A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

janeiro 9, 2013

Sociedade civil lança manifesto contra a violência em São Paulo

Não à violência!

Não à violência!

A iniciativa é da Rede Nossa São Paulo, Centro Santo Dias de Direitos Humanos da Arquidiocese de São Paulo, Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social, Instituto São Paulo contra a Violência, Pastoral Fé e Política da Arquidiocese de São Paulo e Sociedade Santos Martires.

O manifesto será entregue ao Prefeito Fernando Haddad no lançamento da  IV edição do IRBEM – Indicadores de Referência de Bem-Estar no Município, que ocorrerá no dia 17 de janeiro, às 10h, no Sesc Consolação. A presença do prefeito Fernando Haddad já está confirmada. Posteriormente, o manifesto também será entregue ao Governador Geraldo Alckmin e ao Ministro da Justiça, José Eduardo Martins Cardoso. Veja abaixo o manifesto… 

MANIFESTO

ELIMINAR A VIOLÊNCIA NA RAIZ DE SUAS CAUSAS!

A escalada da violência no município de São Paulo não é uma surpresa para quem acompanha a cidade e se debruça sobre seus indicadores. Dos 96 distritos, cada um com uma população média de mais de 110 mil habitantes (maior que 95% das cidades brasileiras), 44 não têm nenhuma biblioteca pública, 56 não têm nenhum equipamento esportivo público, 38 não têm nenhum parque, 26 não têm nenhum hospital, 20 não têm nenhuma delegacia e 60 não têm nenhum centro cultural. Em todo o município, 1,3 milhões de pessoas vivem em favelas, enquanto 250 mil jovens entre 15 e 19 anos estão fora da escola, 181 mil jovens de 15 a 24 anos estão desempregados e 98 mil crianças necessitam de vaga em creche pública. Para se deslocar na cidade, o paulistano passa em média 2 horas e 23 minutos por dia no trânsito (o equivalente a um mês por ano) e o transporte público, nos horários de pico, oferece condições sub-humanas. Para serem atendidas por um médico no posto de saúde público, as pessoas esperam em média 52 dias; para fazerem exames em laboratório, mais 65 dias; e, para procedimentos mais complexos, mais 146 dias. Quantos não morrem pelo caminho?

Este é um cenário perfeito para que prospere a criminalidade e a violência: extremas carências, enorme desigualdade gerando frustração e revolta pela injustiça, ausência do poder público e falta de oportunidades de trabalho, educação, cultura e lazer para jovens de baixa renda, além de serviços públicos de educação, saúde e transporte de baixa qualidade (as pessoas de maior poder aquisitivo e até os responsáveis pelas políticas públicas pagam para usar serviços privados).

Para combater a violência, é claro que precisamos de uma polícia competente, amiga da comunidade, bem capacitada para exercer mais a prevenção do que a repressão, de policiais bem remunerados e honestos, de um sistema prisional que recupere as pessoas para o convívio social, de uma justiça ágil e honesta. No entanto, enquanto não mudarmos o quadro social e econômico dos paulistanos e pensarmos apenas em aumentar a repressão, enquanto não atacarmos as raízes dos problemas, estaremos apenas realimentando a espiral da violência. É como querer curar um câncer com analgésicos.

Assim, conclamamos os governos federal, estadual e municipal a colocar o interesse público acima dos interesses partidários e corporativos, a estabelecer metas e a se empenhar para:

  • Diminuir substancialmente a desigualdade social e econômica na cidade de São Paulo;
    • Dotar cada distrito da cidade de todos os equipamentos e serviços públicos necessários para oferecer uma qualidade de vida digna para seus habitantes;
    • Melhorar substancialmente a qualidade dos serviços públicos. O Brasil tem uma das maiores cargas tributárias do mundo e, portanto, tem todas as condições de oferecer serviços públicos de qualidade;
    • Transformar as favelas em bairros, oferecendo bons serviços e equipamentos públicos e condições dignas de moradia aos seus habitantes;
    • Oferecer vagas em creches para todas as crianças que delas necessitarem;
    • Promover com absoluta prioridade políticas de educação, cultura, lazer, esporte e trabalho para jovens de baixa renda. Estimular as empresas a cumprir a Lei do Aprendiz, que as obriga a contratar jovens de baixa renda como aprendizes e que está muito longe de ser cumprida na sua integralidade. Estabelecer uma legislação para a contratação de aprendizes no serviço público;
    • Instituir nova política de segurança, focada na realidade de cada território (bairro, distrito etc.), integrada com políticas públicas que promovam a participação comunitária, a geração de oportunidades e a oferta de serviços e equipamentos públicos que assegurem condições dignas de vida aos seus moradores;
    • Investir fortemente para que tenhamos uma polícia capacitada, bem remunerada, honesta e respeitadora de todos os cidadãos, independentemente de condição social e raça, que desenvolva principalmente ações preventivas contra a violência;
    • Construir uma nova política em relação às drogas, com prioridade para ações de redução de danos, com muita informação e debate na sociedade;
    • Incentivar a aplicação de penas alternativas à prisão e a descriminalização de condutas, de modo a romper com a lógica do encarceramento em massa e combater a superlotação prisional. Aprimorar a apuração da responsabilidade de agentes públicos acusados de praticar atos de violência e de violar direitos humanos. Investir no acesso à justiça, estimulando o fortalecimento e a autonomia da Defensoria Pública.
    • Estimular a criação de espaços comunitários destinados ao fortalecimento de vínculos de solidariedade entre os membros da comunidade, bem como para a mediação e solução de conflitos interpessoais, com a participação dos serviços públicos essenciais.

