia que um dia me encontraria ajoelhado diante de um altar perguntando aos santos e anjos, com os olhos cheios de água – por que as histórias que contam hoje às criancinhas não são mais de faz de conta? Por que nas brincadeiras de polícia-ladrão as mortes não são mais de brincadeira?

A verdade, meu querido leitor, é que para mim contaram as coisas muito cedo. E vamos parar com essa conversa, pois estou quase chorando na frente do computador e os meus colegas de trabalho estão para chegar da volta do almoço.

Como disse um grande amigo – que os Zezés-esperanças não morram nunca dentro de nós, nesse mundo tão difícil e cada vez menos humano em que vivemos…

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3 Comentários »

  1. Valeu Augusto…

    Gosto quando alguém escreve sobre sua experiência com um livro…

    Sabe que não li ?!

    Vou procurar, deve até estar no Domínio Público…

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    Comentário por Adriano Picarelli — junho 17, 2016 @ 17:29 | Responder

  2. Augusto, amigo querido!
    “Que os Zezés-esperança, não morram dentro de nós”. Mais uma vez, você revela lindamente, um pouco do que foi a minha infância também! Há muitos anos o livro: O Meu pé de laranja lima, de José Mauro de Vasconcelos foi meu companheiro de cabeceira, e está em minha memória. Sinceramente, uma das mais lindas obras que já li, reli, e por diversas vezes derretida em lágrimas. Quando posso, dou de presente ou recomendo. Um abraço saudoso. Hozana

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    Comentário por Hozana Rivello Alves — junho 18, 2016 @ 20:11 | Responder

    • Bom dia minha querida amiga Hozana! Muito agradecido pela visita. Saudades de nossos encontros da Coordenação do DEF. Faz tempo que não vou mais em um deles. As coisas mudam… Grande abraço. Augusto

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      Comentário por Augusto Martini — junho 20, 2016 @ 8:34 | Responder


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