A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

junho 13, 2013

Santiago – Calle Londres, 38 – espaço de memórias (ex centro de repressão e extermínio)

Ontem foi dia de ver a neve em Farellones e Valle Nevado. Hoje fiz um tour desses menos explorados pelos turistas aqui na cidade de Santiago  – um segmento dela que conta a história do golpe militar e a subsequente ditadura, que fazem parte da memória recente do Chile. Mais violenta do que a que a vivida pelo Brasil, as marcas do estado totalitário, comandado pelo General Augusto Pinochet, ainda podem ser vistas pela capital.

Em 11 de setembro de 1973, os militares chilenos, amplamente apoiados pelos Estados Unidos, executaram um golpe de estado contra o governo democrático do Presidente Salvador Allende, que tinha tendências socialistas. E Allende, ao saber do golpe, decidiu não sair do Palacio La Moneda, que foi atacado por ar e terra, ficando bastante destruído. O então presidente continuou no prédio mesmo assim, em resistência. Segundo depoimento de seu médico pessoal, confirmado por posteriores autópsias, Salvador Allende se suicidou pouco antes dos militares invadirem o palácio. A versão, porém, ainda é questionada por várias pessoas que acreditam que ele foi executado.

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O País sofreu 17 anos de ditadura – de 1973 até 1990. Nesse período, o último relatório, da Comissão Nacional sobre Prisão Política e Tortura contabilizava 40.280 vítimas oficiais (estudo realizado em 2011), dentre elas, 3.225 mortos ou desaparecidos. As associações de vítimas, porém, calculam que esse número chegue há aproximadamente 100 mil vítimas.

Exílio, tortura, prisões e execuções. Para recuperar essa memória, foi criado o Museo de la Memoria y los Derechos Humanos, inaugurado em 2010. São objetos, documentos e arquivos em diferentes suportes e formatos que contam a história, em busca de dignificar as famílias das vítimas e estimular uma reflexão sobre os acontecimentos. A exposição é impressionante. Se estiver em Santiago, vale a pena visitar. E o prédio que o abriga é moderno e fantástico. Todo estruturado em ferro e placas de aço furadas.

Mas, o lugar que visitei hoje, dedicado à memória da ditadura é o Londres 38, prédio que fica no Barrio Paris-Londres, (na rua Londres, 38) e foi, por um ano, o Centro de Operações da Dirección de Inteligencia Nacional (DINA), o órgão responsável por deter, torturar e exterminar opositores políticos da ditadura. Segundo um funcionário, disse que em Santiago ainda estão em pé três lugares que serviram para esconder os opositores da ditadura – mas o Londres, 38, é o único que está aberto para a visitação. O lugar era anteriormente sede do Partido Socialista. Para confundir as denúncias de familiares e vítimas que iam até ele para procurar familiares, o regime trocou o número do prédio para 40, o que fazia com que as denúncias fossem direcionadas para um endereço que não existia.

Antes da visita aos cômodos, assisti ao vídeo abaixo, cujo roteiro está nesse link Trazos de la memória, com ilustrações criadas a partir dos arquivos de audiovisuais do Espacio de Memorias Londres, 38.

Desde 1973 e até fins de 1974, esta casa foi usada pela Dirección de Inteligencia Nacional (DINA) e nela se deu início ao desaparecimento forçado de pessoas, no marco de uma política global de terrorismo de Estado. Nesse período foram executadas ou desapareceram 96 pessoas, treze delas eram mulheres das quais duas estavam grávidas. Mais de duas mil pessoas sequestradas passaram pelo lugar, que a DINA chamou “Cuartel Yucatán”. Das 96 pessoas assassinadas, 63 eram militantes do MIR, 17 do Partido Comunista, 10 do Partido Socialista e seis não tinham militância.  Em sua maioria, as vítimas pertenciam a uma mesma geração: 80 destas pessoas tinham menos de 30 anos de idade, das quais 43 ainda não tinham completado 25 anos, e 8 eram menores de 20 anos. Nas fotos, verão pequenas placas com os nomes dos desaparecidos e mortos. Elas fazem parte da calçada que fica em frente ao Espacio de Memorias, em meio aos paralelepípedos. Fotografei, no prédio, uma exposição com manifestações estudantis. E, ao sair para as ruas, deparei-me com milhares de estudantes que vinham em direção ao centro, fazendo manifestações pelo ensino gratuito e de qualidade. As fotos estão também nesse post.

Segundo os telejornais locais de hoje, dezenas de milhares de estudantes saíram às ruas de Santiago e de outras cidades do Chile para reclamar novamente por reformas estruturais  na educação, que garantam sua qualidade e gratuidade. Segundo os organizadores, foram perto de 100 mil estudantes, e 45 mil, segundo fontes policiais, que responderam a convocatória da Confederación de Estudiantes de Chile (Confech) e associações de estudantes secundários, com o apoio do Sindicato dos Professores e outras organizações sociais.

A manifestação, a terceira de caráter nacional convocada esse ano, seguiu desde a Plaza Italia pela Alameda Bernardo O’Higgins umas oito quadras, para depois seguir sentido ao norte da cidade e terminar no setor río Mapocho, onde estava programada para dispersar. Pouco depois do meio dia, a manifestação que transcorria de forma pacífica, enfrentou-se com a polícia na Alameda Bernardo O’Higgins com os chamados “encapuchados”.

Agora pouco, ao voltar para o apartamento, passei em frente a Universidad de Chile, ocupada pelos estudantes. Tinha muitos “carabineros de Chile” na rua – que estava coberta por pedaços de pedras e paus. E a fumaça das bombas de gás lacrimogênio com efeito pimenta ainda estava ativa – cheguei em casa com os olhos ardendo!

Um outro memorial fica no Cementerio General. Igualmente ao cemitério da Recoleta, em Buenos Aires, o lugar é um museu ao ar livre, com túmulos ornados com obras de arte,  feitos por famosos escultores. Ali, fica o túmulo de Salvador Allende, que é o mais procurado pelos visitantes, próximo ao Memorial del Detenido Desaparecido y del Ejecutado Político, também dentro do cemitério. E esse será o assunto de um próximo post. Visitei o Cementerio General na terça-feira, dia 11.

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7 Comentários »

  1. Pena que temos sempre algo triste para vermos na história de todos os lugares.Mais creio que isso nos deixa ficar mais humanizados.

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    Comentário por irany soares de araujo — junho 14, 2013 @ 9:38 | Responder

    • Oi Laly.

      E esse povo daqui, se orgulha da luta. E lutam sempre. Nunca se calam. Um exemplo. Bjs. Augusto

      Em 14 de junho de 2013 09:38, A Simplicidade das Coisas — Augusto

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      Comentário por Augusto Martini — junho 14, 2013 @ 21:36 | Responder

  2. Incrivel. Histórias passadas que merecem ser lembradas.. valem como aprendizado e valorização de ideologias e sofrimentos… pessoas que desconhecemos os nomes mas que espero.. tenham feito toda a diferença.

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    Comentário por Ivana — junho 18, 2013 @ 11:45 | Responder

    • Oi Ivana. Agradeço pela visita. Bjs.

      Em 18 de junho de 2013 11:45, A Simplicidade das Coisas — Augusto

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      Comentário por Augusto Martini — junho 18, 2013 @ 12:08 | Responder

  3. […] social, onde são frequentes as manifestações dos jovens nas ruas, como já foi retratada aqui nesse post. E esse País, cujo povo não é indiferente à política, aparece também no filme sem interferir […]

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    Pingback por O espetacular cinema chileno – “Carne de Perro” e “Glória” | A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini — junho 18, 2013 @ 15:36 | Responder

  4. Estivemos há poucos dias em Santiago do Chile,onde nos permitiram visitar o edifício da Calle Londres 38..Era uma segunda-feira,apesar de que estava escrito na porta que as visitas começavam de terça a sexta feira..Ficamos impressionados pelo sentimento de sofrimento que o local exala.é revoltante quando sabemos que o Estado se torna um grande criminoso torturador.São mesmo uns grandes covardes aqueles que perseguem o seu semelhante que tem ideais diferentes dos seus.Sentimo-nos muito revoltados.

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    Comentário por José Carlos — agosto 10, 2013 @ 15:07 | Responder


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