A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

março 1, 2012

Sobre minha tia/madrinha, o vento e a morte e a casa da mãe Joana

Uma coisa da qual temos certeza é de que um dia morreremos; basta nascermos para começarmos a morrer.

Hoje quero deixar aqui registrado o que a gente as vezes esquece – de como a fragilidade da vida é algo espantoso. Somos seres leves fingindo ter algum peso. Somos leves pesos que podem ser carregados pelo vento. Somos um pouquinho daquilo que chamamos de Deus. A morte, há quem a chame destino, mas eu a chamaria de vida. Vida que só é vida pela morte, vida que só é vida porque é um instante – um instante que insistimos em fingir sermos eternos.

Joana Nathalina Graciolli

Nossa vida é frágil e é por um instante e é assim, como uma leve pena a ser carregada pelo vento. Presos na nossa impotência de controlar o rumo desse vento deveríamos apenas então abrir os braços e nos jogarmos e voar. Mas, somos seres pensantes e fingimos pensar, e inventamos não aceitar que é um instante e muito menos que temos apenas o peso de uma pena frente à potência do universo. E acho que é por isso que dói tanto a morte. E dói também a morte porque ela vem trazer a tona a idéia da fragilidade da vida, e quando a morte de alguém querido acontece, subitamente um pavor toma conta da gente. Pavor de começar a perder todos. 

Minha tia/madrinha, Joana Nathalina Graciolli, que também já foi Martini, pois era irmã de minha mãe e foi casada com um dos irmãos do meu pai, morreu no último dia 17. Minha tia Joaninha, irmã mais nova de minha mãe. Mãe dos meu primos/irmãos muito amados, e como alguém me disse no velório: “Dinho, ela foi sua mãe também”.

As vezes me pego pensando quais rumos o vento vai tomar para carregar nossos leves corpos para esse lugar estranho que é o amanhã. Aí percebo de novo que devemos ter consciência da brevidade que tudo é. E tudo é um fluxo…

Da minha tia guardarei a alegria de viver, sua força, sua luta, sua fé, o amor enorme por seus filhos, netos e bisnetos e por todos nós,  as visitas que fez em meu apartamento aqui em São Paulo, seus comentários deliciosos, seu senso de humor frente às situações mais difíceis e a certeza de que ela sabia desse nosso peso leve (o espírito) e que estava na hora de partir.

Lembrarei dela com os braços esticados à frente e o corpo solto à esse vento que nos leva por deliciosos caminhos.

Te amo Tia Joana. E morrerei de saudade.

Abaixo, deixo um texto lindo, escrito em homenagem à ela e escrito por minha irmã, Tereza.

HOMENAGEM À TIA JOANA – POR TEREZA
 
 
Quero prestar aqui a minha homenagem à minha tia JOANA, uma mulher
forte e guerreira que faleceu dia 27/02/2012.
 
Primeiro quero falar do velório – se é que posso dizer que foi um
velório – e do enterro também. Tudo foi lindo. Teve rezas e orações,
cânticos, e até poema em homenagem a ela, declamado por um sobrinho
neto, uma criança de uns 9 anos. Foi maravilhoso – todo mundo
aplaudiu. E na hora do enterro também teve aplausos – parecia enterro
de celebridade! Muito bonito e emocionante.
 
Quero escrever aqui sobre ela – a tia Joana – ou melhor sobre a casa
da MÃE JOANA, que tem sempre gente que chega e sempre gente que vai..
 
Minha tia Joana sempre foi uma pessoa lutadora, com o coração aberto –
coração muito maior que o mundo! Sempre lutou com a vida para criar
seus seis filhos – SONIA, CEZAR, VIRGINIA, PAULO, EDSON E PAULA.
 
Lembro-me que chegou a morar em um rancho que ficava nos fundos da
casa da minha avó – fez isso para sair do aluguel e levantar,
construir sua própria casa – e nunca vi ela reclamar do aperto – o
rancho era pequeno e dividido em quarto e cozinha. Um espaço minúsculo
para ela e suas seis crianças.
 
O tempo passou. Com a casa coberta e sem acabamentos, mudaram-se.
 
Por coisas inexplicáveis, peças que o destino nos reserva, meu tio
Cesar e ela se separaram. Desse ponto em diante teve que lutar
sozinha. Foi trabalhar de faxineira sem nunca ter saído para trabalhar
fora. Já contava com mais de quarenta anos – foi difícil mas ela
venceu mais essa.
 
