A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

outubro 3, 2013

Prof!Profa! Uma perigosa assassina ou apenas alguém que perdeu o controle?

A ética ou a falta dela! Conversava com um amigo no início da semana e o assunto era o sistema de ensino. Em certo momento ele comentou que algumas semanas atrás assistiu, no Sesc Ipiranga, uma peça chamada “Prof! Profa!”, do dramaturgo belga Jean Pierre Dopagne, com Jandira Martini e dirigida por Celso Nunes. O espetáculo conta a vida da ex-professora de Literatura, que trocou as salas de aula pelos palcos e se dirige ao público para contar a sua história em um monólogo. É uma sobre uma pessoa que teve um surto. Desiludida com o sistema de ensino, resolve sair da mesmice e tomar uma atitude radical! É uma professora idealista e quer alunos iguais aqueles com quem estudava na época de escola. A peça mostra que, além de educador, o professor tem que ser ator para conquistar os alunos.

fiquei muito interessado em saber mais e hoje, ao ver o site da Revista Época (02/10/2013 ), deparei-me com o texto abaixo, de Maria Fernanda Vomero, cujo título é “Uma professora à beira de um ataque de nervos” o qual fala da peça entre outros assuntos essenciais. Leia! você vai gostar!

A atriz Jandira Martini como a professora de Literatura na peça "Prof! Profa!", dirigida por Celso Nunes (Foto: João Caldas)

A atriz Jandira Martini como a professora de Literatura na peça “Prof! Profa!”, dirigida por Celso Nunes (Foto: João Caldas)

Já há alguns dias ensaio uma reflexão sobre duas peças que, embora esteticamente muito diferentes, apresentam pontos de vista complementares e dialogam entre si: o monólogo Prof! Profa!, conduzido pela atriz Jandira Martini, e Coro dos Maus Alunos, montagem da Cia. Arthur-Arnaldo. São espetáculos que lançam o foco para o sistema educacional, o corpo docente e o papel da escola, além de abordarem questões bastante pertinentes e sempre atuais. Nesse momento, os professores da rede municipal do Rio de Janeiro se encontram em greve, assim como os profissionais da rede estadual de ensino do Mato Grosso – só para citar dois casos. 

Paralisados desde 8 de agosto, os docentes cariocas se opõem ao Plano de Cargos e Salários elaborado pelo prefeito Eduardo Paes. Mesmo após vários protestos dos trabalhadores, o plano foi aprovado, em 1º de outubro, pela Câmara dos Vereadores carioca. Nessa mesma data, 700 policiais foram deslocados para conter a manifestação dos professores, que contou com apoio de movimentos sociais e de integrantes dos Black Blocs. Numa rotina que infelizmente tem se tornado cada vez mais comum no país, gás lacrimogêneo e de pimenta, balas de borracha e cassetetes foram usados pela PM para conter o protesto – ainda que o discurso oficial negue a utilização das armas não-letais. Infelizmente também, como de hábito, parte da imprensa insiste em falar na depredação de patrimônio (público e privado) antes mesmo de explicar as inquietações populares que mobilizam tanta gente.

Por isso, vale ressaltar a importância artística e social de espetáculos como Prof! Profa! eCoro dos Maus Alunos. Sem ranço moralizante nem tom militante, as montagens rompem a abordagem conformista ou os clichês que geralmente rondam os temas ligados à educação. E dialogam diretamente com a realidade brasileira, ainda que os textos sejam de autores europeus. As peças me fizeram recordar de dois filmes: o documentário Pro Dia Nascer Feliz(2006), de João Jardim, que expõe a dura realidade de alunos e professores brasileiros, participantes de um sistema escolar que não privilegia nem o ensino nem o aprendizado, e o francês Entre os Muros da Escola (2008), de Laurent Cantet, que acompanha o embate entre professor e alunos numa escola na periferia de Paris, em um contexto de diferenças socioculturais e violência, tomando-a como um microcosmo da França contemporânea.

Que escola é essa, a que temos atualmente? Ensina o quê e a quem? Por que os professores são tão desvalorizados? E por que os alunos não têm prazer em aprender? Não são perguntas destinadas apenas a ministros ou secretários de Educação; são perguntas que a sociedade precisa saber e querer responder, hoje e agora.

 

O texto do belga Jean-Pierre Dopgane chamou a atenção de Jandira Martini por seu humor, sua ternura e seu cinismo. (Foto: João Caldas)O texto do belga Jean-Pierre Dopgane chamou a atenção de Jandira Martini por seu humor, sua ternura e seu cinismo. (Foto: João Caldas)

PROF! PROFA!

Uma professora de Literatura partilha sua história: o pai agricultor não poupou esforços ao buscar-lhe um bom colégio para que pudesse estudar e, mais tarde, seguir carreira docente. Na infância, teve uma mestra inspiradora, daquelas que lecionava de modo apaixonado e estimulante. Quantos sonhos e quantas esperanças tinha quando começou a ensinar! Imaginava que pudesse partilhar com os alunos o encantamento que as obras de Machado de Assis, de Carlos Drummond, de Clarice Lispector… lhe traziam. Mas as decepções não tardaram; o ambiente escolar foi minando seu idealismo a tal ponto que ela acabou por cometer um ato irreparável. Sua punição, contudo, foi inusitada: todas as noites, ela deveria se apresentar no teatro, relatando sua história, como personagem de si mesma. O texto, escrito pelo belga Jean-Pierre Dopagne – ele mesmo um professor com longa trajetória –, tem argúcia e ironia, mas não dispensa a ternura.

