A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

janeiro 9, 2012

Os segredos dos contadores de histórias

Trabalho há poucos metros do Sesc Carmo e lá, na hora do almoço, sempre tem alguma coisa interessante para ver. No dia 25 de novembro do ano passado, às 12h, vi que música e literatura são artes que caminham lado a lado. A série Letras Perambulantes, uma das atividades do mês de novembro e que aconteceu em todas as sextas-feira do mês e durante a Semana da Consciência Negra, apresentou “História e Contos Afro-Brasileiros”.  No dia acima citado, duas contadoras de histórias cantaram e contaram histórias e mitos afro-brasileiros de forma itinerante pela unidade Sesc. Foi algo singular!

Lembrei muito de um quadro do Castelo Rá Tim Bum da TV Cultura, onde apresentavam histórias assim:

Isso me fez recordar de uma reportagem que li na Revista Nova Escola, acho que há uns 5 ou 6 anos atrás, a qual abordava a arte de contar histórias. O texto abaixo foi adaptado dessa matéria. Ele aborda a experiência de professoras de São Caetano do Sul que com a contação de histórias despertaram em seus alunos o gosto pela leitura.

Quando Enrica nasceu, na cidade de Belém do Pará, as mulheres ainda usavam vestidos compridos, lindos. Os pais da menina eram imigrantes europeus. Ela era lindinha, mas levada. Por pura rebeldia, Enrica resolveu fugir de casa com Idalina, garota escrava, sua grande companheira. Idalina contara a Enrica a lenda do boto do rio…”A história sobre o animal que se transforma num belo moço, adaptada do livro Mata: Contos do Folclore Brasileiro, de Heloísa Prieto, foi contada por Vivian Munhoz Rocha aos alunos da 3ª série da Escola Villare,em São Caetanodo Sul, na Grande São Paulo. Enquanto ouviam a voz vibrante da professora, os pequenos pareciam viajar para um mundo distante.

Contar histórias é uma arte!

Contadora de histórias desde 1998, com mestrado na área, Vivian afirmou para a reportagem da Nova Escola que seu desafio é cativar crianças acostumadas às linguagens dinâmicas da TV e do videogame. “É necessário mergulhar no que está sendo contado para criar além do texto e enriquecer a atividade atraindo os ouvintes”, explica. Ela faz questão de que a atividade seja parte da rotina escolar e não entre somente como um tapa-buraco. A narração proporciona experiências lúdicas e de aprendizado pelo contato que os alunos têm com a tradição da palavra falada e as diferentes culturas por trás das narrativas. “Quando eu gosto da história, vou pegar o livro para ler depois”, contou um aluno. 

Ainda, na reportagem, diz que a invenção da imprensa, a narrativa oral perdeu o status de principal maneira de transmitir saberes. No entanto, há sociedades – como as indígenas – que durante séculos utilizaram apenas a palavra falada para manter sua cultura, geração após geração. Sabe-se hoje que cada forma de passar o conhecimento tem funções diferentes. O livro é valorizado como objeto e veículo de aprendizagem, e o texto escrito se apresenta como uma forma de arte própria, que estimula o domínio de uma técnica diferente daquela utilizada ao falar. Já no ato de contar histórias, ressaltam-se o improviso, a cultura constituída na língua do dia-a-dia e a interação com o público. Um não é melhor que o outro. “Ler e contar podem igualmente ser seqüências monótonas de palavras que não produzem um efeito significativo se quem narra não imprime vivacidade e veracidade à cadência da história”, aponta Regina Machado, contadora de histórias e professora da Universidade de São Paulo.

PASSO A PASSO Para cativar a platéia com a contação de histórias

Gilka Girardello, professora da Universidade Federal de Santa Catarina, dá orientações a quem quer se tornar craque na contação de histórias.

  • Faça uma seleção de títulos que despertem em você a vontade de passá-los aos alunos. É importante abrir o universo deles para diferentes narrativas, com temas como a vida e a morte, nossa origem e a humanidade, além de mitos.
  • Para se familiarizar com a narrativa, treine contando para amigos e familiares
  • Comece a narrar para grupos menores, enquanto você conhece as suas possibilidades. Reúna os ouvintes em roda para que eles se sintam próximos de você.
  • Escolha recursos, como desenhos, bonecos, músicas e movimentos de dança, com os quais você se sinta mais à vontade.
  • Use elementos expressivos, como imitação de vozes e movimentos com as mãos (estalar de dedos e palmas). Empregados na hora certa, eles fazem a diferença.
  • Imagine os detalhes de todas as cenas e descubra a melhor maneira de entoar cada trecho (sem se preocupar em decorá-las).
  • Preste atenção em alguns refrões ou frases de impacto que podem ser repetidos sempre do mesmo jeito – porque são bonitos ou soam bem.
  • Quanto mais a história for contada, maior o número de novas imagens que são incorporadas a cada cena. Esta é a peculiaridade da oralidade: cada um recria o conto.
  •  Projete a voz na sala e amplie os gestos para que o público não se disperse. Quando o enredo pedir um tom mais suave, todos entenderão o recurso e farão silêncio para ouvir.
  • Antes ou depois da narração, conte de onde vem a história: de um livro, de um filme, da mitologia grega ou se aconteceu com alguém conhecido. Assim, a turma fica sabendo que também pode passá-la adiante.
  • Ignore as peraltices de alguns e conte a história para o resto da classe. Se alguma coisa que os bagunceiros fizerem permitir, vale incorporá-la à performance, sem quebrar o clima da história.
  • Contar histórias sempre envolve alguns imprevistos. O importante é não ter medo. Geralmente, as crianças querem que a narração prossiga. Então, elas vão ajudar você.

DÉBORA DIDONÊ

Ouvir e contar histórias…

  • Desenvolve a imaginação.
  • Resgata a cultura oral e incentiva a escrita.
  • Proporciona momentos lúdicos e de interação.

 Quer saber mais?

CONTATOS

Escola Villare, R. Piauí, 876, 09541-150, São Caetano do Sul, SP, tel. (11) 4229-5253

EM Vereador Carlos Pessoade Brum, R. da Abolição, s/no, 91790-130, Porto Alegre, RS, tel. (51) 3250-1698

BIBLIOGRAFIA

  • Acordais – Fundamentos Teórico-Poéticos da Arte de Contar Histórias, Regina Machado, 232 págs., Ed. DCL, tel. (11) 3932-5222
  • A Palavra do Contador de Histórias, Gislayne Avelar Matos, 203 págs., Ed. Martins Fontes, tel. (11) 3241-3677
  • Mata: Contos do Folclore Brasileiro, Heloísa Prieto, 64 págs., Ed. Companhia das Letrinhas, tel. (11) 3707-3500
  • Magia e Técnica, Arte e Política, Walter Benjamin, 256 págs., (capítulo O Narrador), Ed. Brasiliense, tel. (11) 6198-1488
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7 Comentários »

  1. adorei augusto.
    eu sempre gostei de contar estórias e ler para meus filhos.
    agora que cresceram tento atraí-los para algum assunto,pego uma revista e leio,depois debato com eles.
    mas a magia de entrar na estória e fazer a voz do personagem, ahhhh é disso que eu sinto falta!

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    Comentário por coisadelillylilly — janeiro 9, 2012 @ 17:17 | Responder

  2. O MUNDO PRECISA SER MAIS HUMANO AS HISTÓRIAS CONTADAS E OUVIDAS ENSINAM MUITO. OBRIGADA AUGUSTO MARTINI PELO TEXTO MARAVILHOSO..

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    Comentário por Rose — janeiro 11, 2012 @ 9:30 | Responder

  3. A PRINCESA E O SAPO

    HERANÇA MA-RA-VI-LHO-SA DOS PRIMEIROS CONTADORES DE HISTÓRIAS DO CASTELO RÁ-TIM-BUM.

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    Comentário por Rose — janeiro 11, 2012 @ 11:03 | Responder

  4. Tive a oportunidade de conhecer as contadoras de histórias do Sesc do Carmo, uma delas além de contar a história tocava violão, elas interagiam entre si e com os ouvintes, no dia a história era sobre a criação do mundo e de Adão e Eva, que elas adaptaram a cultura africana, com seus deuses e mitos.

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    Comentário por Emília — janeiro 11, 2012 @ 12:30 | Responder


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