A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

janeiro 27, 2015

Quer ser um funcionário público?

Sou funcionário público e a maioria dos meus amigos também são. E imagino que como eu eles não gostem das piadinhas sobre o funcionalismo.  Temos a fama de que somos pessoas privilegiadas, que trabalhamos pouco, ou nada e isso não é de agora. Essa fama vem de muito tempo atrás, tempo em que o servidor era chamado de barnabé, a Secretaria ou o local de trabalho era denominado de repartição e o salário de ordenado. Não é de agora a história do funcionário que deixa o paletó lá na “repartição” no encosto da cadeira pela manhã e volta para pegá-lo no fim da tarde – e quando volta “bate o ponto”.

E hoje, uma amiga e leitora do blog, a Vera Grellet, me enviou um trecho da marchinha “Maria Candelária”, que foi composta por Klécius Caldas e Armando Cavalcanti. Ela era cantada por Blecaute e fez enorme sucesso no carnaval de 1952. A letra é assim:

“Maria Candelária / é alta funcionária / saltou de paraquedas / e caiu na letra ó / ó ó ó ó.

Começa ao meio-dia / coitada da Maria / trabalha, trabalha / trabalha de fazer dó / ó ó ó ó.

Á uma vai ao dentista / às duas vai ao café / às três vai à modista / às quatro assina o ponto / e dá no pé.

Que grande vigarista que ela é!”

A marchinha tem sessenta  e três anos, mas ainda é atual e poderia ser cantada nos carnaval desse ano, em 2015, se fizéssemos algumas adaptações, pois tem alguns dizeres que estão fora de moda, como vigarista, por exemplo, que soa muito leve para os escândalos atuais.

Mas, a bem da verdade, as marias candelárias – e seus pares masculinos – continuam firmes em muitos cargos no serviço público brasileiro, infelizmente. E são esses que envergonham a mim e a meus amigos.

Nós, funcionários públicos não somos todos assim. Mas existem muitos que são. Quem nunca se irritou com um servidor mal-educado, displicente, prepotente?  Mas, não se pode generalizar. Há servidores excelentes e competentes, atenciosos e diligentes. E que são muitos também. Somos pagos com dinheiro público e para servir ao público. O problema é que a turma das marias candelárias e seus pares acaba ofuscando a parte boa do funcionalismo.

E é bom explicar que há um conflito entre funcionários concursados e comissionados. No senso comum, o “concursado passou em um concurso difícil e trabalha muito”. E que o “comissionado foi nomeado com alta remuneração e não trabalha”. Ledo engano. Pura falsidade. Há concursados da “família Maria Candelária” e há comissionados que trabalham muito. Na verdade, há mais concursados que não trabalham do que comissionados, pois os primeiros têm a célebre estabilidade – só podem ser demitidos depois de longo processo interno. E raramente os processos são abertos e mais raramente ainda alguém perde a função pública por causa deles. Vejam os casos dos juízes… por exemplo.

É claro que ter estabilidade é algo positivo. Tal medida foi criada para proteger os servidores das demissões imotivadas, ou motivadas por questões políticas, como no caso de um partido da situação ser substituído por um da oposição, após as eleições, por exemplo.

Mas, por conta disso, a estabilidade, que foi uma boa ideia, virou um mal. Como não vão ser demitidos por trabalhar pouco ou trabalhar mal, ou até por não trabalhar, há servidores que fazem o que querem, como a Maria Candelária da marchinha de carnaval! Nesses casos, a semelhança é que concursados não trabalham porque são estáveis e comissionados não trabalham porque são protegidos. Mas não são todos, é bom repetir. Mas são muitos, podem ter certeza!

Os concursados se dizem mais bem-preparados do que os comissionados. Afinal, estudaram muito para ser aprovados em concursos dificílimos e disputadíssimos. E estes dizem que qualquer um pode ser comissionado. Tudo errado. Há comissionados brilhantes e bem-preparados e concursados que mal sabem escrever ou conversar. Mas, como passaram nos difíceis concursos? Ora, passaram porque estudaram mecanicamente horas e horas seguidas, puderam fazer cursinhos caros, aprenderam os macetes das instituições que elaboram as provas. Engano pensar que muitos deles passaram porque eram promessas de grande competência no serviço público.

Conheço concursados excelentes! Mas, sei que são muitos os que entram no serviço público apenas porque têm mais e melhores condições de se preparar para as provas (e não para o trabalho!).

É fato que o concurso público é um instrumento importante, essencial, para impedir o apadrinhamento e a nomeação de pessoas sem qualificação. Mas na verdade o que o concurso faz é apenas garantir um patamar mínimo de nível escolar e selecionar os vencedores com base em critérios e conhecimentos que na maioria das vezes são discutíveis. Todos sabemos que aqueles que passam não são, necessariamente, os melhores e mais capazes.

E acredito que você possa estar se perguntando: e como mudar isso?  E eu respondo: não há como mudar! Os concursos públicos são um enorme negócio, que envolve cursinhos, professores, gráficas, gastos com publicidade, instituições acadêmicas que fazem e corrigem provas, além de cuidar da logística, fiscais de provas, etc. Se você mora em São Paulo já está cansado de ver propagandas de cursinhos preparatórios de várias áreas afixadas nos vagões do metrô, nos ônibus, jornais…

Deveriam haver outros instrumentos de valorização e qualificação do servidor público. Hoje, estabilidade e concursos, ambos, são apenas instrumentos para a perpetuação das marias candelárias (servidores e servidoras, sem distinção de raça, cor, gênero, etc.).

Ah, e por que escrevi tudo isso? Perguntem para a Vera. Hoje ela conheceu duas marias candelárias.

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6 Comentários »

  1. Eu que achava que as coisas tinham mudado….

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    Comentário por Vera Grellet — janeiro 28, 2015 @ 9:26 | Responder

    • Não mudaram nada não, Vera! Ontem você teve a prova disso. Rs.

      Em 28 de janeiro de 2015 09:26, A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

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      Comentário por Augusto Martini — janeiro 28, 2015 @ 9:39 | Responder

  2. Mandou bem, como sempre Augusto! Bem pensado e refletido, tudo continua do mesmo jeito!

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    Comentário por Sandra Terezinha Klain Cristofoletti — janeiro 29, 2015 @ 12:14 | Responder

    • Oi Sandra. Tudo bem? É sempre muito bom receber mensagens suas. É verdade – tudo continua igual. Abraços. Augusto

      Em 29 de janeiro de 2015 12:14, A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

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      Comentário por Augusto Martini — janeiro 29, 2015 @ 14:09 | Responder

  3. Gostei do texto, isso me reportou à Bahia, pois esse dizer; do paletó ou da bolsa,(é muito comum por lá) se está na mesa do fulano é pq ele está por perto pois um de seus pertences indica que ele não foi embora(rsrsrs). Infelizmente isso se estende a todos, apesar de ter muito funcionário compromissado com seu trabalho/função.

    ATT,

    Beth Bernardino.

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    Comentário por Elisabete Bernardino — fevereiro 17, 2015 @ 22:14 | Responder

    • Bom dia Elisabete! Agradeço sua visita ao blog! Boa semana. Augusto

      Em 17 de fevereiro de 2015 22:14, A Simplicidade das Coisas — Augusto

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      Comentário por Augusto Martini — fevereiro 18, 2015 @ 10:50 | Responder


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