A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

janeiro 29, 2016

Reencontro da Turma dos formandos de Geografia da UNESP – Campus de Rio Claro, ano de 1988

drumond

Memória – Carlos Drummond de Andrade

Amar o perdido

deixa confundido

este coração.

Nada pode o olvido

contra o sem sentido

apelo do Não.

As coisas tangíveis

tornam-se insensíveis

à palma da mão.

Mas as coisas findas,

muito mais que lindas,

essas ficarão.

Se como diz aquela letra de música que “recordar é viver”, vamos recordar enquanto ainda temos tempo – pois nós somos jovens de cabelos grisalhos. E quando começamos a recordar a gente nem imagina quanto cabe de saudade no peito da gente – há sempre uma saudade puxando outra. Parece mesmo que as saudades andam de mãos dadas.

Há dois dias que não consigo dormir direito. Na última quarta feira fui surpreendido com uma mensagem no WhatsApp. Era um chamado da Adriane Zimiani, amiga de longa data, desde a faculdade. Dizia que algumas pessoas de nossa turma de 1988 do curso de Geografia, UNESP, Campus de Rio Claro/SP, tinham criado um grupo no aplicativo e que combinavam em fazer um encontro no feriado de 21 de abril. Fui adicionado de imediato pelo Haroldo. E logo sendo instigado por um novo contato, por outro, e mais outro, e mais outro. Ontem, com a ajuda de uma amiga que trabalha na Secretaria Estadual de Educação consegui localizar o Aluízio Martins, grande amigo e com o qual havia perdido contato. Após receber a mensagem da Cintia mandei uma mensagem, mas não tinha certeza se era a mesma pessoa. Logo após o SMS veio a resposta: “Sim, sou o Aluízio Martins, que cursou Geografia na Unesp, em Rio Claro”. E logo em seguida recebi uma ligação dele, a qual me deixou emocionado e feliz.

Assim, dia a dia, hora a hora o nosso grupo no WhatsApp aumenta, as conversas e fotos se multiplicam e a emoção se potencializa. E a comemoração dos 23 anos depois de formados vai tomando corpo. Acredito que algumas pessoas, como eu, não poderão ir. No dia 21 de abril faço anos e estou com passagens compradas para uma viagem já programada ainda em novembro passado. Mas a maioria da turma estará lá, revendo os grandes amigos da juventude, apresentando as famílias, relembrando as histórias e se embriagando nas saudades… não só nas saudades, se os conheço bem! (Rs).

Sim, saudades… De tudo o que vivemos e de quem fomos. Lembrar daquela nossa versão mais simples, ingênua e até fora de moda. Saudades até daquilo que não lembramos mais. Acontecimentos que viraram piadas, como o que a Aline relatou no grupo – a carga de micuins que pegamos em um trabalho de campo no roteiro das cidades mortas (Bananal, Areias, São José do Barreiro…) e que teve gente que retirava os parasitas com o calor do fogo do isqueiro. O perrengue que o pessoal passou na voçoroca de São Carlos. Roupas sujas, areia que “engolia” a gente. O trabalho de campo em Barra Bonita em que a proprietária do hotel aparaceu no café da manhã pedindo o favor para que nós nunca mais aparecêssemos por lá. Saudades de tudo o que fazíamos e dos papéis que interpretávamos para driblar algum professor em uma entrega de trabalho atrasada, dos apelidos e manias tão singulares que tínhamos – Cebola, Bisqui, Boquita, Onça…

Com a criação desse grupo estamos revendo fotos, contando “causos”, relembrando as festas no “Campus da Dez” e em repúblicas. Mas principalmente estamos vendo a passagem do tempo nos rostos e sabendo da experiência adquirida nesses anos por cada um.  Tenho certeza que nesse encontro vão ser esquecidos os dramas, nossa vida cotidiana vai ficar de fora e também as dificuldades do dia a dia. E é claro que para todos nós a vida trouxe cicatrizes, muitas visíveis, outras não, mas nesse encontro, todos vão ter a sensação de que o tempo não passou. De que nesse espaço de tempo permanecemos os mesmos, independente do rumo que nossas vidas tomaram e do visual adquirido com o tempo.

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Ausência – Carlos Drummond de Andrade

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Todos voltaremos a ser o que um dia fomos aos dias de faculdade – pretensiosos, debochados e unidos, tudo funcionando na mais perfeita ordem… Ou não. Mas para isso não ligávamos. Tirávamos tudo de letra!

Gosto de relembrar. Nostalgia faz parte do meu dia a dia. E penso que para todos, o estar novamente juntos irá ser uma conexão com os jovens que um dia fomos, vivendo uma época de incertezas e indefinições em relação ao que esperávamos do futuro, isso é, ao hoje! E por meio desse grupo saber que nós, já cinquentões, ou não, somos vencedores, me deixa pleno de alegria.

Mesmo que a adesão ao encontro de 21 de abril não seja unânime, vale dizer que para um encontro da turma funcionar é preciso deixar a razão de lado, não pensar muito em valores de deslocamentos, nem pensar na distância ou o cansaço que isso gerará. Também não é bom levar em consideração afinidades ou divergências de mundos. Tudo isso só faria sentido se não houvesse memórias. Mas estas existem, e muitas!

Reencontrar vocês, meus amigos, significa reencontrar a mim mesmo. E tenho plena convicção de que será igual para todos –  estamos nos aproximando de uma porção de nós que existiu e se diluiu, mas que não pode se perder e precisa ser reativada de tempos em tempos. Vamos reencontrar o nosso referencial, aquele pedaço de nossa história que a partir de então tudo o mais virou comparação e entender que se algum dia fomos tocados por isso, esse tesouro continuará conosco para sempre.

Além de tudo, vejo esse encontro como um ato de coragem, pois é preciso deixar de lado o instinto de autopreservação, a carapuça que criamos nesses anos terá que ficar para trás e nos arriscarmos para a abertura.

Um encontro desses é o momento de se reafirmar. É como deixar para trás o adquirido em anos e voltar à terra natal para rever nossa história, a rua que vivemos, a casa que moramos, talvez esbarrar com um grande amor que aconteceu no passado ou provar uma receita de família feita por alguém do grupo.

Ah, sim, existe poesia em tudo isso. Só a criação desse grupo, o reencontro com as memórias de cada um, tudo isso já criou um encantamento que está sendo sentido por todos aqueles que estão se deixando levar. Acredito que para todos isso fez aflorar uma sensação gostosa e está agregando em cada um partes de si mesmo que estavam meio que perdidas.

Quero deixar aqui registrado que não tenho dúvidas de que boa parte do que sou hoje é fruto de ter tido o privilégio de fazer parte da grande família que foi a UNESP, onde nossos professores souberam dar muito mais do que boas aulas, ainda que alguns de nós possa não concordar com isso. O que o curso de Geografia nos deu foi uma incrível lição humanista, tornando-nos cidadãos conscientes. Mostrou-nos o mundo como ele é – com toda a sua crueza e suas belezas.

Nossos mestres da época conseguiram, de forma brilhante, fazer com que nós compreendêssemos que fazemos parte de uma sociedade e que temos direitos e deveres. Ensinaram-nos a sermos solidários, responsáveis, corretos. Explicaram-nos que honestidade não é virtude, mas obrigação. Incentivaram-nos a vencer e a perder, a não desistir, continuar sempre. Obrigado por tudo, caros mestres e amigos de turma! Hoje sou Geógrafo, mestre em História Social, Especialista em Organização de Arquivos e Documentação e em EaD, instrutor de Yôga…

Amigos – nunca desistam dos seus sonhos! Lembrem-se sempre que nós somos do tamanho dos nossos sonhos. Se vocês quiserem, vocês podem, vocês conseguem.  É sempre bom lembrar de todos vocês. É sempre bom saber que vocês estão por aí e que podemos contar uns com os outros.

Abraços. Com meu afeto e carinho!

p.s. – amigos, por favor, deixem suas impressões desse nosso tempo maravilhoso. Conto com a produção de vocês para enriquecer esse post com suas lembranças.

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10 Comentários »

  1. Que gostoso ler este seu espaço

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    Comentário por irany — janeiro 29, 2016 @ 16:01 | Responder

    • Obrigado, Laly. Bjs.

      Em 29 de janeiro de 2016 16:01, A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

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      Comentário por Augusto Martini — janeiro 29, 2016 @ 16:09 | Responder

  2. Grande! Grande não! Maravilhoso texto. Você conseguiu passar no “papel” nossos sentimentos de uma maneira linda.

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    Comentário por Fábio Luiz Pátaro (Didi) — janeiro 29, 2016 @ 18:05 | Responder

    • Didi,
      Há quanto tempo meu amigo. Hoje vi fotos de sua linda família. Parabéns por tudo o que construiu. Estando em São Paulo apareçam. Será um prazer recebê-los.
      Grande abraço e até breve.
      Augusto

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      Comentário por Augusto Martini — janeiro 29, 2016 @ 23:00 | Responder

  3. MUITO LINDO , MEU QUERIDO IRMÃO PENA QUE VOCE NÃO PODERÁ VIR E VERER SEUS AMIGOS , MAS SEI QUE NÃO FALTARÁ OPORTUNIDADE BEIJOS TE AMO MUITO ..

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    Comentário por IVONE VERONICA . — janeiro 30, 2016 @ 11:39 | Responder

  4. Emocionante meu querido Augusto
    Beijo no teu coracao lindo e generoso..

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    Comentário por May — janeiro 31, 2016 @ 23:03 | Responder

    • Muito obrigado!

      Em domingo, 31 de janeiro de 2016, A Simplicidade das Coisas — Augusto

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      Comentário por Augusto Martini — janeiro 31, 2016 @ 23:24 | Responder

  5. […] A não ser com umas seis pessoas, havia perdido totalmente o contato dos amigos de faculdade. E alguns desses seis consegui localizar pelo Facebook. Outros dois mantenho contato desde a faculdade. E mais recentemente uma dessas pessoas me encaminhou um convite para participar de um grupo recém criado no WhatsApp. Conversa vai, conversa vem,  recebi o tão esperado convite para meu primeiro encontro da turma depois de muitos anos, como já relatei aqui em um post na semana passada. […]

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    Pingback por Reencontro da Turma dos formandos de Geografia da UNESP – Campus de Rio Claro, ano de 1988 – parte 2 | A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini — fevereiro 2, 2016 @ 16:21 | Responder

  6. Augusto, adorei ler. Cada palavra sua está cheia de sentimento. Concordo com o Didi sobre você conseguir expressar no papel ( ou na tela) o que muitos de nós sentimos ao sermos encontrados. Que delicia ler seu blog e saber que você o construiu. Obrigada. Abraço da sua amiga Andrea Lastoria

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    Comentário por Andrea Lastoria — fevereiro 2, 2016 @ 20:42 | Responder

    • Querida amiga,
      Tudo isso, esse nosso reencontro, está me deixando com as emoções latentes.
      Obrigado põe existirem em minha vida.
      Beijos,
      Augusto

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      Comentário por Augusto Martini — fevereiro 2, 2016 @ 22:10 | Responder


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