A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

fevereiro 20, 2015

Morri! E agora? O que fazer com meu corpo?

Hoje o assunto do post é um tanto tétrico. Vou falar sobre o pós-morte –  sabia que além do enterro convencional, você pode transformar suas cinzas em esculturas, quadros (as cinzas são misturadas na tinta), jóias, diamantes e até pode enviá-las à lua?  Também há o velório que se transforma em evento social, entre outros.

Você morreu! E aí? Nada mais precisa ser simples e comum. Tudo pode ser reinventado. 

Desde um enterro comum, até a cremação que costuma ser rejeitada por parecer um processo caro. Mas, comparada a todas as taxas de um sepultamento convencional, cremar ainda é mais econômico do que sepultar, sabia? Só a gaveta de um cemitério qualquer aqui em São Paulo, não deve sair por menos que 3 mil reais, pelo que ouvi falar. E isso nos cemitérios mais simples. Em alguns outros essa quantia pode ser bem maior. E para enterrar tem o caixão, flores, preparação do morto, a taxa de sepultamento, fora a manutenção do túmulo. Sem contar que hoje em dia as pessoas não vão muito ao cemitério. Somado a esses fatores a cremação tem a vantagem de ser a alternativa que menos agride o meio ambiente.

ipe-rosa

O Roberto, daqui alguns anos!

E se o desejo é dar um destino diferente para o ente querido, o primeiro passo é justamente a cremação. É a partir das cinzas do morto que se pode inventar de tudo. Até para se despedir das cinzas existem alternativas. Se a ideia é jogar ao mar, há uma urna biodegradável especialmente elaborada para a ocasião. Feita de papel machê e coloridas com tintas naturais, a urna em formato de concha é das mais vendidas no litoral. Também há as urnas feitas de areia e gel (hidrossolúvel) e uma feita com fibra de coco que acompanha sementes de árvores nativas com instruções de plantio. Quando uma pessoa é cremada, as cinzas se transformam numa espécie de adubo, rico em cálcio, magnésio, etc..

Não há mesmo limite para as cinzas, nem mesmo o céu. É possível enviá-las ao espaço e ter suas cinzas espargidas na superfície lunar. Outros níveis são o da órbita terrestre, o suborbitário e o espaço profundo. Um serviço oferecido pela Celestis, empresa dos Estados Unidos especializadas em voos espaciais memoriais e que tem parceria com a agência espacial Nasa, pode levar suas cinzas ao espaço e espargi-las na superfície lunar. Ou na órbita terrestre. Parte das cinzas é colocada em uma pequena cápsula e enviada à sede da Celestis nos Estados Unidos. A cápsula permanece lá até o lançamento do foguete que vai levá-la ao seu destino final. Os parentes recebem um convite para o evento, caso desejem participar, mas as despesas de viagem não estão incluídas. Todo o lançamento é gravado em vídeo, que pode ser assistido depois.

Há também as cerimônias regadas a muita bebida e músicas de todos os tipos. E existe a opção inusitada de transformar em diamante as cinzas do morto.

Segundo o site do EcoDesenvolvimento.org muitas pessoas estão optando por enterros “verdes”. Caixões e urnas biodegradáveis, feitas de madeira, papel reciclado e vime, são algumas opções já disponíveis no mercado e que prometem integração total com a natureza pouco tempo após o enterro.

Para os mais radicais, alguns cemitérios norte-americanos já oferecem a opção de enterro sem caixão, da forma mais natural possível. Uma proposta recente da cidade britânica de Cambridge quer adotar métodos mais sustentáveis às tradicionais cremações.

Uma das técnicas, chamada de “promession”, consiste no uso de nitrogênio líquido para resfriar o corpo até -196ºC, temperatura na qual ele pode ser desumidificado e fragmentado. De acordo com o jornal The Telegraph, o fino pó decorrente do processo pode ser usado como composto biodegradável ou enterrado em um caixão biodegradável.

Outra opção é o “resomation”, método que submerge o corpo em uma solução alcalina que o dissolve em cerca de três horas. Como a temperatura utilizada neste novo processo é 80 % menor do que a temperatura da cremação padrão, o processo usa menos energia e produz menos emissões de dióxido de carbono.

As técnicas foram submetidas ao Conselho Distrital de Cambridge em um plano de negócios e aguarda a aprovação para serem postas em prática.

Enquanto os britânicos aguardam a liberação oficial para poderem ser enterrados de forma sustentável, os norte-americanos já adotaram a “resomation”, e a “promession” foi patenteada por suecos e é praticada no país nórdico.

Comecei a escrever esse post porque no sábado de carnaval estive em Ipeúna/SP, na chácara de um amigo e a história que ouvi por lá foi bem simbólica.

Em uma das laterais da casa há um Ipê Rosa crescendo vigoroso e somente ele tinha a proteção de uma tela de arame. As outras árvores não. Perguntei ao meu amigo qual o sentido daquilo. E ele me disse que aquela árvore tem um nome – “essa é o Roberto”, disse-me ele. “Um grande amigo, médico conhecido, que gostava muito de festas, de beber e papear”.

A esposa do Roberto decidiu que uma pessoa tão querida não poderia ter um enterro comum e ser esquecida. Então, após a morte, suas cinzas deveriam voltar à natureza. Para evidenciar ainda mais este simbolismo, o velório se constituiu em três festas. Nada de tristeza! Uma primeira, para os familiares, outra para os amigos da cidade e a terceira para os amigos que moravam em São Paulo. Dividiu as cinzas do marido em potinhos. E durante as festas, distribuiu as cinzas. E quem tinha espaço para o plantio, também recebeu uma muda de Ipê Rosa, a árvore preferida do Roberto. Assim, esta daria início à outra vida marcando claramente o novo lugar que o antigo corpo ocupou na terra. Não deixa de ser um ritual laico de regeneração e volta à natureza.

E lá está o Roberto – crescendo vigoroso ao sabor dos ventos e ao som do canto dos pássaros. Os amigos, quando ali estão e em sua homenagem, se aproximam, falam um “olá” e deixam cair algumas gotas de bebida em oferecimento ao falecido.

E tem um último detalhe dessa história. Segundo o meu amigo, após a morte do Roberto sua esposa se aproximou mais da religião e das terapias alternativas. Ela havia guardado um pouquinho das cinzas como lembrança. E tempos atrás o Roberto se manifestou em um centro espírita. E pediu para que ela o libertasse de vez!

O que você pensa sobre isso tudo? Apostaria nesta forma de vida após a morte?

Gostou e quer saber um pouco mais sobre a sustentabilidade da morte? Seguem abaixo alguns links sobre o assunto.

Traje funerário de fungos pode reduzir impacto ambiental pós-morte
Brasil desenvolve caixões de papelão reciclado
Dá pra ser ecológico depois de morto?
Qual o jeito mais ecológico de morrer?
Infográfico detalha vantagens da cremação
Um crime depois de morto (Blog do Planeta Sustentável no site da Superinteressante)

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8 Comentários »

  1. muito bom esse post, as ideias são ótimas. Serei cremada e minhas cinzas vão adubar algum lugar. Vou deixar isso registrado. 🙂

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    Comentário por Vera Grellet — fevereiro 20, 2015 @ 10:57 | Responder

    • Oi Vera, querida amiga! Então. Eu já fiz a minha Declaração de cremação. Você faz em cartório e registra! Bjs e aproveite suas férias. Augusto

      Em 20 de fevereiro de 2015 10:57, A Simplicidade das Coisas — Augusto

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      Comentário por Augusto Martini — fevereiro 20, 2015 @ 11:00 | Responder

  2. Ah!,…Muito boa essa matéria.Muito obrigada, só não sabia que tinha que registrar em cartório a opção em cremar ,, sempre falo pra meus filhos sobre esse custo, a pessoa morre e os vivos é que ficam pagando até chegar a vez do prósximo e assim vai indo.

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    Comentário por lacibrumlacy brum — fevereiro 20, 2015 @ 13:28 | Responder

    • Oi Lacy.
      Pesquisei sobre a cremação na época que fiz o documento. E me disseram que é a forma correta e melhor de se fazer o registro da Declaração de Vontade. E precisa de testemunhas. Depois, deixe uma cópia com alguém próximo, e avise aos outros para que fiquem sabendo de sua vontade. Na minha declaração deixei registrado os lugares onde quero que minhas cinzas sejam lançadas. Vou dar trabalho – quero ser “espalhado” em três lugares!
      Abraços.
      Augusto

      Curtido por 1 pessoa

      Comentário por Augusto Martini — fevereiro 20, 2015 @ 14:27 | Responder

      • Ola !….Obrigada por mais essa informação, nossa, nunca pesquisei sobre isso, mas só não falei pra torcida do São Paulo, e mais testemunha…, bem, eles, filhos, espalhem as cinzas onde eles quiserem….nunca vi uma cremação, acho que vou dar um pulinho na Vila Alpina, acho que é só lá que fazem isso….rindo…que assunto em pleno fim de semana….abraços e obrigada !

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        Comentário por lacibrumlacy brum — fevereiro 21, 2015 @ 20:34

  3. Ah!, desculpe a digitação !

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    Comentário por lacibrumlacy brum — fevereiro 20, 2015 @ 13:30 | Responder

  4. […] Morri! E agora? O que fazer com meu corpo?. […]

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    Pingback por Morri! E agora? O que fazer com meu corpo? | Cosmopolitan Girl — março 3, 2015 @ 16:24 | Responder


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