A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

outubro 17, 2013

A deliciosa simplicidade da infância narrada por uma de minhas irmãs – Tereza – Parte 4

COMO DIZIA MINHA AVÓ: PIANO, PIANO, SE VÁ LONTANO… Parte 4

…. continuação

Numa dessas férias que eu passava no sitio, morreu a mãe do Néle, amigo do meu tio Pedro. E naquele tempo as famílias costumavam rezar o terço pela alma dos falecidos todos os dias, até chegar a missa do sétimo dia. Era uma noite enluarada, que ao caminharmos pela estrada para ir até o sítio dos Antonelli parecia dia. Fazia parte do grupo a tia Leonor, o tio Henrique e toda a criançada que ia fazendo algazarras pela estrada enluarada.

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Tereza Aparecida Martini – primeira comunhão – Igreja de Nossa Senhora Aparecida, em Rio Claro/SP

Quando chegamos começou o terço. Todos ajoelhados, em silêncio. Em certo momento comecei a passar mal. Estava perto da tia Leonor e a cutucava, chamando “tia, tia” … Ela respondia: “fique quieta menina” … Até que não sei o que aconteceu e eu desmaiei… Quando acordei estava em uma cama com um monte de gente ao redor esfregando vinagre nos meus pulsos e colocando um pano embebido no líquido para eu cheirar. Depois disso não quis mais ir à reza o resto da semana. 

Um dia apareceu lá no sítio um carneirinho. A Cida ficou doida para pega-lo. Então nós duas começamos a correr atrás dele que desceu para o lado do curral onde estava preso um bezerrinho que tinha nascido naqueles dias. A mãe dele era uma vaca chamada Cachoeira e que estava presa no piquete ao lado do curral. Ela tinha um chifre que parecia um grande “U”. O carneiro entrou dentro do curral e parou em frente do portão onde estava preso o bezerro. A Cida pulou a cerca e agarrou o carneiro. Eu fiquei do lado de fora. Quando a vaca viu aquilo achou que a Cida estava pegando o filho dela e arrebentou a cerca e partiu com tudo pra cima dela que se agarrou com o carneiro e ficou grudada com ele. Nós começamos a gritar. A vaca chegou a raspar com o chifre nas costas da Cida e ficou ali parada, bufando em cima dela. Quando o meu avô viu o que estava acontecendo veio correndo e com um pedaço de pau conseguiu afastar a vaca. Por sorte e graças a Deus a Cida só saiu com um arranhão nas costas.

A Cida pensou que o carneiro fosse ficar para ela, mas, depois de uns dias apareceu o dono do animal. E dá-lhe choradeira porque a Cida falava que o carneiro era dela e não ia deixar levar embora. Quase apanhou do tio Henrique porque não queria desgrudar do bicho.

Quando eu estava na quarta série e a Ivone na terceira, chegou a vez do meu irmão caçula (Augusto) ir para a escola. Só que ele não queria ir de jeito nenhum. Ele levantava, brincava, e quando ia chegando a hora de ir para a escola lá começava ele – ficava todo embolado, se coçando, formava uns vergões pelo corpo, dava febre e inchava. Mas, passando a hora da escola, aquilo tudo desaparecia. Se fosse nos tempos de hoje tinha que levar no psicólogo!

Mas, minha mãe resolveu do jeito dela! Um dia, quando começou a coceira ela falou: “vá se trocar que hoje você vai pra escola!” Parece que eu estou vendo minha mãe – ela ia na frente levando o Gu pelo braço. Com uma mão o segurava e na outra uma cinta do meu pai. E ela estava pouco se importando com quem estivesse olhando. Ele foi chorando o caminho inteiro, mas ela não amoleceu nem um pouquinho. Garanto que estava doendo mais nela que no meu irmão.

Depois daquele dia terminou a alergia da escola. Ele começou a estudar com gosto! Hoje é formado na faculdade, em Geografia, com mestrado em História, especialização em organização de arquivos e está fazendo doutorado. Trabalha na Escola Fazendária do Estado de São Paulo e viaja por todo o País e exterior fazendo cursos e dando palestras. Tá vendo só como a psicologia da minha mãe deu certo?

Continua…

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2 Comentários »

  1. Psicologia napolitana ou de tras-os montes, muito comum naquela época!

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    Comentário por Filomena signorelli — outubro 17, 2013 @ 9:21 | Responder


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