Sob direção de Celso Nunes, a atriz Jandira Martini interpreta a personagem com desenvoltura e precisão, num cenário bem simples, no qual bastam uns poucos objetos. Trata-se de um monólogo que transita pela memória e pelo tempo presente, sem seguir uma linearidade cronológica. A personagem oferece à plateia imagens bem nítidas de seu cotidiano como docente, mas também rememora seus tempos de estudante e comenta sua experiência nos palcos. A informação de que a professora virou atriz, além de instigar o público (afinal, somos espectadores de um monólogo dentro do monólogo?), amplia o rol de significados possíveis da peça. Assim, ao interpretar a professora que foi, a personagem pode permitir-se várias licenças poéticas, pois revive no teatro sua própria trajetória. O “ato irreparável” que cometeu, por exemplo, pertence ao plano das ideias ou ao dos fatos? Seria uma metáfora? Ou o desfecho dramático mais conveniente à atriz? Ou ainda um evento verídico, uma atitude desesperada de uma docente à beira de um ataque de nervos?

O relato da professora desperta tal empatia que nos torna cúmplices de sua confissão; terminamos por buscar justificativas que redimensionem o impacto de seu ato, relativizando-o (somos todos, em última instância, monstros?). Ora, não é difícil acolher seu testemunho. A realidade docente de baixos salários, insatisfação no trabalho, desprestígio profissional, descaso por parte do governo e da sociedade – que sente pena retórica dos professores, mas não deixa de criticá-los sem piedade sempre que possível –, além de ambientes escolares cada vez mais violentos e desfavoráveis, parece minar qualquer esperança no sistema de ensino brasileiro. Talvez a personagem de Prof! Profa! tenha sido narcisista em excesso, amado mais sua figura como professora do que a difícil arte de ensinar; talvez, por isso, ela tenha se equivocado de alvo. Afinal, do jeito que está, a escola como instituição social está se tornando detestável tanto para docentes quanto para alunos. Os primeiros estão desorientados e desestimulados; os segundos, desinteressados e desrespeitosos. Por quê?

Nem tudo está perdido, contudo. A filha adolescente da professora acredita que a docência pode ser um instrumento de mudança; pensa em se tornar “profa” ou uma “fessora”, pouco importa como seja chamada. Para a garota, o importante é que a escola seja um espaço que faça sentido.

Leia aqui o texto de Maria Fernanda Vomero sobre “Perigo: alunos pensantes!”

4 Comentários »

  1. Gostei Augusto! tive excelentes professoras!

    Curtir

    Comentário por Filomena Signorelli Bertoncello — outubro 3, 2013 @ 18:17 | Responder

    • Olá, Filomena! Também tenho alguns professores e professoras que jamais esquecerei! Abraços.

      Curtir

      Comentário por Augusto Martini — outubro 3, 2013 @ 19:40 | Responder

  2. Augusto,, quem me dera meu pai pudesse ler teu post ou até espiar a peça lá pelo menos ‘ lá de cima.’ .

    Meu pai deu aulas de português em escola estadual dos 21 aos 67 anos de idade, ou seja,,continuou trabalhando muitos anos depois da aposentadoria, Professor querido e respeitado,, chamado pelo sobrenome, nunca de ‘tio’.
    Carregava as provas e os trabalhos no porta malas do carro. Imagine os calhamaços..

    Quando éramos pequenas ele chegou a trabalhar em regime de 72 horas semanais. Acho que isso não seria possível hoje nem legalmente nem para a saúde de qualquer pessoa.

    Achei muito interessante a peça vir de um original europeu belga e mesmo assim ‘vir de encontro’ com a nossa realidade atual, olhe como está esse impasse no Rio de Janeiro.

    Deixei um link para que você ‘espie um pouco’ como estão as coisas do ponto de vista dos alunos hoje em dia.

    http://www.overshockblog.com.br/2013/09/fala-davi-11-o-que-sao-as-trollagens.html

    Abraços,

    Curtir

    Comentário por Simone Schmidt — outubro 4, 2013 @ 18:49 | Responder

    • Boa noite Simone. Não sabia que seu pai trabalhou como Professor! Tenho certeza que até hoje muitos ex-alunos lembram dele com carinho. Vou ver e ler sua indicação em seguida. Bom final de semana! Augusto

      Curtir

      Comentário por Augusto Martini — outubro 4, 2013 @ 23:25 | Responder


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Obrigado por assinar o meu blog! Espero que goste!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

DISCUTINDO CONTEMPORANEIDADES

Escrito por PROF RAFAEL PORCARI, compartilhando sobre futebol, política, administração, educação, comportamento, sociedade, fotografia e religião.

Saia de viagem

Em frente, sempre.

Mulher Moderna

Fazendo de tudo um pouco.

Memórias de Tereza

Um blog de memórias, recordações e lembranças familiares

Blog da Reforma

Um dia esta reforma acaba!

%d blogueiros gostam disto: