A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

março 3, 2015

Hilda Hilst em ocupação no Itaú Cultural

“O teatro surgiu numa hora de muita emergência, em 1967, quando havia a repressão. Eu tinha muita vontade de me comunicar com o outro imediatamente. Como não podia haver comunicação cara a cara, então fiz algumas peças, todas simbólicas, porque eu não tinha nenhuma vontade de ser presa, nem torturada, nem que me arrancassem as unhas. Então fiz, por analogia, várias peças que qualquer pessoa entenderia o que se pretendia dizer numa denúncia. Fiz oito peças e, depois, parei. Era só uma emergência daquele momento em que eu desejava uma comunicação mais imediata com as pessoas. Mas também não deu certo. As pessoas vão ao teatro para se divertir, ninguém vai ao teatro para pensar.” (Um diálogo com Hilda Hilst. Entrevista concedida a Nelly Novaes Coelho, Rio Claro, Arquivo Municipal, 1989).

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No mesmo evento uma ouvinte pergunta se Hilda havia aprendido pintura, ao que escuta como resposta: “Não, não aprendi pintura. Às vezes, quando fico muito tensa e não consigo escrever, aí eu pinto, desenho um pouco.”

Tive o prazer de conhece-la pessoalmente quando fui buscá-la em uma tarde chuvosa em Corumbataí/SP, onde estava hospedada em casa de amigos. Hilda seria entrevistada por Nelly Novaes Coelho em um ciclo de palestras, promovido em 1989, pela Profa. Dra. Ana Maria de Almeida Camargo e que recebeu o nome de “Feminino Singular”. O evento aconteceu no Arquivo Público e Histórico do Município de Rio Claro, onde trabalhei de 1985 até 2002. Adorava o meu emprego no Arquivo e só saí de lá por conta do baixo salário. Caso contrário estaria por lá até hoje! Hilda veio sentada ao meu lado, em meu Fuscão branco, ano 1975, falante, simpática e fumando muito. Durante os poucos quilômetros que separam Corumbataí de Rio Claro, conversamos sobre plantas e cachorros, sua paixão. Hoje ela está sendo homenageada e relembrada num grande evento aqui em São Paulo.

Ocupação Hilda Hilst no Itaú Cultural da Avenida Paulista, acompanha o cotidiano da escritora, por meio de notas, agendas, registros de sonhos e reflexões.

Parte dos escritos de Hilda Hilst (nascida no interior de São Paulo em 1930, na cidade de Jaú) estão expostos para o público ver e manipular e a cenografia promete reproduzir um ambiente intimista, inspirado pela Casa do Sol, em Campinas (SP), onde ela viveu dos 35 anos até morrer, em 2004. Dividida em cinco núcleos, a ocupação é focada nas obras JúbiloMemória, Noviciado da PaixãoKadosh,  A Obscena Senhora D, Com os meus olhos de cão e O caderno rosa de Lori Lamby o primeiro de uma tetralogia obscena, lançada em 1990, depois de ser recusado por algumas editoras e causando, posteriormente ao lançamento, espanto e polêmica. Escrito no formato de um diário, o livro narra em primeira pessoa a história de uma menina de oito anos que vende o corpo incentivada pelos pais.  A linguagem é própria de uma criança dessa idade e a história nada tem de dramática, muito pelo contrário. Daí o espanto, causado até hoje por quem lê!

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Parte do conteúdo é inédito em exposição. Agora, grande parte do acervo da escritora, poeta e dramaturga estará exposta, com entrada gratuita, e ficará por lá até o dia 21 de abril. Lori Lamby é apenas uma parte genial de Hilda Hilst, que publicou dezenas de obras entre poemas, ficções e peças de teatro. Seu lado obsceno talvez seja o mais conhecido, mas Hilda Hilst tem textos que exploram outras questões como a busca pelo significado de Deus e da morte.

Além do espaço expositivo, a ocupação terá uma programação paralela, incluindo quatro peças baseadas em textos da escritora e na abertura, no dia 28 de fevereiro passado, teve um show do cantor Zeca Baleiro com composições sobre os versos de Hilda Hilst.

SERVIÇO

– até o dia 21 de abril, de terça a sexta, das 9h às 20h, no Itaú Cultural (Avenida Paulista, 149). A entrada é gratuita.

– Livro “ Um diálogo com Hilda Hilst”. In: Nelly Novaes Coelho et alii. Feminino Singular. São Paulo, GRD Edições; Rio Claro, Arquivo Municipal, 1989, p.136-160. Observação: vale muito a pena ter e ler esse livro de depoimentos. Fizeram parte desse ciclo Hilda Hilst, Nelly Novaes Coelho, Adélia Prado, Renata Pallottini, Cremilda Medina…

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