Foi sozinha também que acabou de criar seus filhos. Todos eles
estudaram, casaram… Depois chegaram os netos que começaram a vir
para ela criar, porque os filhos tinham que trabalhar – e a CASA DA
MÃE JOANA foi ficando cheia, sempre recebendo a todos com muito
carinho.
 
Alguns filhos que haviam saído após o casamento começaram a voltar
depois que se separavam. Mas ela os ia recebendo sempre com amor.
Acolheu em sua casa até quem não era da família e recebeu de volta
ingratidão. Mas a MÃE JOANA ficou lá firme, muitas vezes se mostrava
um pouco abatida, mas logo, com sua enorme fé, estava reerguida e tudo
ficava bem.
 
Chegou a maldita doença. Foi diagnosticado um enorme tumor no
pâncreas. Mais uma vez se mostrou guerreira, lutando, tratando-se com
tudo e todos os medicamentos possíveis até o fim. Mas, mesmo doente e
internada, nunca deixava de pensar no bem estar dos outros –
perguntava a todo momento se estava tudo bem com seus filhos, netos e
bisnetos.
 
Quinze dias antes do falecimento fiquei com ela no hospital e a Paula
me recomendou  – “fale pra vó” que o Juliano (um dos netos que acabara
de se separar da mulher) está lá em casa e com o menino. E quando
contei ela disse – “Graças a Deus que deixaram ele ficar lá. Não quero
que ninguém do meu sangue fique jogado sem ter onde morar, porque na
minha casa nunca vai faltar um lugar para acolhê-los”.
 
Por isso tudo eu creio que a tia Joana agora está bem. Logo, logo
estará recuperada. E imagino que quando ela estiver em condições, será
levada para um lugar lindo e presenteada com uma grande casa, pintada
de verde e com um lindo jardim de rosas plantado pelo tio Henrique e a
Vózinha. Lá, minha mãe também a estará esperando. Na entrada dessa
casa haverá um letreiro bem bonito onde estará escrito: “LAR DA MÃE
JOANA” – e ela vai continuar recebendo nessa nova casa todos os irmãos
que chegarem aqui da terra e que não tiveram um lugar para se
recuperar. Irá acolhê-los com todo amor e carinho até que possam
seguir seus destinos. Porque na CASA DA MÃE JOANA tem sempre gente que
chega e gente que vai…….
 
Com amor,
 
TEREZA. 

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27 Comentários »

  1. Eu também desejo postar aqui o meu carinho, respeito e admiração por essa nobre pessoa.
    Ela que também me acolheu como um sobrinho e contribuiu para a minha vida ficar mais humana.
    A tia Joana agora é mais uma das Luzes que não tem sombra.

    Um beijo saudoso,

    Alim

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    Comentário por CocarCafeGourmet — março 1, 2012 @ 12:55 | Responder

  2. Maravilhoso…

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    Comentário por Endgy Pizzonia — março 1, 2012 @ 13:08 | Responder

    • Oi Endgy.

      Ela também era sua madrinha, não é?
      Bjs.
      Gu

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      Comentário por Augusto Martini — março 1, 2012 @ 14:02 | Responder

      • ela é sim minha madrinha.

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        Comentário por endgy — março 1, 2012 @ 14:24

  3. “Tia Joana”, certamente, é como aqueles Bons Espíritos que acolheram seus parentes em NOSSO LAR!

    Augusto, parabéns, você já está muito bem acolhido pela sua tia Joana!

    Abraço.

    Silvia

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    Comentário por Silvia Gouvea — março 1, 2012 @ 13:20 | Responder

  4. Augusto,
    Por um instante tive a impressão de que você abriu o teu post de hoje para mim.
    Faz uma semana que me despedi de meu pai depois de um mês muito doente.
    Ele era assim, aquela pessoinha simples de interior que dizia “Ô” ao invés de ‘Sim’,
    professor aposentado de família antiga aqui que todo mundo mundo conhece.
    Você sabe como é.
    Então, por favor, não me deixe ”órfã” do teu blog também , por favor.
    Com o meu abraço de Luz e Paz, sempre, e esta semana, de uma Araras ‘Sahariana’.

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    Comentário por sissi2011 — março 1, 2012 @ 14:30 | Responder

    • Oi Simone. Sinto muito pelo passamento do seu pai. Mas, a vida é assim. Fique bem e pense nele sempre com carinho e rodeado de luz. O calor em São Paulo também está terrível. Abraços. Augusto

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      Comentário por Augusto Martini — março 1, 2012 @ 14:32 | Responder

  5. Posto aqui minha admiração e respeito por essa pessoa iluminada em minha vida: ” TIA JOANA “.
    Certamente está bem agora.
    Saudades…

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    Comentário por Rosana Christofoletti — março 1, 2012 @ 14:43 | Responder

  6. Também quero deixar aqui meu carinho, admiração e respeito pela Tia Joana, sempre de bem com a vida, alegre, sorridente, embora todos a sua volta sabiam das dificuldades que ela tinha , ou passava, sempre estava feliz. Amava sua família, a nossa também, aliás depois que a Vó Maria partiu ela meio que ficou no lugar da vó, e como gostava de estar junto da gente !!!
    Agora em outro plano, creio que estará olhando por nós, junto da Vó Maria, vô Antonioe da Vozinha.
    Vamos sentir saudades !!!!!
    bjusss

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    Comentário por Regiane — março 1, 2012 @ 16:23 | Responder

  7. meu querido, vc me sensibilizou com a historia da “Casa da Mãe Joana”
    não tenho dúvidas da luz que a ilumina
    bjs

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    Comentário por RoPertile — março 1, 2012 @ 16:35 | Responder

  8. muito linda a homenagem…fiquei emocionada, ela era “é” muito especial. Um anjo que agora assumiu seu lugar no céu, e estará com certeza orando e olhando por nós!!!

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    Comentário por Cláudia — março 1, 2012 @ 21:10 | Responder

  9. O que falar dessa mulher MARAVILHA !!!! eu sempre estava junto dela …ela me tratava como uma das suas filhas , minha companheira de tantas horas , ela adorava ir comigo pra SÃO PAULO , na casa do AUGUSTO (meu irmão ) sempre carinhosa com todos nós …pessoa iluminada por DEUS … que hoje está junto DELE …olhando por nós !!!! quanta saudades !!!! minha tia !!!!.

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    Comentário por ivone veronica martin christofoletti — março 1, 2012 @ 22:58 | Responder

  10. Oi Gu… muuuuito obrigado por esta linda homenagem a minha avó, mãe e madrinha querida!!! … ela nos deixa com o coração repleto de saudades… tenho a certeza de que um dia vamos nos reencontrar… meu amor é ETERNO por esta pessoa linda!!! … as boas lembranças para sempre ficarão… e do meu coração ela jamais sairá… minha mãezinha… quanta saudade…

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    Comentário por Luciana Cruz — março 1, 2012 @ 23:32 | Responder

  11. Oi Gusto,

    Que lindo! Senti em cada palavra o amor que todos tinham por tia Joana.
    Passei a fazer parte da vida dela e me senti próxima todas as vezes que comentávamos sobre ela.
    Tenha certeza que Deus em sua infinita bondade a recebeu de braços abertos..
    Um dia meu querido, quando Jesus voltar estaremos todos juntos novamente como uma grande família e ai não existirá doença, dor ou pranto somente a alegria da salvação.
    E que assim seja! Leia João 23.

    Cada um que acolhemos, seja no coração, no nosso lar, acolhemos Jesus, pois é assim que o Senhor nos ensina: “Amar uns aos outros”

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    Comentário por Magali Fernandes de Araujo da Silva — março 2, 2012 @ 13:15 | Responder

  12. a ETERNA JOANA

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    Comentário por A ETERNA JOANA — março 3, 2012 @ 9:37 | Responder

  13. maravilhoso /lindo/sentiremos muita saudades da vozinha querida ”joana”te amaremos para sempre.

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    Comentário por ana — março 4, 2012 @ 11:51 | Responder

  14. Augusto, querido amigo!
    Bem-aventurados os que semeiam amor, luz, alegrias, fé, e sobretudo todos os homens e mulheres que nessa caminhada são indulgentes, caridosos, e tornam-se pessoas melhores ao mesmo tempo produzem frutos. Todo homem de bem que recebe a semente entre os espinhos, é o que ouve a palavra e exercita os ensinamentos de Jesus, nosso doce e meigo Rabi da Galiléia.
    Muita paz, força e luz à você e familiares.
    Que Deus te cuide de montão.
    Um abraço.
    Hozana

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    Comentário por Hozana Rivello Alves — março 13, 2012 @ 11:14 | Responder

  15. Muito obrigado Gú!Pelo carinho,é dificil mas eu sei que minha mãe esta bem,ela foi um exemplo de Mãe,vc sabe disso.Como é dificil ficar sem ela.

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    Comentário por Paula Naitzk — março 31, 2012 @ 21:09 | Responder


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