A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

setembro 28, 2014

A casa da minha infância

Houve um tempo em que meu pai saiu da Fazenda São José do Morro Grande, onde ele tratorista, minha mãe cozinheira, meu avô, Primo Martini, administrador e meus tios, camponeses. Eu tinha mais ou menos 4 anos. Moramos primeiro na Rua 3-A, na Vila Alemã, em casa geminada. Na outro lado moravam minha tia Joana, irmã de minha mãe, e meu tio Cezar, irmão de meu pai, com seus filhos, meus primos-irmãos. Tempos depois eles voltaram a morar em uma fazenda.

Minha primeira casa - na Fazenda São José do Morro Grande

Minha primeira casa – na Fazenda São José do Morro Grande

Depois nos mudamos para a Rua M-1-A,  e mais algum tempo depois na mesma rua, na esquina da Avenida M-1-A, na Vila Martins. Tínhamos na frente da casa a linha férrea da Maria Fumaça, que ligava Rio Claro a Ajapí, Ferraz e Corumbataí, que logo depois foi desativada. E, quase nos fundos, a linha férrea da Companhia Paulista de Estradas de Ferro. 

No final dos anos 60 meu pai comprou um terreno na Vila Nova – Rua 10-A, entre as Avenidas 34-a e 36-A. E meu avô comprou o terreno ao lado. Os dois juntos mediam aproximadamente 22 metros de frente por 44 metros de fundos. Lembro-me que os terrenos tinham um grande formigueiro de saúvas e muitos tocos de Eucalíptos, os quais tiveram que ser arrancados para construir a nossa casa – imóvel simples, com dois quartos, sala, cozinha e banheiro, financiado pela Caixa Econômica Federal.

Era uma casa que não se impunha – não tinha laje (o forro era de madeira), recuada, na frente um pequeno jardim no qual meu pai plantou algumas árvores nativas. O quintal, então, era um capítulo à parte. Grande! Tínhamos horta, porco, galinhas, canteiros com verduras e legumes, limão, laranjas, mamão… O meu favorito sempre foi o pé de Poncãs, que chupávamos no pé.

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O galinheiro, que ficava nos fundos do terreno, muitas vezes me serviu de esconderijo durante as brincadeiras de pega-pega. Soltava pipas na rua e depois pulava o muro baixo para empinar no quintal. Tínhamos cachorros. Mas esse é uma história a parte. Contarei em outro post.

Só hoje me dou conta de como fui feliz naquela casa. Sonhando acordado, revisito as brincadeiras de rua, os shows da TV na casa dos vizinhos, a festa nas ruas durante a Copa de 70, as músicas que meu pai tocava na sanfona ou no violão,  longas conversas que ele tinha com os parentes no rancho dos fundos – ele era um grande contador de causos – o pequeno quarto que dividia com minhas duas irmãs e minha prima, a Cida, que veio morar conosco para estudar e saiu de casa só para casar – virando uma irmã também! O mesmo quarto em que – um dia  – tive uma briga com minha irmã – a Tereza – e que acabei apanhando dela.

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A colônia da Fazenda São José do Morro Grande

Minha mãe morreu em 14 de outubro de 1993. Saí de lá, salvo engano, em1999, depois de ter construído minha casa. Mas sempre voltava para ela. A casa da Rua 10-A era como um enorme casulo onde me sentia protegido e onde eu, hoje um cidadão do mundo, reavivo minha meninice. Atualmente a casa é da minha irmã, a Ivone.

Meu pai se foi em 06 de setembro de 2000. Quando vou para Rio Claro e visito a Ivone, revejo a casa, e muitas vezes parece que vejo meu pai sentado no rancho, tocando sua sanfona e desfiando suas memórias. Ou fazendo seus banquinhos de madeira e escadas…

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Meu pai e minha avó paterna.

A casa tendo ficado com alguém da família apazigua o meu coração. Ah, como eu gostaria de saber que sonhos terão as crianças que hoje habitam a casa, filhos de minhas sobrinhas, netos da Ivone, que volta e meia estão lá,  nos domínios da minha meninice… Apenas sei o fim que levou  o quarto que dividia com minhas irmãs…

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Eu, na entrada da “casa grande” da Fazenda São José do Morro Grande, distrito de Ajapi, em Rio Claro/SP

Ah, a casa de minha infância! Hoje, morando em São Paulo, de vez em quando eu a visito na minha imaginação. Percorro cômodo por cômodo. Eles estão vazios, mas ainda posso ouvir os ecos felizes da minha infância. A casa e a criança que fui moram dentro de mim.

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2 Comentários »

  1. que saudades eu também morei nesta fazenda acho que eu tinha sete anos +ou- meu pai era retireiro e meu tio Felício, cuidava do haras,lembro das pessoas que você descreveu , hoje tenho sessenta e seis
    anos e sou Jose Aparecido Brochotte e moro em Piracicaba sp,

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    Comentário por Jose Aparecido Brechotte — março 23, 2015 @ 16:03 | Responder

    • Sr. José Aparecido,
      Que bom que foi ler sua mensagem! Em meu blog, se procurar por “família Martini”, encontrará mais histórias dos meus pais e avós.
      Um abraço. E agradeço o seu contato.
      Augusto Jeronimo Martini

      Curtir

      Comentário por Augusto Martini — março 23, 2015 @ 16:24 | Responder


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