A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

novembro 9, 2012

Educação e violência!

No YouTube, há milhares de vídeos que concentram a atenção dos adolescentes sobre um mesmo tema: “violência escolar”.  E a lista continua sob outros nomes semelhantes. A maioria são gravações caseiras, feitas pelos alunos com telefones celulares, que em seguida postam as imagens no portal de vídeo mais difundido da Internet. As imagens refletem que a agressão que existe na sala de aula é uma tendência crescente. E também nos mostram como essas situações são consideradas um troféu para se exibir na rede.

Ambiente escolar – cada dia mais enfermo!

Imagens de alunos fazendo gestos obscenos a uma professora ou tentando queimar-lhe os cabelos. Vídeos de adolescentes se divertindo enquanto jogam o pó de giz na cabeça de um professor ou aproximam-se dele com um preservativo. Gravações de cenas que mostram a agressão entre os próprios alunos e de alunos a professores. A violência ganhou o ambiente escolar. Os alunos tornaram-se incontroláveis! 

Por uma série de motivos os professores são “desautorizados” e ficam inseguros para tomar o seu lugar na sala de aula. E com os pais desorientados em uma sociedade onde estão desaparecendo as necessárias assimetrias, a crise de autoridade nas famílias e instituições é um ponto comum em todas as análises sobre o tema.

As vozes são divididas, no entanto, quando se trata de definir as posições diante de situações de agressão que podem variar de provocações e até atingir a violência pura e simples. Para alguns, deve-se endurecer as penas para os alunos e redesenhar os limites perdidos, devolvendo a autoridade aos professores. Outros enfatizam que a escola não deve ser expulsiva e que o comportamento dos alunos é o reflexo de um sistema educativo com as falhas e de uma sociedade violenta.

Há dificuldade de pais e professores para exercer a autoridade. E, dizem os especialistas, que nesta dificuldade, nesse medo de exercer a autoridade aparece sempre o fantasma do autoritarismo, pois a história política recente do nosso país também tem influência. Estamos em um estado de confusão, onde nossa sociedade passou de uma cultura repressiva, herdada do processo militar, a um estágio em que parece que não há limites. O estudante vive e atua neste contexto.

No ano passado, um caso emblemático comoveu a Itália, onde estudantes de uma escola secundária “alisavam” a professora que estava ministrando a aula. Tiraram fotos com o celular e exibiram as imagens na internet. Os meninos a acariciavam e ela continuou falando como se não percebesse a situação. Quase todos os países também têm seus casos de abuso. Como em nosso país, os adolescentes carregam celulares para a escola, prestam atenção ao que pode ser gravado e enviam as imagens para a rede como se fossem troféus a exibir.

Muitos pais, diretores e professores confessam a sua preocupação e dizem que ainda não encontraram uma resposta para esta forma extrema de transgressão dos adolescentes.

E a história continua… Professores agredidos e humilhados, imagens de violência escolar disponibilizadas na internet. Muitos já definem a atividade docente como uma profissão de risco e os experts alertam sobre isso.

Abaixo, transcrevo um artigo do meu amigo Augusto Bernardo Sampaio Cecilio, da Educação Fiscal do Amazonas, o qual foi publicado no  Jornal do Commercio/AMPágina A4, de ontem, dia 08 de novembro.

Professores agredidos. O quadro é negro!

*Augusto Bernardo Sampaio Cecilio

Passado o dia dos professores, algumas perguntas: O tão falado “bullying” só existe quando acontece com alunos, crianças ou jovens? E quando acontecem ameaças, intimidações diversas, agressões, tentativas de assassinatos e outros crimes contra os professores? Quem protege os mestres na ida, na vinda e no seu ambiente de trabalho? Quem, na época de eleições, se lembra dos baixos salários e de condições insalubres? Quem tenta evitar que pais utilizem escolas como depósitos de filhos, transferindo responsabilidades pela educação aos educadores? Quem questiona o excesso de direitos e a extensa cobertura dada pelo Estatuto da Criança e do Adolescente-ECA? O que fazer quando, na maioria das vezes, menores são detidos praticando delitos, matando, roubando ou participando de quadrilhas? A Câmara dos Deputados analisa o Projeto de Lei 267/11, da deputada Cida Borghetti (PP-PR), que estabelece punições para estudantes que desrespeitarem professores ou violarem regras éticas e de comportamento de instituições de ensino. Em caso de descumprimento, o estudante infrator ficará sujeito a suspensão e, na hipótese de reincidência grave, encaminhamento à autoridade judiciária competente. A proposta muda o ECA (Lei 8.069/90) para incluir o respeito aos códigos de ética e de conduta como responsabilidade e dever da criança e do adolescente na condição de estudante.  

