A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

agosto 15, 2013

Mais algumas lembranças de minha infância e de minha vida… parte 5

Ah, meu Deus! Como o mundo é dinâmico e assim também a vida.  E nós, que fazemos a nossa história, que fazemos o mundo, mesmo sabendo desse dinamismo, ainda nos assustamos com a velocidade com que tudo muda, não é mesmo?

Diferente de minha época de infância hoje tem novas maneiras de falar, de escrever, de vestir, novos costumes, nova moral, novas tecnologias…

Acontecem mudanças em avalanche que vem atropelando tudo e nós vamos nos equilibrando, nos adaptando.

Armazem

No armazém da família Pizzirani, comprava balas e caramelos, daqueles coloridos, uma vez por mês!

Mas, continuemos com as lembranças da minha infância e da casa da Rua M-1 com a Avenida M-1. Quem morou em casa com quintal grande deve se lembrar de algumas plantas que hoje não se ouve mais falar. Uma delas é a Beldroega, uma planta infestante, desprezada por muitos, mas que é também saborosa, saudável, medicinal segundo dizia minha mãe. Ela era encontrada com facilidade em nosso quintal e, como nada custava, muitas vezes fez parte de nossas saladas, lá atrás, nos tempos das vacas magras. Mas hoje, com certeza, nenhum chef recomendaria o uso de uma plantinha tão caipiramente gostosa.  Mudam-se os tempos. Surgem novos nomes, provavelmente em inglês, novas cores e sabores nos Fast Food dessa vida tão diversificada.  E aquelas plantinhas lá do fundo dos nossos quintais vão-se perdendo, como sumiram a cafeteira, a chaleira, os moedores de café e de carne, o guarda-comida (em nossa cozinha tinha um pintado de azul), o bule esmaltado pintado de florezinhas coloridas…  Tudo virou objeto de antiquário e se tornaram peças raras e caras nos antiquários.    

Ah, saudades de quando minha mãe dizia: “filho, pega a caderneta aí na gaveta da cômoda e vai lá na venda do Pizzirani comprar pão e mortadela”. O Pizzirani ficava na Avenida 32-A, logo acima do cruzamento do trem. Comprávamos com a caderneta, onde era marcada a compra e paga no mês seguinte, lá pelo dia 10. A confiança e honestidade estavam acima de qualquer suspeita. Tempos depois a venda virou armazém, armazém virou mercearia, mercearia virou mercado, mercado virou supermercado… Hoje se compra com cartão (débito ou crédito) e a caderneta onde se anotavam as contas, que eram pagas no fim do mês, sumiu na neblina do tempo.  Os sacos de papel pardo e o papel de pão foram substituídos por plástico. Por falar em papel de pão, vejam que história bonita e triste ao mesmo tempo. Como éramos muito pobres, recebíamos o material escolar “gratuitamente” vindo do “Governo” (naquela época nem imaginávamos que não era nada grátis – pagamos impostos por isso!), e, era um caderno por ano. Quando acabava tínhamos que substituí-lo por conta. Pois bem. Acabou o caderno da Tereza, minha irmã e não tínhamos dinheiro para comprar outro. Minha mãe foi na venda do Pizzirani e pediu se podiam doar algumas folhas de papel de embrulhar pão. Chegando a casa, cortou um papelão do tamanho das folhas e que serviu de capa, passou uma costura bem no meio e, a noite, meu pai pacientemente fez as linhas com régua e lápis. No dia seguinte, Tereza voltou da escola chorando. A professora havia lhe dado um puxão de orelhas e um tapa na cabeça, dizendo que aquilo não era caderno que se apresentasse! Se fosse hoje, esse ato não aconteceria e o caderno seria considerado moderno! Caderno feito em papel reciclável (tipo papel de pão) virou coisa de gente descolada. Ou não?

Ah, e tinha o padeiro que entregava o pão e o leite de carroça. O leite era colocado num litro de vidro, de boca larga, com uma tampinha de alumínio, tão puro e integral que se formava um selo de nata na boca da garrafa. Geralmente o padeiro passava de madrugada ou bem cedinho e o litro de leite era deixado na soleira da porta da sala. Também comprávamos pão e leite lá na venda. Tinha também o “bucheiro”, que vendia miúdo de gado. Vinha em carroça e tocava uma corneta pelas ruas. Comi muito fígado de vaca comprado nessas carroças!

Ah, tudo se transforma! A modernização tem este dom. Coisas antigas e tradicionais de repente passam por uma espécie de reciclagem, adquirem uma nova roupagem e são encaradas como novidades. O que são hoje os grandes supermercados? Nada mais nada menos que as vendas, mercearias, armazéns, ou quitandas de antigamente. É claro que são muito mais amplos e sofisticados que seus antecessores. Até porque no tempo da mercearia do Pizzirani, onde as cadernetas exerciam uma espécie de reinado, não se comprava luxo e sim artigos de primeira necessidade.

Lembro também, que naquele tempo eram poucas as coisas que se compravam embaladas. Quase tudo se adquiria a granel. Lembro muito bem, que tudo o que comprávamos era vendido a granel, pesado e acondicionado em sacos de papel ou jornais. Era assim com o arroz, o feijão, o açúcar, a farinha, as bolachas, a manteiga, o queijo, a marmelada, a mortadela, as azeitonas, o café… Até mesmo óleo de cozinha era vendido de forma avulsa. Sardinhas salgadas eram conservadas no sal em caixotes de madeira e, eram vendidas a granel e embrulhadas em papel de pão.

Como podem ver, eram outros tempos, outras condições. Mas, tudo funcionava bem. Hoje em dia estes procedimentos e estas formas de vender são impensáveis. É certo que hoje em dia há uma melhor conservação dos alimentos, mais cuidados com a higiene e um rigoroso controle de qualidade. Mas o certo é que, a forma de fabricar, produzir, armazenar e vender as mercadorias, implica no frequente recurso em utilizar produtos adicionais como conservantes, anti-oxidantes e outras coisas mais. Um ponto é verdadeiro – com nítido prejuízo para a saúde das pessoas.

Bem, naqueles tempos as coisas eram produzidas para consumo imediato, principalmente os produtos perecíveis. Hoje, os mesmos produtos são feitos para durar mais tempo. Nos supermercados e em suas prateleiras eles podem ser manuseados por milhares de mãos. Até neste aspecto as coisas mudaram, pois hoje todo mundo pega, mexe, volta a pegar e por aí fora. Naquele tempo não: havia uma coisa chamada balcão, que limitava o espaço entre quem vendia e quem comprava. As coisas eram pedidas pelo nome e pelas quantidades desejáveis. Só depois é que eram pegas. Com este processo, comprava-se o que se queria ou, quase sempre, o que se podia. Hoje, pelo contrário, as pessoas compram o que precisam, é certo,  mas muitas vezes o que não precisam e o que não podem comprar. É o consumismo, o apelo da imagem e do marketing.

Naquele tempo, as famílias quase não produziam lixo. O plástico ainda era muito raro. As roupas eram remendadas e aproveitadas até não poder mais, pelo menos as de criança. Eram frequentes os remendos com pedaços de pano até de outra cor, no traseiro e também nos joelhos e cotovelos, onde tinham maior desgaste. O mesmo acontecia com o calçado. As roupas, o calçado, os livros e muitas outras coisas transmitiam-se dos mais velhos para os mais novos. Eu vesti muitas roupas que eram doadas por minhas tias e que haviam vestido meus primos. O papel do jornal era aproveitado para diversas situações. As ferramentas, utensílios domésticos de uso diário e equipamentos eram reparados. A comida, quase sempre escassa, era aproveitada ao máximo. Os restos de arroz viravam bolinhos no dia seguinte, mas, também os restos de comida eram consumidos pelos animais: cães, gatos, galinhas ou porcos. Nada era supérfluo – tudo era aproveitado. Outros tempos, outros usos e costumes. Uns para melhor, outros para pior. É sempre assim.

Bedroega2

BELDROEGA – Você já deve ter pisado em muitas delas ao andar pelo quintal, ou mesmo te-las arrancado achando que era “mato”, sem saber que muitas dessas plantas consideradas “daninhas” são comestíveis e medicinais – além de saborosas e muito nutritivas. Planta comum em várias regiões do pais tem como nome científico Portulaca oleraceae. As folhas e o caule podem ser consumidos crus em saladas ou refogados ou em sopas. Além de ser deliciosa, é rica em cálcio, ferro, proteínas e vitaminas A, B e C e ômega 3. As folhas são usadas em problemas digestivos e possuem ação diurética ; maceradas, podem ser aplicadas em queimaduras, em dores musculares; e como cicatrizantes através do uso como unguento ou cataplasma, aplicando de duas a três vezes por dia na região.
Experimente a beldroega alho e óleo, ou misture suas folhas e talos picados com tomate, temperando com sal, limão e azeite – fica um delicia!

