A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

março 25, 2012

Filme Darfur – Deserto de Sangue

Cartaz de divulgação do filme Darfur - Deserto de sangue

Ontem a noite assisti Darfur – Deserto de sangue. É um filme para quem tem coragem e estômago forte. O Diretor Uwe Boll, que não é visto pela crítica cinematográfica com bons olhos e que teve a maioria de suas produções duramente criticada, dessa vez parece que acertou a mão. O filme mostra  crueza e sinceridade e nos leva a pensar que algo pode ter mudado, e que talvez estejamos diante da melhor produção da carreira controversa do cineasta, que expõe com uma abordagem documental uma das maiores crises humanitárias da história. 

Localizado na região Oeste do Sudão, Darfur é palco desde 2003 de violentos conflitos armados promovidos pela população árabe contra os não-árabes, a maioria composta por negros. Neste cenário, milícias camufladamente apoiadas pelo governo espalham o terror por onde passam,  assassinando, cometendo estupros e sequestrando crianças, numa disputa étnico-cultural gritante e que meio mundo não imagina a dimensão. Diante desses acontecimentos um grupo de jornalistas americanos, liderados por Malin Lausberg (Kristanna Loke) e Bob Jones (Billy Zane), dirigem-se para lá para produzirem uma matéria denúncia sobre as atrocidades ocorridas naquelas terras, que revela, mesmo que indiretamente, que as Nações Unidas assume apenas um papel figurativo em várias desordens com vínculos políticos, mantendo-se na retaguarda quando lhe convém. Apoiados por soldados da União Africana, Malin e sua equipe  visitam um dos muitos vilarejos de refugiados não-árabes, entrevistando homens e mulheres que ali permanecem reclusos, temerosos pela chegada dos Janjawid (o diabo montado a cavalo) – milicianos africanos de religião muçulmana e língua árabe.

A produção é toda realizada com a câmera na mão, focalizando as reações adversas dos atores para com cada acontecimento, da expectativa para chegar ao vilarejo à constatação de  serem incapazes de evitar um eminente genocídio – Uwe Boll, o diretor, foi eficiente ao abrir a narrativa pelo desfecho final, através das conversas de parte da equipe de americanos, entregues ao impacto dos recentes acontecimentos dos quais foram testemunhas. Deste ponto, o expectador acompanha os eventos ocorridos até ali e em determinado momento os olhares dos personagens acabam sendo os do espectador. É impressionante como o diretor consegue nos a levar a isso! Investigam-se os costumes, as tragédias pessoais – que nos levam a conclusão de que é cada vez  maior  o número de mulheres contaminadas pelo vírus da AIDS depois de estupradas -, e a alta taxa de mortalidade. Estima-se que mais de 400.000 pessoas tenham perdido a vida nesta guerra travada no país africano movida pelo racismo e a convicta superioridade que alguns acreditam ter. Invadida por um bando de Janjawids a aldeia que serve de cenário para a reportagem tema do filme e se torna um campo de pura carnificina, não poupando o espectador de nenhum detalhe, mesmo o mais sórdido, reforçado ainda pela tensa trilha sonora. Uwe Boll utiliza este nada agradável clímax com um tom agressivo, o que pode soar apelativo, mas que não é! Historicamente é o que acontece por lá.

O filme não tem um grande elenco, mas o diretor alemão foi ousado em  retratar de forma cruel uma das muitas tragédias sociais cometidas em diversas nações, e a incapacidade do restante do mundo de se voltar para elas. Apesar desse filme denúncia,  as mortes de milhares de civis continuam ocorrendo no Sudão, e inacreditavelmente alguns países como a China, se recusam a classificar o ocorrido como genocídio – e isso acontece puramente por interesses comerciais.

O filme é altamente recomendável para professores de história e geografia que desejam abordar o tema em sala de aula. E penso que todos deveriam assistir ao filme para ver o grau de atrocidade a que o ser humano é capaz de chegar. E que fiquem tocados da mesma forma que fiquei.

Anúncios

6 Comentários »

  1. Querido amigo, difícil imaginarmos que temos esse tipo de atrocidades acontecendo ao mesmo tempo em que continuamos tocando nossas vidas. Fez-me lembrar do mal estar que eu senti no Coliseu, templo de carnificina aos cristãos, prazer puramente sádico de um povo que aprendemos a respeitar pela beleza do Renascimento e do Barroco. Cheguei mesmo a me perguntar qual seria o propósito de mantermos aquele edifício de pé? O que há para ser celebrado ali nos dias de hoje? Ao visitar o Fórum Romano, passava por mim, uma mulher, que na contemporaneidade seria classificada de psicótica pela psiquiatria. Pois bem, ela cotejava o lugar, no mesmo tempo que eu e comia uma das frutas mais simbólicas de toda a civilização ocidental: a maça. Andava ela, a esmo, comendo sua maça, falando baixinho consigo mesma quando, de repente, saca da boca um grito-gargalhada e diz: “Ahhhh esse monte de pedra que vale uma fortuna!” E volta a morder sua maça e caminhar sem rumo… Pensei: a cultura, a história, a arte, está mesmo nos olhos de quem vê. E quem vê, não nasce vendo, mas aprende a ver, é condicionado a ver isso ou aquilo. O que muda em nós após assistir a um filme como este? O que muda em nós após sentir o horror que senti lá no Coliseu?

    Uma boa semana pra você. Saudades.

    Curtir

    Comentário por FSTF — março 25, 2012 @ 22:31 | Responder

    • Deus tenha miséricordia ,acho só ele , assisti hoje no telecine realmente isso tem que acabar só por Deus !!
      Aí eu me pergunto se não acabarem com genocídios as impunidades,crueldades ,atrocidades ,matar seu ser semelhente por nada ,( terá valido a pena, pelo breve instante da nossa existência ) ?

      Curtir

      Comentário por celio — janeiro 21, 2013 @ 2:18 | Responder

      • Bom dia Célio.
        E o pior é que a cada dia que passa ficamos sabendo de atitudes parecidas, em vários lugares do planeta.
        Abraços.
        Augusto

        Curtir

        Comentário por Augusto Martini — janeiro 21, 2013 @ 8:25

  2. nao fala sobre o que eu presiso mais meus parabens por ensinar isso para nois

    Curtir

    Comentário por erica vitoria — agosto 18, 2013 @ 12:22 | Responder

  3. Hoje meu professor de geografia mostrou a minha classe o filme de Dafur. Quando o filme acabou percebi que a maioria dos meus colegas de classe não tinham compreendido que os acontecimentos daquele filme não eram ficção, eles simplesmente o assistiram como um filme qualquer. Mas aquilo é realidade! É o que tá acontecendo agora e vai continuar acontecendo se ninguém tomar alguma providência!!

    Curtir

    Comentário por Igor Nogueira — maio 28, 2014 @ 13:13 | Responder

    • Oi Igor.
      Isso mesmo. Veja só como o assunto é urgente. Há três dias saiu uma notícia na mídia que o Conselho de Segurança da ONU condenou ataque contra “capacetes azuis” no Darfur e que causou a morte de um elemento ruandês da missão conjunta ONU-União Africana no Darfur (Minuad) e deixou outros três feridos. Numa declaração unânime, o Conselho pede ao governo sudanês para abrir rapidamente um inquérito ao incidente e para levar à justiça os responsáveis pelo ataque. Os 15 membros do Conselho de Segurança da ONU reiteraram ainda o seu apoio à Minuad e instigaram a que todas as partes envolvidas do Darfur a cooperem plenamente com a missão.
      Abraços.
      Augusto

      Curtir

      Comentário por Augusto Martini — maio 28, 2014 @ 14:10 | Responder


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Obrigado por assinar o meu blog! Espero que goste!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: