A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

maio 13, 2016

Quando eu era menino…

Nunca pensei que sentiria falta dos pega-pegas da Rua M-1-A na Vila Martins, em Rio Claro/SP… quando eu era apenas um menino.

Nunca pensei que sentiria falta dos campeonatos de bolinhas de gude, bater bafo, rodar pneus… quando eu era apenas um menino.

Nunca pensei que sentiria falta das tardes de domingo e das matinês no Cine Tabajara que já não existe mais. Das séries cinematográficas de “Tarzan”, “Flash Gordon”, “Capitão Marvel”,  “Rim Tim Tim”, “Vigilante Rodoviário”… meus heróis dos anos 70. E dos Gibis… das histórias em quadrinhos… Pato Donald, Tio Patinhas, Professor Pardal, Pateta. Dos livros de Monteiro Lobato e Júlio Verne. Só de lembrar de tudo isso fico tonto, tonto de saudades, de uma melancolia gostosa… Sentindo falta de quando eu era apenas um menino.

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Nunca pensei que sentiria falta das festas da escola, das festas juninas, da “festa das nações”, quando pela primeira vez percebi que havia um mundo com roupas e costumes diferentes – e acho que isso me levou a gostar tanto de Geografia e História. Falta dos bailes do Grêmio Recreativo da Companhia Paulista, das noites de discoteca da Sociedade Filarmônica Rio-clarense,  do som dos clarinetas, trombones e trompetes da Banda União dos Artistas Ferroviários… Artistas que eu admirava em minha infância, lembranças de quando eu já era… um pouco mais que um menino.

Nunca pensei que a minha infância representasse tanto, e que uma cidade pacata como a Rio Claro dos anos 70 e 80 marcasse tanto a minha vida. Que carregaria por todos estes anos o sentimento profundo de uma terra, incrustada em mim pelos seus humores, pelos seus rumores, pelos seus aromas, pelas suas personagens, pelos seus casos e descasos.images

Nunca pensei que sentiria falta da neblina do amanhecer nas manhãs frias do mês de Julho que deixavam os cabelos molhados de tão pesada que era… e que depois disso, por certo, se abriria um dia ensolarado e quente… quando eu era um pouco mais que um menino.

Nunca pensei que sentiria falta das infinitas voltas com a bicicleta de meu pai ao redor do quarteirão, nas noites desertas e calmas … quando eu era um pouco mais que um menino.

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Nunca pensei que sentiria falta das conversas descompromissadas com os vizinhos, da loja do “Seu Zé”, onde trocava dois Gibis já lidos por um não lido, da mercearia “dos Pizzirani”, do bar do “Seu Zé Campinas”…

Ah, mas eu nunca, nunca pensei que sentiria falta das quermesses da igreja matriz de Nossa Senhora Aparecida, das barracas toscas com várias prendas e jogos, exalando aromas de frango assado, pastéis e leitoa assada… E do som do serviço de auto falantes que volta e meia tinha uma música dedicada para “a moça de saia preta e blusa vermelha”. E isso tudo aconteceu quando eu era apenas mais que um menino.

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4 Comentários »

  1. Augusto, bom dia!

    Uma outra ideia sobre o que você chama de falta…

    ***

    Ausência

    Por muito tempo achei que a ausência é falta

    E lastimava, ignorante, a falta.

    Hoje não a lastimo.

    Não há falta na ausência.

    Ausência é um estar em mim.

    E sinto-a tão pegada, aconchegada nos meus braços

    Que rio e danço e invento exclamações alegres.

    Porque a ausência, esta ausência assimilada,

    Ninguém a rouba mais de mim.

    Carlos Drummond de Andrade

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    Comentário por Adriano Picarelli — maio 15, 2016 @ 8:04 | Responder

    • Oi meu amigo! Drummond é fantasticamente delicioso, não é mesmo? Grande abraço. Saudades. Augusto

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      Comentário por Augusto Martini — maio 16, 2016 @ 9:57 | Responder

  2. Na infância conseguimos apreciar o mundo de uma forma tão diferente. Por isso as coisas, as pessoas e os momentos ficam para sempre connosco e têm aquele saborzinho especial. 🙂

    Visite meu blog também: https://sentidoemocional.wordpress.com/2016/05/19/httpgoo-gl9wlrew/ Obrigada 🙂

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    Comentário por iridis13 — maio 20, 2016 @ 10:53 | Responder


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