Beldroega1

beldroega3

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10 Comentários »

  1. Fiquei curiosa com a planta que você mencionou no início desta história. Não tem nada hoje que se pareça com ela …Usavam em que…

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    Comentário por Irany Soares de Araujo — agosto 15, 2013 @ 19:18 | Responder

  2. Minha história! Lembro-me vagamente dessa verdura, mas não saberia dizer como é!

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    Comentário por Filomena Signorelli Bertoncello — agosto 15, 2013 @ 20:53 | Responder

  3. Caro Augusto Martini. Excelente ! Parabéns !!! Essas reflexões – que para alguns, podem ser nostalgia e nada mais – são para mim, um ponto de partida para reflexões de grande profundidade. Vai nessa linha, gostei muito. Abraço,

    Eduardo

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    Comentário por Eduardo Pereira — agosto 16, 2013 @ 0:13 | Responder

    • Bom dia Eduardo. Engraçado isso – que quando puxamos pelo fio da memória as coisas fluem. Abraços. Augusto

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      Comentário por Augusto Martini — agosto 16, 2013 @ 8:35 | Responder

  4. Olá Augusto, bom dia.

    Você me fez regressar ao tempo de infância, que não foi diferente do seu. Muito pobre, casa com sete filhos, só o pai trabalhava, e muita dificuldade: Os detalhes da “vendinha” são os mesmos (aqui era do “seu João): até a beldroega conheci… Passou um filme na minha mente: Uma coisa que vc não mencionou e que também comíamos, era brotinho de abóbora, batido com ovo: que delícia. As frutas que conhecíamos eram as “caseiras”, como manga, mamão, goiaba, banana, e aquelas do mato(que não se vê mais) como veludo, gabiroba, marmelo, jatobá..
    Foi uma infancia pobre, mas muito feliz.

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    Comentário por José Antonio Caetano — agosto 16, 2013 @ 12:00 | Responder

    • José Antonio! Comi muita flor de ábobora passada no ovo batido e que depois era frita. Comi muita cambuquira (o broto da abóbora) também. Há tempos venho querendo fazer uma sopa de fubá com cambuquira – prato comum na infância. Era um prato rústico e simples, feito no fogão de lenha, com gordura de porco e fubá, mais costelinhas de porco. Cambuquira, para quem não sabe, são ramos novos de abóbora com folhas miúdas e gavinhas tenras da planta jovem. E qualquer abóbora rasteira dava boa cambuquira – até aquelas que nasciam em terrenos baldios! Era só saber o momento certo de colher – antes de florescer. Os talos lembram os de espinafre, mas quanto às folhinhas, nunca comi nada que se comparasse à sua textura delicada e aveludada. Também comia muito dessas frutas – principalmente maga, mamão, goiaba e laranjas. Tínhamos no nosso quintal. Ah, e as gabirobas?! Delícia. Lembro até hoje do sabor. Tempos atrás estive em Brasília. E lá tem uma fábrica de sorvetes que se chama Sabores do Cerrado. E tomei sorvete de gabiroba! Delicioso! Abraços.

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      Comentário por Augusto Martini — agosto 16, 2013 @ 12:09 | Responder

  5. Sou de 68, muitas coisas iguais!!!!! No interior do RS, uma cidadezinha chamada Cachoeira do Sul, a venda, do Pita, da Dona Joana, da Dona Êrica, a banana era vendida por unidade, o café era moído na hora, tinha a máquina de moeda que caiam muitas balinhas, do tijolinho, da bala de chita, e de coco, do tablete de chocolate vendido naqueles expositores que hoje são de fazer ovos de páscoa, da caderneta, da ombridade e do caráter, anos de ouro!!! Falei há pouco para minhas filhas das brincadeiras, do jogo de damas e moinho, das varetas, do dominó, do “Mamãe posso ir? Quantos passos posso dar??” da sapata (ou amarelinha) de pular corda, do elástico, das cinco marias, quase que sem saber nossa pobreza, era rica, rica de saúde mental e de alma. Coisas que vão se perdendo pelo caminho……. A senhorinha parteira, dos chás, dos benzimentos, da cama cheirosa, dos banhos de chuva, de fazer a lição de casa olhando a chuva pela janela, muita saudade, muita mesmo…. Obrigada caro Augusto, por nos retornar há tão lindo tempo. Namastê. ❤

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    Comentário por Raquel B. — janeiro 23, 2014 @ 19:49 | Responder

    • Bom dia Raquel.
      Gostei muito do seu comentário. E fiquei curioso para saber como é Cachoeira do Sul. Fui no google e achei imagens lindas – a praça central, a igreja, a tranquilidade…
      Abrs.
      Augusto

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      Comentário por Augusto Martini — janeiro 24, 2014 @ 8:59 | Responder


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