A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

setembro 30, 2014

Espaço público x Espaço privado

São Paulo é mesmo uma cidade de contrastes e muitas coisas por aqui me deixam intrigado. De vez em quando fico sabendo de um abaixo-assinado que repercute da mídia de forma estrondosa, contra coisas esdrúxulas, que aparecem até muito mais que algo como da luta contra a poluição dos mares, rodeios, uso de pele animal, etc.  Esses abaixo assinados, geralmente firmados por moradores endinheirados, viajados e com diplomas universitários, não pedem mais segurança nas ruas, nem salários dignos para seus empregados, nem a interrupção do trânsito nos fins de semana para poder passear, nem mesmo o fechamento de enormes shoppings que acabam com a boa vida do bairro. O que querem é acabar com aquilo que moradores de qualquer cidade do mundo gostariam: estações de metrô, ciclovias, ônibus mais rápidos e, agora, um museu (no caso o MIS – Museu da Imagem e do Som).

gente

 

Dizem que essas coisas atraem gente não tão viajada e com menos dinheiro, gente diferente, vendedores ambulantes e ônibus com crianças. Ou quase pior: afastam de suas vias, restaurantes e butiques destinados à esse “cidadão exclusivo”, como advertia anos atrás uma cabeleireira de Moema angustiada ao ver sua rua pintada de vermelho: “Onde vou colocar a minhas clientes milionárias que vêm com seus carros importados?! Acha que vão vir de bicicleta?!”.

Os moradores dos bairros ricos sentem-se inconformados, desprotegidos e protestam estacionando seus carros nas faixas destinadas às bicicletas, desabafam no facebook contra os farofeiros e mobilizam-se em busca de assinaturas. O que acontece com essa gente?

Esse é um sintoma da elite. Moema, Higienópolis, Jardim Europa – sempre foram protegidas pela polícia. O fato de uma nova classe média, agora com algum dinheiro, tomar a cidade, vindo das periferias para as “ilhas dos endinheirados”, para eles significa insegurança, medo, entre outras tantas coisas.

No último final de semana essa nova classe média organizou aqui na cidade um “churrasco de gente diferenciada”. Quase cem pessoas plantou-se em uma rua do Jardim Europa, perto da mansão daquela senhora que liderou a coleta de assinaturas contra o suposto caos que o Museu da Imagem e do Som (MIS) gerou aos “ilustres” moradores do Jardim Europa com uma exposição sobre o Castelo Rá-Tim-Bum. Quem conhece, sabe que esse é um bairro com casas que têm mais estrutura e funcionários que muitos condomínios. Os diferenciados comeram farofa, gritaram contra o preconceito e tocaram música. Mas os ricos promotores da iniciativa estavam passando o fim de semana fora. E quem ouviu a gritaria foram os seguranças encarregados de cuidar do patrimônio na ausência dos patrões.

Em nosso País ainda não  está desenvolvida essa noção do que é espaço público. Por aqui, acham que espaço público é um espaço privado. As ciclovias, o MIS, o metrô em Higienópolis deixam claro que existe uma parte da elite da sociedade que não quer ver o espaço público se transformar em algo que é propriedade de todo mundo.

bike

“A cidade organizou-se de uma forma individualista e privatista, tendo em mente a predominância dada ao automóvel. Uma parte da sociedade acostumou-se durante muito tempo a privilégios que não lhe correspondiam. É um problema para eles porque os iguala socialmente. Nessa questão, acho que a ideia de distinção é central, até agora se distinguiam por viver em um espaço determinado, privilegiado, que começa a ser usado por todos. Essa elite que se queixa tem uma grande dificuldade em lidar com o diferente e o espaço público”, diz Alexandre Barbosa Pereira, antropólogo e professor da Unifesp.

Enquanto os ânimos do do pessoal que fazia o churrasco foi diminuindo e algum morador atendia os jornalistas pelo interfone de sua mansão, um jornaleiro negro do bairro respondia espontâneo demais a uma pergunta impertinente: Os moradores daqui são legais?

– Não, claro que não. No máximo dizem “oi” e “tchau” ou mandam o motorista buscar o jornal.

– Fonte: baseado no artigo de Maria Martín para o El País.

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