A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

julho 20, 2012

O Fileteado Porteño na capital mundial do tango – símbolo da arte popular na Argentina

Para quem gosta de história como eu, resolvi pesquisar um pouco sobre o fileteado porteño, tão presente no cotidiano de Buenos Aires. Resolvi fazer isso porque gosto muito de tango. Sempre que vou para BsAs vou visitar a Calle Jean Jaurés, onde, no número 735, está a casa do maior cantor de tango de todos os tempos: Carlos Gardel – ele morou por lá durante uns 10 anos até bem pouco tempo antes de morrer. Mesmo se você não gostar do cantor, vá até esta rua que em sí é bastante pictórica – a frente das casas são pintadas ao estilo dos anos 30, época do esplendor da arte do Fileteado Porteño. Não tem nada que represente melhor Buenos Aires do que este tipo de pintura.

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O fileteado porteño é uma arte popular decorativa nascida no final do século XIX e início do século XX na cidade de Buenos Aires. Originou-se nas fábricas de automóveis onde os pioneiros da profissão, trabalhando na ornamentação destes veículos, praticamente criaram o gênero, que infelizmente não foi suficientemente documentado em seus primórdios e nem em seu desenvolvimento posterior. 

Portanto, o resgate histórico dessa arte é construído com base na coleta de depoimentos dos mestres que viveram na metade do século passado. Tal como o tango, não há um primeiro artista nem uma data exata para determinar o início desta prática, mas vários testemunhos concordam com uma coisa –  que haviam três imigrantes italianos que desenvolveram um trabalho de filetagem dentro das fábricas existentes no início do século XX: Cecilio Pascarella, Vicente Brunetti e Salvador Venturo, sendo que mais tarde seus próprios filhos seguiram o trabalho que começaram.

O fileteado nos automóveis em Buenos Aires acabou com o colapso do cinza que os caracterizava  – começaram a pintar metade das suas laterais de outra cor e começaram a separá-las com uma linha fina de uma cor mais intensa ou contrastante – o filete.

A partir de então vão surgindo diferentes motivos que mais tarde iriam formar um grande repertório que o caracterizará, como também a composição e sua técnica de pintura, transformando-se num gênero inconfundível. Flores, folhas, pássaros, fitas com o azul e branco da bandeira Argentina, bolas, linhas retas e curvas de diferentes espessuras vão se mesclando com cenas do campo e personagens populares, como Nossa Senhora e Carlos Gardel.

As cores utilizadas são muito vivas e através de contraste e transparência se dá na obra a intencionalidade de volume com um material fundamental: o esmalte sintético, que resiste ao tempo, permitindo que esta forma de arte circulasse constantemente pelas ruas da cidade.

Os textos também fazem parte da composição do fileteado, com um arsenal de frases cunhadas pela sabedoria popular, que constituem a sua “voz”. A consequência disso é que o fileteado é feito não só para fins estéticos, mas também como uma manifestação dos valores sócio-culturais do povo de Buenos Aires. Nos anos 40 o fileteado adapta suas formas aos novos veículos, fruto do progresso, que vão substituindo aos poucos os carros: caminhões e ônibus, que são herdeiros diretos desta decoração colorida que lhes dá a identidade indiscutivelmente porteña, mas que passa despercebida para a maioria dos habitantes.

Os críticos de arte não reconheciam o tema, e a primeira exposição do fileteado porteño só ocorre em 1970, graças à pesquisa de trabalhos feitos por Nicholas Rúbio e Esther Barugel. Logo depois, tem início o desaparecimento do fileteado em veículos devido as sucessivas crises econômicas, e a uma lei de 1975 que proíbe o fileteado em ônibus. Esta prática foi proibida nesses veículos, porque  consideraram a prática confusa  e diziam que não permitiam que as pessoas lessem com segurança os nomes das linhas de ônibus e sua rota. Tal medida foi o início do desaparecimento desta manifestação popular em larga escala. Atualmente ela é mantido viva graças a um grupo de artistas que querem salvá-lo da indiferença e esquecimento.

Passada a época do esplendor dos grandes mestres fileteadores e de seus inesquecíveis veículos profusamente decorados, o fileteado porteño continua vivo nas mãos de alguns herdeiros curiosos, que tentam resgatá-lo da indiferença e do esquecimento, que o exercitam como arte e ofício que não perde a beleza lúdica que está nesse tipo de ornamento.

Hoje, não tanto como antigamente e em ambientes ligados ao tango, utilizado como design e como publicidade, em novas superfícies e com diferentes técnicas, o fileteado porteño, um dos símbolos de Buenos Aires, ainda permanece o mesmo.

Fiz esse texto baseado no site Fileteado Porteño do excelente artista Alfredo Genovese, que desenvolve e difunde esse tipo de arte.

Caso queira saber mais, leia:

– Esther Barugel y Nicolás Rubió, 1994 , “Los maestros fileteadores de Buenos Aires” , Bs.As. ,  Fondo Nacional de las Artes.

– Jorge Luis Borges, 1930, “Las Inscripciones de los Carros” enEvaristo Carriego .

– Norberto P. Cirio , 1996, “El Filete Porteño: bibliografía crítica y definición conceptual” en Segundas jornadas estudios de investigaciones en artes visuales y música , Instituto J. E. Payró, Universidad de Buenos Aires.

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11 Comentários »

  1. Adorei, realmente vale a pena resgatarem-se as culturas esquecidas, um povo sem cultura é um povo sem memória! e que visual lindo de se ver, cores quentes e vibrantes! adorei descobrir essa história Augusto, obrigada pelo olhar crítico e esclarecedor!

    bjs

    Lucia Ribeiro

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    Comentário por Lucia Ribeiro — julho 20, 2012 @ 17:43 | Responder

    • Bom dia Lúcia, querida. Agradeço pela visita e pelo comentário. Bjs e boa semana. Augusto

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      Comentário por Augusto Martini — julho 23, 2012 @ 8:33 | Responder

  2. Olá, gostaria de saber se existe interesse em parceria (troca de links).

    No aguardo,

    Rosilene Rodrigues.
    http://www.RosileneRodrigues.blog.com

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    Comentário por Rosilene Rodrigues — julho 21, 2012 @ 0:31 | Responder

  3. O fileteado é parte da identidade visual de Buenos Aires. è lindo embora agora con essa tendência a padronizar tudo se está perdendo.

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    Comentário por Liliana — agosto 1, 2012 @ 22:25 | Responder

  4. Muy buen artículo, Sr. Martini! Me alegra saber que le gusta la Argentina, a mi también me encanta, mi marido es porteño! Su amiga Lilian me sugirió leer su página. Un gusto conocerlo! Saludos desde Araçatuba.

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    Comentário por Sabine — novembro 20, 2012 @ 0:09 | Responder

    • Hola, Sabine.
      Si, me encanta la Argentina. Me encantan los argentinos – son educados y cordiales. Su musicalidad tambien me encanta.
      Los vinos son formidables! Su cocina es fantastica!
      Aguardo con gran ansiedad el dia en que yo consiga un trabajo donde podré vivir allá!
      De la misma forma es un gusto conocerla.
      Saludos.
      Augusto

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      Comentário por Augusto Martini — novembro 20, 2012 @ 15:12 | Responder

  5. […] 1, 2, […]

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    Pingback por ¡Fileteado porteño! | Design & Chimarrão — novembro 5, 2013 @ 17:32 | Responder

  6. Chris

    O Fileteado Porteño na capital mundial do tango – símbolo da arte popular na Argentina | A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

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    Trackback por Chris — maio 8, 2015 @ 15:41 | Responder

  7. Abby

    O Fileteado Porteño na capital mundial do tango – símbolo da arte popular na Argentina | A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

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    Trackback por Abby — junho 5, 2015 @ 2:29 | Responder


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