De acordo com a autora, a indisciplina em sala de aula tornou-se algo rotineiro nas escolas brasileiras e o número de casos de violência contra professores aumenta assustadoramente. Além dos episódios de violência física contra os educadores, há casos de agressões verbais, que, em muitos casos, acabam sem punição. E o projeto, que tramita em caráter conclusivo, será analisado pelas comissões de Seguridade Social e Família; de Educação e Cultura; e de Constituição e Justiça e de Cidadania. 

 Em seu Blog “Falando Francamente”, a pernambucana Amannda Oliveira coloca o assunto em discussão. “Quando eu era estudante do ensino médio, os meus professores me serviam de referência, era possível ser amiga deles. Ao mesmo tempo em que podíamos brincar com eles, havia um respeito enorme por aqueles que nos ensinavam um pouco mais dia a dia. É muito triste perceber que o desrespeito e a violência ao professor imperam no dia de hoje. É terrível perceber como a violência invadiu as salas de aula e que os alunos tem se transformado por vezes em marginais, por pertencerem a famílias desestruturadas, que os criam como bichos soltos no mundo. Quando eu estudava, os professores eram mestres queridos e muitos me ensinaram parte do que vivo hoje e fazem falta”.

 Após a postagem principal, dezenas de professores deixaram seus comentários, aqui transcritos sem citar nomes: Como professor de rede pública há 19 anos (e dois em cursos, totalizando 21), eu sei o quanto esta lei é tanto urgente como imprescindível. Não se pode descrever o horror das humilhações e coações morais. Só quem passou sabe. Estas agressões, abusos, ameaças estão assassinando o professor “vivo”. Muitos já desistiram, muitos estão de licença, fazendo tratamento, muitos estão abandonando o oficio. 

Margarete Matos Figueiredo dá o seu depoimento: “Sou professora há 24 anos em escola pública e privada e estou atualmente de licença. Doente não só com o desrespeito de alguns alunos, mas também com pais, colegas, poder político, desvalorização do ambiente de trabalho, salário indigno, etc. Já adoeci, estou em tratamento psiquiátrico e psicológico. A Lei deve ser ampliada para o cumprimento de um ensino de qualidade total. São muitas vertentes para haver mudanças necessárias. O Ministério Público deveria cumprir seu papel fiscalizador. As Leis já existem, falta cumprir. Estou exausta de lutar”.

Mais depoimentos: “Sou uma otimista incorrigível e ainda acredito que nossos jovens têm jeito, que a educação em nosso país pode tornar-se algo do qual realmente possamos nos orgulhar. Por enquanto, vou tentando entender o que se passa com nossa juventude, com nosso momento pós-moderno, onde a violência, assim como o sexo e o desrespeito total, tornaram-se banais. Espero que consigamos sobreviver a esse momento e não desistamos de nosso sacerdócio, mesmo que às vezes nos seja tão penoso ser professor. Já estava na hora de uma Lei que valorize a autonomia do professor na sala de aula. Precisamos agora que essa Lei ganhe vida e deixe de ser apenas letras mortas. Nós professores precisamos de apoio, pois diante de algumas situações, muitas vezes, nos encontramos  sem saber como agir diante das agressões dos educandos”.

“Há 15 anos em sala de aula, e com um processo rolando por ameaça de morte, por parte de um aluno, estou muito contente e espero que este projeto deixe o papel e chegue à sala de aula, para podermos ter um suporte contra a falta de educação e limites que hoje correm soltos pelas nossas escolas”. (Lia Yugue)

“É impressionante que precise de uma Lei para que os alunos aprendam a respeitar um professor. Esse princípio deveria partir de casa. Minha mãe nunca precisou me ensinar a respeitar meus professores. Respeitava antes de tudo como pessoas que são, muito antes de serem professores. Acho que não só os infratores devem sofrer sanções como também seus responsáveis, pois a ausência  de valores e conceitos se deve e muito às famílias acharem que a escola deve também educar sua prole, que aumenta a cada dia visando receber os benefícios do governo”.

*O autor é auditor fiscal da Sefaz e coordenador do Programa de Educação Fiscal no Amazonas.

Anúncios

8 Comentários »

  1. Inadmissível que precise haver leis para alunos respeitarem os professores! Educação vem de berço, está claro que o erro maior é dos pais, que não educam os filhos com seriedade. Celular em sala de aula deveria ser proibido pela escola, para começar. Tenho sobrinha que dá aula em escola municipal, em bairro de classe média baixa e a escola prima pela organização, as crianças respeitam os professores, não é em todo lugar que se vê esses desmandos. Em grande parte, nossos professores são despreparados para lidar com crianças e adolescentes mal educados pelas famílias (o que é certo, não estudaram para isso, para entender a cabeça de alunos, estudaram para passsar conhecimento). Crianças e adolescentes rebeldes precisam, primeiramente, de amor e depois de compreeensão. Essa maneira de agirem não é barbárie, antes é um aviso, um pedido de socorro, querem serem vistos, mas agem da maneira errada. Escolas e pais unidos serão imbatíveis.

    Curtir

    Comentário por Lúcia Soares — novembro 9, 2012 @ 19:07 | Responder

    • Boa noite Lúcia.
      Concordo plenamente com sua colocações. Agradeço sua visita.
      Augusto

      Curtir

      Comentário por Augusto Martini — novembro 10, 2012 @ 0:23 | Responder

  2. Difícil chegar à raiz do problema, muito complicado também saber como desfazer esses nós.
    Somos de uma geração que respeitava e admirava os nossos professores e não há como não se espantar com tudo isso.
    Em tempo, só para comentar, minha filha caçula de 17 anos (que eu vejo como uma adolescente exatamente como todas as outras) deixou de ir à escola há mais ou menos um mês.
    Aqui em casa teve diálogo, ‘suborno’, presentinho, e depois, eletrônico puxado da tomada, castigo e até berro e palmada. Nada adiantou.
    Ela diz que o ambiente exatamente como descrito no post estava insuportável para ela.
    Aceito sugestões sobre o que fazer e recebo bem qualquer tipo de comentários.

    Abraço de Luz e Paz.

    Curtir

    Comentário por Simone — novembro 10, 2012 @ 21:28 | Responder

    • Oi Simone.
      Agradeço a visita. Certamente encontrará aqui pessoas que irão debater o tema contigo.
      Abrs.

      Curtir

      Comentário por Augusto Martini — novembro 11, 2012 @ 15:16 | Responder

    • Simone, aqui em casa somos em dois irmãos. Tivemos problemas semelhantes a esse aqui em casa. Quando eu era filho único (até os meus 8 anos) também não era muito fã de escola, mas minha mãe que estava estudando para ser educadora sempre se preocupou em cobrar resultados de nossa parte. Meu pai, na mesma linha colocava sua própria experiencia de vida e sua cobrança como incentivos ao estudo (ele havia estudado somente até o ginásio quando em idade escolar e estava terminando o segundo grau logo que entrei na 5º série – antigo ginásio). Sempre estudei em escola pública e se tirasse um vermelho era encrenca na certa. Meus pais compareciam com frequencia na escola e, algumas vezes no período escolar eles pediram para a direção do colégio me relocar de turma ou até mesmo mudar de escola (na primeira série eu estava começando a ter um companheiro de bagunça e me mudaram de escola; na 6º série a turma fazia muito barulho e não tinha um bom rendimento, eles me mudaram de turma). Outra coisa importante que meus pais me fizeram foi a atribuição de responsabilidades. Meu pai dizia “mente desocupada, oficina do diabo”. Todos os dias, desde quando aprendi a falar e andar, existia uma rotina de tarefas a se fazer (limpar o quintal, dar banho e tratar do cachorro, lavar a louça, fazer a tarefa…). Acabei acostumando com isso, e aos 16 anos comecei a trabalhar de aprendiz. [Se eu não conseguisse um trabalho, meus pais já estavam providenciando a possibilidade de trabalhar como voluntario em alguma ong (Pastoral da criança, APAE,..)] Foi bom pra ganhar responsabilidades. Confesso que ficava um pouco bravo com as cobranças, mas hoje sou muito grato aos meus pais por isso!
      Espero que vc consiga aproveitar algo e tenha um bom resultado. Abraço.

      Curtir

      Comentário por Jonas Henrique — janeiro 1, 2013 @ 19:12 | Responder

      • Bom dia Jonas!
        Agradeço sua visita e seu depoimento. Vou mostrar o que escreveu para meus pequenos sobrinhos netos! Quando falo para eles que eu, quando jovem, tinha outras responsabilidades (bem parecidas com a educação que seus pais deram para vc), eles duvidam.
        Abraços. Excelente 2013!

        Curtir

        Comentário por Augusto Martini — janeiro 2, 2013 @ 9:30

      • Pois é, Marina.
        Abrs. Agradeço sua visita.

        Curtir

        Comentário por Augusto Martini — maio 27, 2013 @ 8:40

  3. E dizem que a culpa é do professor.

    Curtir

    Comentário por Marina de Freitas — maio 26, 2013 @ 11:42 | Responder


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Obrigado por assinar o meu blog! Espero que goste!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: