A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

março 8, 2012

A comida, a fome e as lembranças de minha infância.

Esse post tem a ver com a minha caminhada de hoje até o trabalho. Tem a ver com os moradores de rua – que estão espalhados as dezenas pelo caminho que faço. E principalmente com a visão triste que tive – um homem quase moribundo, deitado sobre seus trapos e abrindo um saquinho onde tinha restos de comida. E ele a comia jogando-a aos punhados, boca adentro, feito um bicho esfomeado…

Minha mãe, seus irmâos e meu avô, na casa simples em que moravam.

A minha mãe era uma das mais velhas entre seis irmãos. Quando tinha 15 anos e apenas com a 4ª série primária, teve que cuidar dos menores, pois Delfina, a mais velha deles (que contava com 18 anos), casou-se…  Assim minha mãe  ficou responsável por cuidar e criar o restante dos irmãos. Sua mãe, minha avó Tereza Bianchini Graciolli, a qual não conheci, havia falecido. Ainda era muito jovem. A Família Graciolli morava na Mata Negra, em uma fazenda que ficava nas proximidades de Rio Claro/SP.

Eu, no velocípede

Devido às dificuldades por que passou, a minha mãe sempre deu muito valor à comida. Eu e minhas irmãs também. Nunca passamos fome, mas a coisa não era fácil! Um dia conto a história da sardinha que tinha que tinha que ser dividida por três, ou do pedacinho de queijo duro que era cheirado, enquanto engolíamos a colherada de arroz com feijão, ficando o queijo para ser saboreado por último – tudo isso era recorrente na minha infância. 

A minha mãe sempre me obrigou a comer tudo o que havia no prato. Dizia: “a comida não é para estragar! É muito cara para jogar fora! Não reclame – há muitos passando fome!”

Talvez por isso, ainda hoje me custe ver sobrar comida. Procuro nunca deixar um só grão no prato, e se isso acontece com alguém que me acompanha durante as refeições fico com o sentimento de culpa de quem está  desperdiçando um bem precioso.

Quando fiz o segundo grau aprendi que havia três tipos de fome: a fome aguda (aquela que sentimos quando passam umas horas sem nos alimentarmos, e que acredito que todos já experimentaram), a fome oculta (resultante da falta dos nutrientes básicos para o equilíbrio do organismo) e a fome crônica (aquela que vemos no telejornal, a das crianças com barrigas de água dos países subdesenvolvidos – e claro –  quem mora em São Paulo a vê diariamente em qualquer rua ou cruzamento). É justamente da fome crônica que quero falar. Porque é desta fome que falamos quando falamos da fome.

Provavelmente devido ao respeito pela comida incutido durante a minha educação, de todas as misérias humanas, nenhuma me choca mais do que a fome. Suporto ver tudo: guerras, doenças, droga, tudo… Menos a fome.

Em um só dia, toneladas de alimentos vão parar no lixo!

Sinceramente – não consigo compreender um mundo – metade consumista, frívolo e fútil, e metade triste – miserável e faminto! Não consigo compreender (e ainda ninguém me conseguiu explicar) a coerência duma sociedade onde o excesso de produção alimentar dá direito a multas, e onde enterrar ou destruir alimentos é mais usual que a sua distribuição. Não consigo compreender, e não há com certeza nenhuma teoria que me consiga convencer que há alguma lógica por trás disto.

Podem falar-me de civilização, de democracia, de avanço tecnológico, das porcarias que quiserem.

Andando pelas ruas de São Paulo fico pensando como o ser humano pode se distanciar tanto do sentido de ser gente. Como pode alguns com tanta ganância de ganhar e ganhar, enriquecer e enriquecer e tantos com o sonho de apenas sobreviver? Como podem alguns se dizer representantes de Deus e ainda assim não ter vergonha de estar ao lado dos que mais têm? Como pode nossos políticos, os ditos representantes do povo, ganharem tanto, enquanto a maioria da população vive com um salário mínimo? Qual é o exemplo dado por nossos políticos, que fazem seus tratamentos no Hospital Sírio Libanês, enquanto grande parte da população morre na fila de espera do SUS?

Vivemos numa sociedade de invejosos e consumistas! Que preferem jogar fora o que lhes é demais do que doar a quem precisa. Hoje a maioria dos filhos não sabem o que é não TER e isso faz com que não percam o DESEJO de ter. Ainda me lembro dos gibis e livros que lia quando tinha 10 anos, os quais eram comprados com sacrifício por minha mãe em uma banca de usados e que quando estavam lidos eram trocados na proporção de 2×1. Eram usados, pois não podia os comprar novos. E sabem que mais? Quando cresci e tive dinheiro não comprei coisas novas para compensar a carência porque não era preciso! Foi ótimo ter crescido assim e ter dado valor ao que é realmente importante! Espero conseguir passar esses valores ao meu filho… Se um dia o tiver.

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15 Comentários »

  1. eu fico triste em ver sobrar comida. meus pais nos criaram numa casa simples mas com comida boa e farta. vc sabe a estoria do sonho, mas vou contar aqui: meu pai comprou trers sonhos_uma para cada filha_ e colocou-os na geladeira. uma menina foi lá e viu e fez aconta: 3 sonhos, 5 pessoas…e comeu metade.
    as outars duas tb comeram metade…
    então sobrou um sonho e meio…e meu pai disse: quem não comeu sonho???
    e nos respondenmos que todas comemos, e qua haviamos deixado pra eles.
    então sempre foi assim…qdo havia um pedacito de algo na geladeira perguntavamos: todo mundo ja comeu???
    pois nao qeuriamos que ninguem dali ficasse sem.
    acho que crescemos com as estorias da infancia da minha mae, que era muito pobre.
    ela contava que era um prato enorme de arroz pra cada um, umas rodelas de tomate e um pedacinho de linguiça.
    minha mae sempre fez discursos acalorados sobre o desperdicio de comida, pois ela mesmo passou necessidades.
    hj em dia, mesmo com a situação melhor, ela ainda guarda e reaproveita sobras, não desperdiça nada.
    e passou isso pra gente.
    acho que se não passamos necessidade, se temos fartura em casa , pelo menos devemos nao desperdiçar alimento em respeito às pessoas que passam fome no mundo epelas quais nada podemos fazer.

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    Comentário por coisadelillylilian — março 8, 2012 @ 17:31 | Responder

    • Oi Lilian.

      Delícia lembrar dessas coisas da infância, não é? Como sua mãe, a minha também reaproveitava tudo. Arroz virava bolinho de arroz (nunca mais comi bolinhos como os que ela fazia!), leite virava manteiga ou doce de leite… Bjs.

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      Comentário por Augusto Martini — março 9, 2012 @ 8:53 | Responder

  2. Augusto, obrigada sempre pelas tuas lindas estórias, é sempre quase como se eu estivesse ouvindo um amigo conversando.
    Eu me lembro perfeitamente da primeira vez que vi mendigos e pessoas passando fome no centro de São Paulo, há mais de 30 anos, e como isso me impressionou.
    Você sabe como era a vidinha da gente aqui no interior, verdurinha da horta do quintal, ovo caipira da galinha do vizinho, rosquinha frita à tarde e por aí vai.
    Infelizmente a total falta de lógica do desperdício e falta de alimento é incompreensível para todos nós.
    Um abraço de luz e paz.

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    Comentário por sissi2011 — março 8, 2012 @ 18:47 | Responder

    • Oi Simone.

      Seu comentário fez-me lembrar das verduras colhidas na horta do quintal de casa, da jabuticabeira que florecia, atraía as abelhas e emanava um cheiro delicioso, bolinhos de chuva…

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      Comentário por Augusto Martini — março 9, 2012 @ 8:51 | Responder

      • Boa tarde, Augusto, obrigada por sempre postar uma resposta.

        Eu morei 20 anos em São Paulo.
        Vai fazer seis anos, que ‘engatei uma ré,’
        Precisei de muita coragem para vir de volta para cá.
        Padrão salarial aqui foi abaixo do ralo.
        Mas paz de espírito não tem preço.
        Fico aqui, cercada de muito verde e muita tranquilidade.
        Sonhando com ‘Paris, um dia, quem sabe, como você postou aqui,’
        Abraço de Luz e Paz.

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        Comentário por sissi2011 — março 9, 2012 @ 16:58

      • Ah, Simone.

        Não sabe como sonho com o dia de voltar para o meu aconchego, como diz a música. Estou há quase 12 anos em São Paulo. Fiz vida aqui, comprei apartamento. Mas tenho minha casa ainda aí, no interior. Tenho vontade de aposentar (já tenho tempo, não tenho idade, faltam 8 anos) e ir morar em Buenos Aires. É um sonho que vou alimentar.

        Abrs.

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        Comentário por Augusto Martini — março 9, 2012 @ 17:13

  3. OBRIGADA, meu irmão!!! Pelas lembranças do nosso tempo de infãncia …dos tempos difíceis que nossos pais tiveram pra nos criar … hoje quando leio seus textos, as lágrimas insistem em cair e eu não consigo segurá-las… Lembro da mamãe fazendo o prato do nosso papai, que estava pra chegar pro almoço, e colocando uma banana e um pedaço de pão, de mistura …ontem mesmo eu estava pensando em como foram heróis nossos pais …. Conseguiram nos criar e sobreviver com o tão pouco que o pai ganhava … E a paçoquinha comprada no armazém dos Pizzirani? …Era repartida em 3 …Ou em 4 quando tinha a CIDA nossa prima morando conosco…. Mas eles nos deixaram uma herança de muito valor …Nos ensinaram a ser gente de bem … Eu tenho tanta saudades deles… E muito ORGULHO tb… Por eles terem sido nossos PAIS …PAIS HERÓIS !!!!BJOS …AMO VC.

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    Comentário por ivone veronica martin christofoletti — março 9, 2012 @ 23:38 | Responder

  4. Olá!

    Adorei o seu blog.
    Confesso que estou desanimada com o meu, até agora só comentários spam… Aff!

    Aparece por lá.

    Obrigada!

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    Comentário por Nabel — março 10, 2012 @ 11:59 | Responder

  5. Oi Gu! É muito triste realmente ver tanta gente “morrendo” de fome enquanto toneladas de alimentos são jogados nos lixos pelos restaurantes, lanchonetes, supermercados, etc. A gente faz o que pode, doando o que temos a outras pessoas para que seja aproveitado, mas somos apenas um grão de areia na imensidão deste mundo. Bjos.

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    Comentário por Rosana Christofoletti — março 12, 2012 @ 14:33 | Responder

    • Oi Rô. Mas o importante é fazer algo. De grão em grão a gente enche um caminhão. Bjs. Gu

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      Comentário por Augusto Martini — março 12, 2012 @ 14:39 | Responder

  6. Augusto, meu bom amigo!
    Tuas histórias reais me tocam profundamente. O homem sensato é organizado em seus compromissos materiais e escolhe o melhor tempo para servir e meditar. Experimenta o jejum do alimento para valorizar a fome e sentir alegria em ser o educador de si próprio. Nossos pais, nos deixam um legado imensurável de sabedoria e valores morais, hoje já distante do homem contemporâneo. Eu também, fui criada de forma muito simples, e meus pais ensinaram-me a comer de tudo um pouco, e aí se um grãozinho de arroz ficasse no prato. Reciclagem aprendi a fazer com minha mãe que também, e até hoje recria com as sobras do almoço um suflê, bolinho de arroz, enfim…
    Cuidemos de nós, e que todos possam aumentar a consciência intríseca de si mesma, de atos e atitudes, e sobretudo mirando nos exemplos de quem nos precedeu.
    Um abraço afetuoso,
    Hozana

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    Comentário por Hozana Rivello Alves — março 13, 2012 @ 10:14 | Responder

    • Querida Hozana,
      Agradeço pela visita ao blog e belo comentário que fez.
      Que Deus nos dê sempre saúde, força e sabedoria, para que continuemos nossa jornada por aqui.
      Bjs.
      Augusto

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      Comentário por Augusto Martini — março 13, 2012 @ 10:23 | Responder

  7. Como é bom lembrar da infância era muito dificil,mas era gostoso a gente tinha a mãe sempre perto.

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    Comentário por Paula Naitzk — março 31, 2012 @ 21:05 | Responder


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