A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

setembro 16, 2013

Mais algumas lembranças de minha infância e de minha vida… parte 8

Já contei aqui que quando fomos morar na Rua M-1-A, na Vila Martins, em Rio Claro, era o ano de 1966, talvez 1967, não me lembro do mês. Como já escrevi aqui, a casa ficava em um lote grande, de uns 400 metros quadrados, onde, além da casa, tinha muito terreno para se plantar, na lateral e fundo da casa.

sabiá

Nos canteiros da lateral, minha mãe plantava flores diversas: dálias, rosas, margaridas e também tinha um pé de jasmim.

Já nos fundos, tinha um galinheiro, com algumas galinhas e apenas um galo, que traçava a todas com muita facilidade. Colhíamos os ovos para o dia a dia, mas, minha mãe deixava alguns, por 21 dias para a galinha chocar. Sempre nasciam vários pintinhos. Para que as outras galinhas não os matassem, tinha que se fazer um cercadinho, para eles ficarem com a mãe.

O restante do quintal estava livre para plantação. Uma bela horta plantada pelo meu pai, que me dava a tarefa de retirar as ervas daninhas, afofando a terra e regando à tarde.

Na horta tinha canteiros de couve, catalonia, almeirão, escarola, alface e repolho, pés de tomate. Ao lado do muro estavam os pés de frutas. Pessegueiro, ameixeira, pés de mamão…

Tinha também a parreira de uva. Quem podava a parreira era meu pai – todo mês de agosto ia com seu alicate cortante, tirando as partes que ele julgava demais.

Na frente da casa, plantados na rua, flamboyants enormes e frondosos. E onde tem muita árvore, tem pássaros também. Muitos pássaros nos visitavam. Parecia que eram íntimos. Assentavam-se nos galhos e por lá ficavam, mesmo tendo alguém próximo. Quem mais aparecia eram os sabiás laranjeira, para comer os mamões. Ele era também conhecido como sabiá amarelo ou de peito roxo. E é o tipo de pássaro que canta na estação do amor, ou seja, na primavera.

O macho tem um canto lindo e forte e a fêmea também canta, mas numa frequência bem menor que o macho. Seu canto lembra o som de uma flauta. Canta principalmente ao alvorecer e à tarde. Seu canto serve para demarcar território e, no caso dos machos, para atrair a fêmea.

Como no quintal tinha muitas flores, também ali era o recanto do beija flor, que pairava no ar sugando o néctar das flores. Era um pássaro que não estava nem aí para quem estivesse próximo apreciando sua beleza. Também apareciam os canários da terra.

Ouvir o cantos dos pássaros é maravilhoso. Temos que agradecer a Deus por eles existirem e cantarem, soltos, livres, belos, cada um à sua maneira. Enobrecem nossa existência, pois cantam e encantam, trazendo ao nosso espírito a paz que almejamos e nem sempre temos, e aí, ouvindo o cantar de um único pássaro ou de uma revoada toda, nos voltamos para o que de belo há e que quase nunca prestamos atenção. Considero o canto dos pássaros a ligação com o Divino, como toda a natureza em sua plenitude. Cada pássaro tem seu canto próprio e não sabemos ao certo o que cantam, mas, cantando, seja em que hora for, se os ouvimos, conseguimos trazer ao nosso instante, uma agradável sensação de felicidade, mesmo que pequena, mas com um conteúdo anímico tão grande que é impossível descrever o que esses cantos representam. Pena, que homens, que pela inteligência podem tirar sons de qualquer outra coisa, aprisionem esses bichinhos, que além do canto, nos dão demonstração do quanto é fácil ser livre, feliz e alcançar a imensidão do céu sem esforço, somente pela liberdade que Deus lhes deu, e também a nós, que não podemos nos igualar aos pássaros, pois nos prendemos por nossa própria conta.

Mas, comecei a relembrar isso tudo depois que li uma reportagem na Folha de hoje, onde dizia que paulistanos de vários bairros estão incomodados com a cantoria dos sabiás laranjeira, árvore símbolo do Brasil e do Estado de São Paulo. Posts nas redes sociais reivindicam o silêncio – no meio de uma urbe que não para, que ronca, zumbe, apavora.

Na reportagem da Folha, e segundo o ornitólogo Márcio Repenning, 31, do Laboratório de Ornitologia do Museu de Ciências e Tecnologia da PUC-RS, a ave canta principalmente para defender um território em disputa com outros machos da mesma espécie e seduzir a fêmea. “Machos que cantam com mais vigor a priori terão melhor capacidade de alimentar os filhotes.”

Já Frisch lembra que o pássaro fica a até cinco metros de distância do ninho para ensinar a melodia aos filhotes, explicando, assim, a aula madrugada afora.

A escolha do horário, diz Frisch, é estratégica: durante o dia, se abandonasse o ninho, o macho deixaria os filhotes na mira de predadores.

O pássaro é o regente da estação que se avizinha, mesmo numa cidade com pouca área verde como São Paulo. De Higienópolis ao Morumbi, do Sumaré ao Tremembé, o canto está por toda a parte.

Morador de Interlagos (zona sul), o dramaturgo Brunno Almeida Maia, 26, conta que a rua onde vive nem é tão arborizada assim, mas, “por sorte”, a vizinha tem um jardim, que é voltado para a janela do quarto dele.

“Como tenho insônia, ouço o trinado até as 5h. Confesso, não me incomoda. É como o barulhinho da chuva.”

Diz que prefere o canto do sabiá-laranjeira ao ronco de alguém ao seu lado ou “à barulheira de um vizinho ouvindo ‘Applause’, da Lady Gaga”. “Eu quero mais é o sabiá.”

Nenhum pássaro da espécie canta igual ao outro, segundo Frisch. O ornitólogo catalogou o canto de mais de cem sabiás em diferentes pontos da cidade e do país.

Da literatura ao cancioneiro popular, o pássaro ganhou homenagens de nomes como Marisa Monte, Tom Jobim e Chico Buarque. Roberta Miranda compôs e Jair Rodriques celebrizou: “A majestade, o sabiá!”. O bicho solta o gogó pelo menos até o verão. E a primavera ainda nem começou! Então, paulistanos – conformem-se e apreciem!

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4 Comentários »

  1. Acho que preferem ouvir forró, funk, sertanejos universitários e outras barbaridades! Desculpe a forma de me referir a pessoas que não sabem ouvir o que é bom! Beijos Filomena.

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    Comentário por Filomena Signorelli Bertoncello — setembro 17, 2013 @ 20:11 | Responder

    • Filomena, não há o que pedir desculpas. Vc tem toda a razão!! Abraços. Augusto

      Em 17 de setembro de 2013 20:11, A Simplicidade das Coisas — Augusto

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      Comentário por Augusto Martini — setembro 18, 2013 @ 22:28 | Responder

  2. Caro Augusto, estive doente e afastada não só do trabalho, mas de tudo o mais,
    Agora estou em repouso em casa, e erguer unm dedinho e acessar teu blog não em custa nada.
    Lugar comum dizer que é como o sol entrando pela janela, mas é assim como me sinto, principalmente lendo sobre as lembranças de tua infância, que são muito como as minhas aqui em Araras,
    Mais que isso, tuas histórias além da leitura visual, trazem sons e aromas, acredite.
    Ainda aguardo você contar sobre a comida no fogão de lenha, ou em tua casa, ou outro lugar, quem sabe.
    Abraço de luz e paz.

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    Comentário por Simone Schmidt — setembro 21, 2013 @ 14:41 | Responder

    • Simone – espero que já esteja recuperada de tudo! Saúde, paz e harmonia é o que desejo.
      Hoje estou aqui do lado, em Rio Claro, curtindo minha casa, irmãs, sobrinhos e parentes!
      Bjs.
      Augusto

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      Comentário por Augusto Martini — setembro 21, 2013 @ 17:18 | Responder


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