A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

março 31, 2016

Curiosidades do tempo de infância

Quando criança, o dia parecia interminável. Mesmo cheio de tarefas escolares, tinha o tempo para as brincadeiras, como o correr pelas ruas, soltar pipas, jogar bolinhas de gude, rodar pneus… as horas pareciam dar cria.

tanajura-15

Icá ou Tanajura

Na maioria das vezes andava com um saquinho dependurado no ombro, cheio de mamonas verdes e roxas e no bolso um estilingue. Moleques são bichos doidos e sem medida, cheios de traquinices. Mas isso faz parte da própria natureza desse ser, pois quando crianças somos envolvidos em um mundo mágico e fantasioso. Criamos coisas e causos e acreditamos em tudo que a mente pode alcançar, inclusive em coisas malucas, que depois, na fase adulta se tornam ações totalmente sem fundamento. Bolinhas de gude translúcidas eram como que mágicas. Quem as tinha quase sempre ganhava o jogo. Com a ponta do dedo indicador apontado para uma abelha conseguia-se domá-la e fazer com que voasse na direção apontada. Era como que um feitiço. Coisas bestas e sem sentido.  Catávamos Içás (formigas tanajuras, saúvas), retirávamos a bunda, torrávamos com óleo e sal e comíamos. Aquele que comesse mais se tornava forte e poderoso. Mas hoje sei que essas crendices só serviam para alimentar as lombrigas que moravam na minha barriga de menino.

Na mira dos nossos estilingues estavam as rolinhas que perambulavam ciscando apressadas a rua de terra batida. Os pardais e pombas do ar também. Eram o alvo perfeito e iam parar numa frigideira, pegada furtivamente na cozinha de alguém da turma. Mas uma coisa era regra e proibida entre nós: não podíamos matar beija flor. Isto era sagrado!

 

 

icas

Espécie de formiga tanajura é uma fina iguaria da culinária cabocla, servida torrada e consumida como se fosse amendoim. Por: Gustavo Laredo – Globo Rural – Quando o padre Anchieta chegou ao Brasil, um hábito curioso dos índios lhe chamou a atenção: em determinada época do ano, os nativos ficavam ansiosos para colher, aos saltos, ‘frutos’ que vinham do céu. Corriam alegres e enchiam vasos e mais vasos desse alimento que, torrado como amendoim, provocava verdadeiro deleite em toda a tribo e até nos homens brancos que o provavam. Os ‘frutos’, na verdade, eram formigas de abdômen avantajado, conhecidas por muitos como tanajuras ou içás. Segundo uma lenda indígena, foi uma cobra pequena quem ensinou aos índios consumir esse inseto. Certo dia, eles viram o réptil comendo a saúva, experimentaram e perceberam o quanto era gostoso. De fato, o gosto da tanajura lembra muito o do camarão. No entanto, não é somente o sabor que faz desse inseto um prato bastante apreciado pelos índios e também pelos caboclos das regiões rurais do Brasil. A ‘carne’ da içá tem alto valor protéico. Segundo o biólogo Eraldo Medeiros Costa Neto, da Universidade Estadual de Feira de Santana, BA, as formigas da espécie Atta cephalotes, por exemplo, contém aproximadamente 44% de proteínas. Já a carne de frango e a de boi possuem 23% e 20%, respectivamente. Esses insetos são também ricos em sódio, potássio, ferro e cálcio.

Muitas vezes o dia começava antes mesmo do sol nascer, quando algum galo cantava num dos quintais. Era nosso relógio natural. Ah, que saudades…

Criança tem que ter infância. Mas hoje eu fico vendo o tanto que as coisas mudaram. Infância na era virtual. Crianças que vivem enclausuradas em seus apartamentos, numa selva de ferro, asfalto e concreto, que desconhecem o que é caminhar na mata, tomar banho de água fria no riacho, ouvir o cantar dos pássaros, observar o brilho das estrelas que iluminam o céu numa noite escura.

E fico comparando a minha humilde infância com a das crianças de hoje, o tanto que fui feliz, onde tudo faltava e tudo era tão difícil. Passava o tempo brincando de armar arapucas e laços. Andando pelo mato para achar uma boa forquilha para fazer o estilingue. Procurando por um pedaço de couro para fazer a liga. Soltando bolhas de sabão com o canudo feito do talo da folha de mamão ou da mamona.

Tínhamos uma vizinha, a Dona Cida Benzedeira, que tinha um banco na frente de sua casa. Muitas noites sentávamos nele para ouvir seus inúmeros causos. Contava estórias maravilhosas, outras de medo, como as de lobisomem. E então a meninada se aglomerava em volta, de olhos esbugalhados escutando suas narrativas.

Eram estórias que muitas vezes não nos deixavam dormir, iam com a gente para cama, labutando em nosso pensamento, dando margem a pesadelos, mas era um medo gostoso, tão bom que no outro dia estávamos lá novamente, esperando ela sair para contar outras. Hoje escrevendo esse relato, fico imaginando o tanto de coisas que ouvi e aprendi com ela, com meus pais, tios e avós. Tenho saudades daquelas noites em que esperávamos o questionamento: “o que querem ouvir hoje?”

Que tempo bom… Penso que de contador de estórias e causos todo mundo tem um pouco. E você? Tem alguma estória ou causo da infância para contar? Deixe aqui o seu registro.

7 Comentários »

  1. Eu também catava – é esta a palavra – essas formigas, mas não comia…

    E brincava de cirurgião, colocando duas cabeças numa formiga…

    Lembrei-me de uma história de pôr medo nas crianças, a história de um menino enterrado no cemitério… Palito, o nome dele…

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    Comentário por Adriano Picarelli — março 31, 2016 @ 11:08 | Responder

    • Oi Adriano. Também tinha medo do Palito – que foi um serial killer na Rio Claro dos anos 60, pelo que diziam meus pais. Nunca achei nada escrito sobre o fato. Ele seduzia crianças com balas e pirulitos, levava-os para a mata, sodomizava e depois as empalava. Lembrança terrível de minha infância. Lembro da minha mãe me ameaçando, dizendo que se ficasse muito tempo na rua o Palito me pegaria, colocaria num saco e faria isso tudo comigo. Abraços, meu amigo. Augusto

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      Comentário por Augusto Martini — março 31, 2016 @ 11:15 | Responder

      • Eu não me lembrava da história, apenas do nome dele…

        Grande abraço!

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        Comentário por Adriano Picarelli — março 31, 2016 @ 11:19

  2. No YouTube há um documentário interessante chamado “Contos da Maré”…

    O cineasta ouviu moradores da favela do Rio sobre essas histórias, lendas, tipicas do mundo rural, que ainda sobrevivem nas cidades…

    Um ótimo documentário…

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    Comentário por Adriano Picarelli — março 31, 2016 @ 11:17 | Responder

  3. Belo relato, hoje me esforço bastante para que minha filhota tenha uma infância natural longe do virtual, uma criança que tem uma infância como a nossa dificilmente sofrerá de depressão.

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    Comentário por fuscaderivadoseoutrascoisasantigas — abril 8, 2016 @ 19:20 | Responder


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