Elencamos aqui medidas de curto, médio e longo prazo a serem priorizadas tanto pela gestão municipal quanto pelos governos estadual e federal, os quais devem disponibilizar recursos, tomar medidas e realizar as mudanças e reformas necessárias para possibilitar a construção de um caminho que supere o atual quadro inaceitável de desigualdades e violência, comparável a países em situação de guerra.

Nesse sentido, ressaltamos que os três níveis de governo devem cooperar e tomar medidas urgentes para combater a atual situação de exacerbação da violência e o número diário e alarmante de assassinatos, focando esforços em combater as redes de criminalidade que envolvem não somente os setores marginais da sociedade, mas também a polícia e a política.

Desmontar redes de corrupção e criminalidade, identificar as lideranças dessas redes e combater a corrupção e os grupos de extermínio dentro das forças policiais são medidas de curto prazo que devem ser tomadas, levando-se em conta a situação de guerra civil que vivemos em São Paulo, a qual atinge principalmente a população mais pobre e vulnerável das periferias da cidade.

Conclamamos igualmente aos cidadãos e cidadãs, as entidades da sociedade civil, as empresas a empunhar estas bandeiras e se empenhar em colaborar dentro de suas possibilidades e de sua esfera de poder e de influência, ajudando São Paulo a tornar-se uma cidade de paz, justa e sustentável, uma cidade que ofereça qualidade de vida para todos os seus habitantes.

Rede Nossa São Paulo

Centro Santo Dias de Direitos Humanos da Arquidiocese de São Paulo

Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social

Instituto São Paulo contra a Violência

Pastoral Fé e Política da Arquidiocese de São Paulo

Sociedade Santos Martires

Por favor, clique aqui para registrar o seu apoio.

5 Comentários »

  1. Eu apoio o movimento!

    Curtir

    Comentário por Dully Pimenta — janeiro 11, 2013 @ 9:59 | Responder

    • Oi Dully! Agradeço pelo apoio e divulgação. Abrs.

      Em 11 de janeiro de 2013 09:59, A Simplicidade das Coisas — Augusto

      Curtir

      Comentário por Augusto Martini — janeiro 11, 2013 @ 10:09 | Responder

  2. São Paulo – Com camisas brancas, cantando e rezando, um grupo de jovens protestou, no início da tarde de hoje (23), contra a violência na cidade de São Paulo. O ato no vão livre do Museu de Arte de São Paulo (Masp), região central da capital, foi organizado por amigos da produtora de eventos Luciene Neves, assassinada na madrugada de ontem (22) em um bar do Jardim São Luiz, na zona sul paulistana, junto com mais dois rapazes. Além dos três mortos, outras três pessoas que estavam no local foram baleadas.

    Curtir

    Comentário por Jason Thomas — janeiro 18, 2013 @ 8:54 | Responder

  3. Os dados apresentados também confirmam um diagnóstico feito recentemente pela Anistia Internacional. Segundo Atila Roque, diretor executivo da ONG no país, “o Brasil convive, tragicamente, com uma espécie de ‘epidemia de indiferença’, quase cumplicidade de grande parcela da sociedade, com uma situação que deveria estar sendo tratada como uma verdadeira calamidade social. Isso ocorre devido a certa naturalização da violência e a um grau assustador de complacência do estado em relação a essa tragédia”, resume, em trecho citado no Mapa da Violência.

    Curtir

    Comentário por Josh R. Howell — janeiro 19, 2013 @ 9:49 | Responder

  4. Este é o quinto Mapa da Violência. Desde sua primeira edição, em 1998, os índices de violência no Brasil não se alteraram significativamente e os jovens têm aparecido como as maiores vítimas da triste união entre excesso de armas de fogo e o que o autor chama de “cultura da violência” vigente no país. Para ele, medidas de prevenção e políticas de controle de armas poderiam mudar essa realidade.

    Curtir

    Comentário por Ben Wallace — janeiro 20, 2013 @ 5:55 | Responder


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Obrigado por assinar o meu blog! Espero que goste!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

DISCUTINDO CONTEMPORANEIDADES

Escrito por PROF RAFAEL PORCARI, compartilhando sobre futebol, política, administração, educação, comportamento, sociedade, fotografia e religião.

Saia de viagem

Em frente, sempre.

Mulher Moderna

Fazendo de tudo um pouco.

Memórias de Tereza

Um blog de memórias, recordações e lembranças familiares

Blog da Reforma

Um dia esta reforma acaba!

%d blogueiros gostam disto: