A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

setembro 11, 2011

Brasil, corrupção, apatia e a falta de indignados

Li hoje no El País um artigo do Juan Arias, correspondente do jornal no Rio De Janeiro, cujo título é  “¿Por qué Brasil no tiene indignados?” Gostei e fiz a adaptação que segue abaixo.

Os brasileiros não sabem reagir à hipocrisia e falta de ética de muitos daqueles que os governam? Não se incomodam que os políticos que os representam no Governo, no Congresso, nos estados ou municípios, sejam descarados sabotadores do dinheiro público? É o que muitos se questionam.

http://juanbermejomajoral.blogspot.com/2011/05/indignados-en-espana.html

Juventude espanhola indignada se manifesta para reclamar uma política melhor e para poder ter uma vida mais digna.

Até agora, poucos foram os jovens, trabalhadores e estudantes que apresentaram uma pequena reação à corrupção daqueles que os governam. Curiosamente, a pessoa mais irritada com o roubo dos recursos públicos por políticos parece ser a presidenta Dilma, que tem demonstrado publicamente o seu desagrado pelo descontrole que acontece em áreas de seu governo.

A imprensa noticia que Dilma começou a desfazer-se de uma “herança maldita” dos hábitos da corrupção que vem do passado. Mas, por que o povo nas ruas não lhe faz eco ressuscitando o movimento dos indignados? Por que não se mobilizam as redes sociais? Os brasileiros, após a ditadura militar, foram às ruas por causa das “diretas já” e para exigir o retorno às urnas, um símbolo da democracia. Assim o fez para forçar o presidente Collor a abandonar o cargo diante das acusações de corrupção. Mas hoje o país está mudo diante da corrupção em curso. As únicas causas capazes de levar para as ruas dois milhões de pessoas são a dos homossexuais, dos seguidores de igrejas evangélicas e daqueles que pedem a liberalização da maconha.

Será que os jovens não têm nenhuma razão para exigir um Brasil não só cada dia mais rico (ou menos pobre), mais desenvolvimento, com maior força internacional, mas também com menos corruptos nas suas esferas políticas, mais justo, menos desigual, onde um vereador não ganhe até dez vezes mais do que um professor e um deputado cem vezes mais, e onde um cidadão comum após 30 anos de trabalho, se aposente com 650 reais, enquanto alguns funcionários públicos se aposentam até com 30 mil reais?

Em breve o Brasil será a sexta maior economia do mundo, mas por enquanto ainda está bem atrás na fila em termos de desigualdade social e direitos humanos. É um país onde as mulheres não estão autorizadas a fazer um aborto, onde o desemprego dos negros atinge 20%, contra 6% dos brancos, e a polícia é uma das mais violentas do mundo.

Há aqueles que dizem que a apatia dos jovens se dá pelo fato de que uma propaganda bem sucedida os convenceu de que o Brasil agora é invejado por todo o mundo (e é em outros aspectos). Ou que a saída de 30 milhões de pessoas da linha de pobreza as levou a acreditar que tudo está bem, sem entender que um cidadão de classe média européia equivale a um rico daqui.

Outros apontam o fato de que os brasileiros são um povo pacífico, pouco dado aos protestos, que gostam de viver felizes com o que possuem, e que o lema que ali impera é que trabalham para viver e não vivem para trabalhar. Isto também é verdade, mas ainda não explicam por que, num mundo globalizado, onde você sabe instantaneamente o que está acontecendo no planeta, começando com os movimentos de protesto de milhões de jovens pedindo democracia ou que a acusam de estar degenerada, os brasileiros não lutem para que o país, além de ser o mais rico, seja também mais justo, menos corrupto, mais igualitário e menos violento em todos os níveis. Assim é o Brasil que os honestos sonham para deixar para seus filhos, um país onde as pessoas não perderam o gosto de desfrutar o pouco ou muito que têm e que seria ainda melhor se surgisse um movimento de indignados, capaz de limpar a escória de corrupção que atingiu todas as esferas de poder.

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17 Comentários »

  1. Um outro exemplo de indignação….veja que paradoxo deste último levantamento: “No futebol, o Brasil ficou entre os 8 melhores do mundo e todos estão tristes. Na educação é o 85º e ninguém reclama…”

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    Comentário por Alim soares — setembro 11, 2011 @ 22:38 | Responder

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  7. bom dia!
    um excelente texto para enviar aos alunos e incentiva-los e se perguntar: porque eu não me revolto com estas situações?

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    Comentário por lilly — setembro 12, 2011 @ 12:09 | Responder

  8. Realmente, os jovens brasileiros hoje estão totalmente adormecidos para a política, e não se envolvem com movimentos como esses da Espanha, da Grécia, da Itália, os “panelaços” na Argentina e tantos outros..
    A bandalheira na política é tamanha, que se criou uma verdadeira aversão, do tipo: “não quero nem saber…”, o que só beneficia os corruptos. Com exceção da liberação do aborto, assino embaixo: É preciso que haja um novo despertamento, assim como em 83, no movimento “diretas já” e em 92, com os “caras pintadas”: É preciso indignação, mostrar a cara, sair pelas ruas, em movimento pacífico, mas organizado e determinado, com o envolvimento de toda sociedade.

    José Antonio
    Jales-SP

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    Comentário por José — setembro 12, 2011 @ 12:45 | Responder

  9. Excelente texto! Bom, penso que nosso pouco grau de indignação é resultado da nossa formatação enquanto País, explorado como terra de ninguém. Pouca prática democrática, ausência da sociedade nos principais fatos de nossa história: independência, República…além dos regimes ditatoriais – Estado Novo e Militar. Enfim, estamos engatinhando em participaçãp social, mas vamos chegar lá, com certeza!

    Bjs

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    Comentário por Imaculada — setembro 12, 2011 @ 13:23 | Responder

  10. Olá Augusto, sou aluna do DEF 19, e gostoria de comentar que a indignação da população existe, mas não a reação. Isto, de certa forma, tem sido comentado no fórum do curso.
    Brasileiro não tem cosciência política firme, mesmo por quê, a repressão ainda existe nas entrelinhas.
    Recentemente, houve uma greve por baixos salários no meu trabalho, e, foi determinada pela Administração, a suspensão de abonos de falta. A greve não teve sucesso! Silvia

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    Comentário por Silvia Gouvea — setembro 12, 2011 @ 14:18 | Responder

  11. Infelizmente vivemos em um país onde as pessoas não tem o mínimo de educação, me refiro a educação cotidiana, quantos dão seus lugares aos mais velhos em transportes públicos(muitos fazem de conta que estão dormindo) chamo isso de pequenos “golpes” do dia-a-dia no país do jeitinho, e olha me refiro a ceder lugar ao mais velho, não só nos bancos que lhes são reservados o correto seria oferecer seja qual banco/assento for!!! Acho que estou querendo demais porque nem os assentos que lhes são reservados estão disponíveis para os idosos, muitos jovens ali se acomodam e ficam com cara de paisagem sem dar a mínima para o idoso que está em pé na condução. Ainda vivemos a cultura de levar vantagem, se eu não sigo os direitos e deveres(em especial os Deveres) básicos do cidadão vou cobrar o quê da classe política? Com que moral???

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    Comentário por Emi — setembro 12, 2011 @ 16:39 | Responder

    • Oi Emilia.

      Concordo com vc, mas também acredito que precisamos assumir e cobrar responsabilidades. Gosto muito de uma citação do Roberto Campos, que diz que não é o governo nem a abstração “Estado” que nos fazem cidadãos. Temos de sê-lo por nossa própria conta, decidindo, arregaçando as mangas, e assumindo as responsabilidades. As nossas deficiências sociais só vão ser corrigidas quando nós mesmos começarmos a agir. Naturalmente, obrigando também os governos a funcionar. Mas é muito bom que eles aprendam a ter mais medo de nós do que nós deles. Beijos e agradeço pela visita. Augusto

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      Comentário por augustomartini — setembro 12, 2011 @ 17:03 | Responder

      • No Programa Manhattan Connection o sempre polêmico Diogo Mainardi disse algo interessante: “é importante que cada governo tenha sua oposição”. Ninguém deve governar ao seu bel prazer, tem que existir uma oposição responsável e que fique ali no pé cobrando. É prá isso que votamos e queremos ser representados por políticos engajados nos interesses nacionais. Aqui no Brasil a classe política se coloca acima do Bem e do Mal, acho que por isso boa parte dos brasileiros se sentem enganados e descrentes e em consequência desmotivados diante de tanta impunidade. Felizmente não tive que pagar para o governo, mas vou receber minguados valores de minha restituição do IR, tenho certeza que faria melhor uso do Meu Rico e Suado Dinheirinho.

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        Comentário por Emi — setembro 13, 2011 @ 0:15

      • Oi Emilia.

        É minha amiga – apesar da atual mobilização em busca de apoio às ações da presidenta Dilma contra a corrupção em seu governo, há uma grande “apatia política” na sociedade. Para o cientista político Hely Ferreira, uma das causas para esta apatia é o fato de terem surgido várias e diferentes denúncias de corrupção nos últimos tempos. E junto a isso tudo, há ainda a questão de boa parte dos envolvidos sairem impunes. Iss tudo faz o assunto parecer banal. Bjs. Augusto

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        Comentário por augustomartini — setembro 13, 2011 @ 12:01

  12. Seguindo essa mesma linha de pensamento, vejam esse texto do Gaudêncio Torquato, publicado no Estadão em 16.08.2000.

    Procura-se a verdade

    A verdade está perdida. Quem a encontrar, por favor, comunicar ao setor de consciência da cidadania, cujo endereço se está tornando cada vez mais ilegível pela corrosão dos valores do caráter nestes tempos de banalização das idéias e enxovalhamento das instituições. Esse poderia ser o mote para uma campanha nacional pela moralização da palavra e refundação da política, pois nunca se viu tanta irresponsabilidade dos atores sociais quanto no ciclo de destempero verbal, narcisismo e arrogância que estamos vivenciando.

    A verdade, já dizia Brecht, tem cinco lados: a versão de quem diz, a de quem ouve, a das circunstâncias, a dos canais de transporte e a da própria combinação desses elementos. A verdade balanceada da última hipótese é a que mais se aproxima do ideal. Não é o que vemos no País, onde a verdade de quem diz fica brigando com a verdade de quem nega.

    Afinal de contas, o que está por trás da algaravia que tomou conta da locução nacional? A resposta mais brusca aponta para a esteira negativa:

    irresponsabilidade, leviandade, sensacionalismo, hipocrisia, oportunismo, vaidades, luta de grupos e, claro, corrupção, muita corrupção. Uma resposta meditada indica outros componentes, mais fortes, que estão localizados na origem da cultura de emboscadas que impregna a vida nacional. O primeiro elo da cadeia é a fragilidade das instituições. Um país com 1 milhão de leis, como o nosso, exprime a inexorável situação: somos exímios na arte de criar cultura por decreto, ou seja, querer remendar o erro com palavras. E, como as leis não são cumpridas e a Justiça é tardia, a impunidade campeia. A instituição jurídica fica maculada. A instituição política introjeta-se dos costumes patriarcalistas das capitanias hereditárias, enraizados na alma de grande parcela de seus representantes. Passa a ser desacreditada.

    A instituição governamental, por sua vez, administra um espólio com herdeiros que brigam por fatias maiores. As moedas de troca no balcão das recompensas a tornam refém de permanente instabilidade. As conseqüências não poderiam ser outras senão a degradação de valores, a banalização dos costumes, a estandardização dos comportamentos, o arrefecimento das doutrinas e a quebra dos compromissos. O cenário seguinte é previsível: a espetacularização da política e a marketização das linguagens.

    Em função da fragilidade das instituições políticas e jurídicas, da escassez de autoridade e disciplina e do alargamento da impunidade, cresce o papel da mídia, que passa a ocupar, mesmo que precariamente, a função de promotor, juiz, controlador social. Não é o que fazem, por exemplo, programas televisivos de apelo demagógico-populista? Surge, então, uma midiapolítica, que é a política pautada pelos meios de comunicação. Por seu espaço fluem as vaidades, os apelos fáceis, as linguagens manchetadas. As fontes passam a expressar aquilo que a imprensa, de maneira preconcebida, pauta e determina.

    A substância perde para a forma. A versão suplanta a verdade.

    O reducionismo de conceitos e perfis operado pela mídia acaba fertilizando o terreno da leviandade. E, sob a ilusão de estarmos pertinho de apurar a verdade, cada vez mais longe dela ficamos. O repertório de falas a que vamos assistir, a partir desta semana, na programação eleitoral da TV e do rádio será mais um exemplo do ficcionismo na política. A telegenia – a boa apresentação na TV – dará o tom de candidatos. Eles estarão sujeitos a diretores de consciência que lhes dirão como se comportar. Seremos submetidos a uma torrente de mentiras. Aparecerão propostas mirabolantes. E candidatos-polvos, que desprenderão nuvens de tinta para sujar a água e evitar o ataque de adversários. Sobre alguns se dirá: o homem tem boa-fé. E de que adianta? Um nazista de boa-fé será sempre um nazista. Canalhas autênticos não passam de canalhas: de que adianta sua autenticidade?

    E assim caminha o País, tateando nas ruelas das dúvidas, cambaleando nas avenidas das emboscadas, tropegando no labirinto da irresponsabilidade, expressando linguagens rasteiras. Não por acaso, a diversão nacional é a “pegadinha”, a mania do deboche, a mentirinha rotineira, a invasão de privacidade, a ma-fé. O Brasil está vivendo o esplendor de seu exercício de fuga. E se esconde por trás de uma grande metonímia: o riso passa a substituir o choro.

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    Comentário por Augusto Martini — setembro 12, 2011 @ 17:16 | Responder

  13. Augusto, os jovens precisam acordar. Temos que continuar a vestir a camisa e não desistir. O que será do futuro se continuarem nessa maresia?
    Acredito que cada um pode fazer a diferença… basta querer!

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    Comentário por Ivana Mazzini — setembro 13, 2011 @ 1:24 | Responder


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