A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

março 20, 2014

Lembranças de minha vida e de meu pai!

Queria ter meu pai de volta comigo, ser criança e não ter crescido e continuar com ele e sua sanfona, tocando IV Centenário, do Mário Zan, entre outras tantas músicas que ficaram gravadas em minha memória…

Instrumentos musicais como violão, cavaquinho e acordeom sempre povoaram minha infância. Meu pai, pessoa simples, que veio da roça, era autodidata nesses instrumentos. Nunca estudou música. Mas, sabia tirar deles os sons que povoaram a minha infância e juventude. Nem sempre agradando, mas, que hoje tenho saudades.

safona

Ele contava que conseguiu comprar o primeiro violão quando ainda era adolescente, com o pouco dinheiro que ganhara de meu avô, Primo Martini, com trabalhos de capinação nas roças de arroz, feijão e café. E, depois, já na cidade, conseguiu comprar uma sanfona usada, que periodicamente era desmontada, limpa e afinada por ele. Lembro-me de um dia em que morávamos lá na Vila Martins, em Rio Claro. Ele chegou com uma caixa na mão e de dentro dela saiu uma sanfona vermelha, da marca Scandalli, de 80 baixos. Depois vieram outras, La Tosca, Todeschini…

“Vaiiiiiii boiadeiro que a noite já vem, guarde o seu gado e vai pra junto do seu bem…” Ele começava a tocar e a tentar cantar com sua voz baixa. E quando botava na cabeça que ia tirar uma música “de ouvido”, era uma repetição infernal de acordes até conseguir. Ele gostava de tocar sanfona, mas quase não cantava.

Fiquei triste em novembro de 2006 quando soube da morte de Mário Zan, um ídolo para o meu pai. Ele era Natural da Itália, e seu nome era Mario Giovanni Zandomeneghi. Teve mais de mil músicas autorais gravadas. Entre elas, Os Homens Não Devem Chorar, de repercussão internacional, que acumula mais de 200 interpretações em toda a América Latina, Estados Unidos, Portugal, França, Alemanha, China e Japão. De seu repertório, 36 músicas foram regravadas por intérpretes brasileiros como Roberto Carlos, Sérgio Reis, Almir Satter e outros.  Ele era conhecido em todo o Brasil como o maior solista de festas juninas de todos os tempos. Suas canções mais populares da comemoração paulista são Quadrilha Completa, Balão Bonito e Noites de Junho ou Pula a Fogueira.

vozinha e vô - 1

Meu pai, Antonio Martini, com minha avó, Virgínia Calore Martini

As vezes lembro do meu pai e sua sanfona Todeschini vermelha, de 80 baixos, tão bem guardada e conservada por ele. E tinha outra Sancadalli, preta e branca, de 120 baixos e com registros. Ontem mesmo, dia 19 de março, assistindo o programa “Sr. Brasil”, na TV cultura, tão bem apresentado por Rolando Boldrin, voltei na infância e me vi novamente menino e desse ponto em diante comecei a pensar no pouco valor que dei para a música que meu pai tocava e que às vezes me incomodava.

O tempo passou e um dia meu pai partiu após complicações pulmonares sofridas por um atropelamento. As sanfonas ficaram lá, em um canto do quarto por algum tempo.

Meses depois, minhas irmãs me deram o relógio de bolso que meu pai usava e o violão. E elas ficaram cada uma com uma sanfona.

A partir de agora a história é engraçada, para não dizer trágica. Um dia a Tereza, sozinha em casa, estava no banheiro e pensou: “o quintal está precisando de uma reforma. Vou vender a sanfona para comprar cimento”. E assim o fez…

Pouco tempo depois a Ivone fez a mesma coisa. Vendeu a Todeschini por R$ 50,00 reais para comprar algo que faltava na casa.

O violão? Ainda está comigo. E ele é o mesmo que um dia meu pai tentou me ensinar a tocar. Mas, como sou canhoto, tudo ficou mais complicado. E ele não teve paciência para me ensinar.

Ao longo da vida, sempre guardei lembranças de meu pai e das poucas conversas que tivemos como se fossem pérolas raras. Foram poucos momentos de emoção que consegui compartilhar com ele ou que o vi demonstrar sentimentos. Registrei seu choro suave nas mortes de minha avó e de minha mãe, vi uma lágrima correr sorrateiramente na missa de sétimo dia, percebi sua emoção ao falar em um dos almoços de domingo que não imaginava como seria sua vida daquele momento em diante, sem a presença de minha mãe. Mais tarde, acompanhei seu silêncio quando um dos irmãos dele morreu.

Só depois dele morto e enterrado, percebi o quão pouco tínhamos compartilhado. E comecei minha longa caminhada atrás de meu pai. Passei a buscá-lo em cada pessoa que com ele conviveu, em cada amigo. E com todos que conversava vi o quanto generoso ele foi nessa vida.

No dia do lançamento de meu livro, na Floresta Estadual Navarro de Andrade, em Rio Claro, meu tio Pedro e irmão de meu pai, me disse algo que nunca esquecerei. Ele me abraçou, me deu um beijo e entre lágrimas me disse: “seu pai deve estar muito orgulhoso de você”!

Às vezes sinto um nó na garganta da última conversa que não houve, dos beijos que não lhe dei. Mas em algumas noites o sinto ao meu lado, daquele modo silencioso que sempre teve, sem nada falar, porque palavras eram desnecessárias. Apenas me olhando com aquele olhar sorrateiro de quem finalmente se fez entender.

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12 Comentários »

  1. Augusto, bom amigo! você me faz chorar, admirá-lo e respeitá-lo mais ainda. Lindo o que escreve, forte e profundamente rico teus textos. Sinto também saudades de meu velho pai, tão silencioso e introspectivo em tantos momentos. Meu pai era um homem trabalhador e alegre. Fazia de um limão uma limonada, na cidade “grande” a luta pelo sobrevivência sempre foi cruel… mas sempre seguindo em frente com a vida, ensinando pelo exemplo. E, como diz a canção: “e tempo passou na janela, e só Carolina não viu…”””mas é isso. Um abraço apertado prá você.

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    Comentário por hozana Rivello Alves — março 20, 2014 @ 17:35 | Responder

  2. Augusto,

    Somente uma pessoa com sentimentos tão apurados conseguem exprimir em palavras o amor que sentem.

    Como seu pai, meus sentimentos em relação ao seu texto dispensam palavras!

    Receba o meu abração, virtual, mas com muiiita emoção!

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    Comentário por Solange Ap Iorio de Lima — março 21, 2014 @ 17:12 | Responder

  3. Oi Gu,
    Lindo o texto, sem palavras …só saudades
    bjusss Rê

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    Comentário por Regiane C. Christofoletti Gouveia — março 21, 2014 @ 18:11 | Responder

  4. GU TBM SINTO MUITAS SAUDADES DO PAI TOCANDO SUA SANFONA NAS MANHÃS DE DOMINGO SENTADO NA COZINHA ENQUANTO A MÃE FAZIA O ALMOÇO,QUANDO ELA FALECEU ELE FICOU MUITO TRISTE E PASSOU TEMPO SEM TOCAR ATÉ QUE CERTO DOMINGO ENQUANTO EU FAZIA O ALMOÇO ,APARECEU ELE COM A CAIXA NA MÃO E ME PERGUNTOU:-SERÁ QUE EU JÁ POSSO TOCAR ? EU FALEI PORQUE NÃO PAI ,AI ELE FALOU QUE FAZIA POUCO TEMPO QUE NOSSA MÃE TINHA MORRIDO E ACHAVA QUE NÃO DEVIA .EU DISSE A ELE CLARO QUE PODE PAI, ACHO QUE A MÃE VAI FICAR CONTENTE PORQUE ELA GOSTAVA DE OUVIR O SENHOR TOCAR ,DAQUELE DOMINGO EM DIANTE VOLTAMOS A OUVIR A SANFONA DO MEU PAI ENQUATO SE FAZIA O ALMOÇO…SAUDADES…BJSSS TERA

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    Comentário por amartini2013 — março 22, 2014 @ 12:24 | Responder

  5. Querido amigo, que bonito este post. Sua sinceridade, entrega, são tocantes. Boa semana para você.

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    Comentário por Fernando S Teixeira Filho — março 24, 2014 @ 9:04 | Responder

  6. Gusto seu pai foi um avô para mim tenho muitas saudades ,dele tenho um chapéu e um relógio dele que guardo com muito carinho porque​ foi uma muito especial na minha infância , acredito que ele tenha muito orgulho de vc mesmo ,valeu tudo de bom e que Deus te abençoe sempre, abraços!

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    Comentário por Márcio Antônio Talarico — março 20, 2017 @ 10:47 | Responder


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