A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

julho 25, 2014

Buenos Aires e o Parque de la Memoria – um monumento às Vítimas do Terrorismo de Estado

Em tudo o que diz respeito a memória, os hermanos são infinitamente melhores que nós. O Parque de la Memoria, localizado em Buenos Aires, é apenas um exemplo disso.

Ontem meu passeio saiu fora do roteirão que todos os turistas que veem para Buenos Aires fazem. Fui conhecer o Parque de la Memoria. Fiquei impressionado com a força e a tristeza do lugar. É um dos poucos espaços na cidade que familiares e amigos dos desaparecidos possuem para deixar uma flor. Em outra oportunidade que estive na cidade eu havia feito uma visita ao  Espacio Memoria y Derechos Humanos (ex ESMA) – a máquina do terror na ditadura Argentina!

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A entrada no Parque impressiona logo de cara é o Monumento a las Víctimas del Terrorismo de Estado –  um muro gigante que abriga 30 mil placas, sendo que 9 mil delas contêm nomes de pessoas desaparecidas, reunidas pelo ano em que foram sequestradas e em ordem alfabética. Outra informação é a idade que tinham na época e, no caso das mulheres, se estavam grávidas ou não. É impressionante o número de menores de idade, entre 14 e 18 anos. Esta lista se complementa com um arquivo digital que pode ser consultado por familiares, estudantes, investigadores e público em geral, e que contém fotos, desenhos e objetos pessoais de cada um deles.  É possível consultar, no site do parque, dados sobre as vítimas e ainda contribuir com informações (veja aqui). Esse é um monumento que está em constante reformulação, já que muitas informações da época da ditadura estão sendo reveladas aos poucos. Segundo uma das funcionárias, em pouco dias um sistema de busca on line  bem mais completo do que o existente hoje estará no ar. 

Há também um espaço de arte, chamado Sala Pays (Presentes, Ahora y Siempre), que abriga exposições, conferências e debates sobre o tema. E é nele que funciona o Centro de Informação, uma biblioteca, um arquivo de imprensa e oficinas educativas. Pelo Parque há diversas esculturas espalhadas. Uma das mais impactantes é Reconstrucción del Retrato de Pablo Míguez, de Cláudia Fontes, em homenagem a um dos mais jovens desaparecidos, aos 14 anos. A estátua, em tamanho real, se mantém em pé sobre as águas do Rio da Prata, a 70 metros da costa.

Veja abaixo um dos vídeos da inauguração do espaço, com a presença de Caetano Veloso

O parque, inaugurado em 2007, é resultado de uma reivindicação do movimento de direitos humanos. Ele tem um espaço bem amplo onde obras de arte estão espalhadas sobre o gramado.

Um pouco de História

Em 24 de março de 1976 começavam os anos de chumbo na Argentina, mediante um golpe de estado militar, o sexto na história democrática daquele país. “Este golpe de Estado se caracterizou por uma nova metodologia: o terrorismo de Estado e o desaparecimento forçado e sistemático de pessoas”, segundo a diretora do Parque da Memória – Monumento às Vítimas do Terrorismo de Estado. Indiscriminadamente, “os militares intervieram em todos os âmbitos da vida social do país”, proibiram e queimaram inúmeros livros, perseguiram intelectuais, artistas, escritores e forçaram-nos ao exílio no exterior. Cerca de 10 mil presos políticos e mais de dois milhões de exilados, além de centenas de pessoas que eram jogadas de aviões sobre o Rio da Prata, são o saldo que “as botas” dos militares legaram à nação. Além do alijamento de uma geração inteira de intelectuais, a Argentina amargou um período de decadência econômica, com o aumento da dívida externa. Para que o país e o mundo não esqueçam dessa vergonha, organismos de direitos humanos se uniram para criar o Parque da Memória, localizado exatamente em frente ao Rio da Prata.

O Parque da Memória – Monumento às Vítimas do Terrorismo de Estado – é hoje um espaço público de 14 hectares, localizado na franja costeira do Rio da Prata e ao lado da  cidade universitária. O Parque se levanta frente ao Rio da Prata, porque em suas águas foram jogadas muitas vítimas.

Segundo os organizadores, o objetivo principal é conseguir que a sociedade participe, em sua totalidade, da complexa tarefa de reconstrução do tecido social e cultural desarticulado pela ditadura militar. Este é o grande desafio do Parque da Memória. Além disso, o monumento é o único que congrega, a nível nacional, os nomes de todas as vítimas do terrorismo e inclui estrangeiros desaparecidos ou assassinados no país. Também está lá a lista de desaparecidos e assassinados de nacionalidade brasileira. Por esta razão, cobra importância a nível nacional e também regional, sendo o Memorial um espaço de características únicas na região.

Na época da ditadura, as atividades políticas foram proibidas, razão pela qual militantes e dirigentes dos partidos foram, em grande número, condenados como presos políticos e hoje estão desaparecidos. Também o âmbito da cultura  se viu afetado com a queima de livros de conteúdo político-social valioso, como O Capital de Karl Marx, A pedagogia do oprimido de Paulo Freire , a censura de certos autores e obras literárias como O Pequeno Príncipe de Saint Exupéry , canções de Nacha Guevara, películas como A Patagônia Rebelde. Devido a essa perseguição, intelectuais, autores e artistas de todas as disciplinas precisaram exilar-se e publicar suas obras no exterior.

A ditadura também significou uma política econômica prejudicial, com o incremento da dívida externa em que a dívida privada passou a ser do Estado, os salários ficaram congelados e ante o desaparecimento dos grêmios e sindicatos resultava ser impossível reclamar pelos mesmos. Toda reunião em lugar público estava proibida e, inclusive, gerava suspeitas transitar pela rua em horas noturnas. Também era obrigatório levar consigo o Documento Nacional de Identidade, pois caso contrário era motivo de detenção.

Quase tudo isso se impunha através de práticas violentas, chamadas operativas e destinadas a bloquear qualquer atividade ou opinião contrária ao regime. Por isso se perseguiu, encarcerou, torturou e fez desaparecer grande quantidade de pessoas que já tinham uma participação política, associativa ou cultural prévia. Outros puderam escapar e se exilaram, não podendo regressar ao país até a volta da democracia.

As operações estatais consistiam em invasões (entradas violentas em domicílios, fábricas ou instituições, com o fim de buscar elementos que justificassem as detenções), em que não só se levavam as pessoas – se tomava parte de seus bens como despojos de guerra e roubo de todos os seus pertences. Também há aproximadamente 500 casos de filhos de detidos aos quais se tirou sua verdadeira identidade, mediante o sequestro e posterior entrega a outras famílias, majoritariamente de militares.

Os detidos eram encarcerados em prisões do Estado ou levados ao que se conhece como Centros Clandestinos de Detenção. Estes estão ocultos à vista da população e funcionam em lugares bastante diversos (galpões, sótãos, edifícios da polícia, casas abandonadas, ou nos próprios edifícios das FF.AA., etc.), como no Clube Atlético ou no Olímpo de Floresta. Durante a última ditadura houve 10 mil presos políticos e cerca de dois milhões de exilados.

Outras informações:

• O parque fica aberto de segunda a sexta das 10h às 17h e aos sábados, domingos e feriados das 12h às 18h. Nos fins de semana, há visitas guiadas das 11h às 16h. Durante a semana, é possível agendar visitas guiadas com antecedência.

• Como chegar: veja aqui.

• O catálogo oficial do parque pode ser baixado e consultado aqui.

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3 Comentários »

  1. […] Buenos Aires e o Parque de la Memoria – um monumento às Vítimas do Terrorismo de Estado. […]

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    Pingback por Buenos Aires e o Parque de la Memoria – um monumento às Vítimas do Terrorismo de Estado | Inesagula's Blog — julho 25, 2014 @ 13:32 | Responder

  2. beijos e até mais!

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    Comentário por vera helena — julho 25, 2014 @ 15:30 | Responder


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