A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

setembro 4, 2011

Fuente de los candados, Calle de los Suspiros – selando uma linda história de amor

Nunca pensei que escrever um blog pudesse trazer tão gratas surpresas. Logo a seguir poderão comprovar isso. No ano passado escrevi um post sobre La Fuente de los Candados, que está em uma das principais ruas de Montevidéu. No texto deixei claro que sou daquelas pessoas que ainda acreditam no amor.

Funte de los candados - Montevidéu - Uruguai

Muitas vezes o amor é caprichoso e pode demorar a se mostrar. Alguns já estão tão cansados de procurá-lo por terem tido muitas desilusões, que não podem suportar a idéia de amar de novo. Mas, amar é necessário e uma hora ou outra é preciso parar de sufocar aquilo que há de mais belo por causa do medo.

Acreditar no amor exige coragem. Às vezes nos encontramos absolutamente cansados, prontos para desistir de lutar, desejosos de que o amor acabe e a vida possa seguir sem mais perturbações do coração. Mas não podemos nos deixar abater e temos que seguir adiante. O amor é a preservação da vida, não da própria, mas da vida de quem se ama. É pensar no outro antes de si, e assim, quando amamos e somos amados, nos esquecemos de nós e ainda assim somos felizes, porque há alguém olhando por nós, fazendo uma prece singela e silenciosa por nossa felicidade.

E aqui segue a comprovação a que me referi na primeira frase desse texto. Hoje pela manhã, ao abrir meu e-mail, estava a bela mensagem abaixo, escrita por José, a qual me emocionou demais e tanto que pedi a autorização dele para postar aqui no blog. Vejam que linda história e que privilégio tem a família dele ao ter um marido, pai e avô com tal sensibilidade.

Em 1996 eu estava as portas de completar 40 anos, e de repente, me vi separado pela segunda vez. Diferentemente da primeira separação, quando eu havia tomada a iniciativa de terminar meu casamento, desta vez eu havia sido abandonado. Pela segunda vez, meu casamento não havia suportado a famosa “crise dos 7 anos”, tão comum a tantas uniões, quando os casais vêem a paixão inicial se desfazer, e cada uma das pessoas resolve seguir por caminhos diferentes. E como se não bastasse tantas crises na minha vida, eu ainda estava bem no meio de outra, a chamada “crise dos40”. Havia chegado à maturidade, totalmente perplexo diante da vida, embasbacado – para não dizer apavorado – com o rumo que minha vida havia seguido. Sozinho, dentro de uma casa onde eu era o único ser a habitá-la, olhei-me num espelho enorme que havia no corredor entre meu quarto e a sala da residência, e vi um ser que nem eu mesmo conhecia. Sentia-me totalmente desamparado, nu, desolado, e portando na alma uma dor tão intensa como se um dardo tivesse me atravessado o peito. Justo eu, que pensara ter encontrado no meu segundo casamento a realização de meus anseios de amor. Porque amor, para mim, na hierarquia de meus valores, sempre ocupou a posição principal, antes de qualquer outra coisa. Vi a paixão inicial ir se desfazendo aos poucos, e, por mais que percebesse os sinais evidentes de um amor que agonizava, não conseguia fazer nada para impedir a deterioração de meu casamento. Ainda assim, amava a mulher com quem eu estava casado, a tal ponto que, ao perdê-la, senti o chão me faltar sob meus pés.

O amor não é algo unilateral; tem dois personagens e ambos são os responsáveis, tanto pela sua construção, como pela sua desconstrução. A atitude de um promove a reação do outro, seja positiva ou negativamente. Independente de procurar a culpa de cada um, eu percebi, então, que a profundidade do amor, sua real intensidade, somente pode ser medida na hora em que a separação acontece.

Eu havia perdido o suposto amor de minha vida, e sentia esta perda de uma forma insuportável, e tão brutal, que a dor passara a fazer parte de meu cotidiano, instalada diretamente em minha alma, Era tanto, que meu corpo doía de saudades da pessoa amada.

Mesmo que eu não houvesse cuidado desse amor, ainda assim, amava aquela que me deixara.

Foi preciso muita terapia e muitos amores para poder suportar o imenso vazio que eu passara a carregar dentro de mim. Passara a achar que amor era apenas algo químico, nada além de uma combinação de hormônios que nos motiva quando nos apaixonamos, e que tem um tempo determinado para durar. A lista de novos amores foi crescendo, e cada mulher por quem me interessava me fazia sentir isto num momento inicial, que depois se desvanecia, porque na realidade eu buscava, em cada uma delas exatamente aquela que eu havia perdido. Havia paixão, sexo, mas nenhuma disposição de realmente amar, pois a dor que eu carregava permanentemente dentro de mim não me possibilitava a entrega que o amor exige. Eu havia desaprendido a amar.

Então, quase dois anos depois conheci uma jovem mulher, 21 anos mais nova, que havia saído recentemente de um casamento muito ruim. Desde que eu havia posto meus olhos nela senti que não era nem um pouco parecida com qualquer outra que eu havia conhecido. Ela havia mexido comigo, tanto que havia passado a ser importante para mim.  E desde que nossa história começou, percebi que o amor que ela sentia por mim era sincero e real. Mas eu já estava machucado por dentro, de tal forma que não conseguia amá-la da forma como ela merecia, pois a ferida que eu tinha dentro de mim ainda não havia cicatrizado. Eu a queria, mais do que tudo na vida, sentia que meu amor por ela era real, mas não me possibilitava amar novamente, depois do prejuízo emocional de um segundo casamento desfeito. Amar é uma entrega total, eu não possuía mais esta capacidade. E por conta disso, muitas vezes nos separamos. Eu a queria, mas não suportava mais a dependência do amor. Sentia amor por ela e a temia ao mesmo tempo, pois ela tinha despertado em mim novamente o desejo de querer alguém, e isto me apavorava. E assim, seguíamos entre idas e vindas, separações e vários recomeços, entre o querer amar, e o medo paralisante.

Um dia, depois da quinta separação, e sete anos mais tarde, acabamos nos casando. Mesmo assim, na hora de assinar os documentos no cartório, ainda sentia a alma repleta de dúvidas, embora enxergasse nos olhos de minha mulher a certeza do amor que ela sentia por mim e a incondicional capacidade de se entregar sem a mínima defesa. Ela era integra em seus sentimentos.

Foi necessário um aprendizado intenso para reaprender o que verdadeiramente significa amar: entrega completa, sem nenhuma reserva. Entrar dentro da relação com a alma inteira, sem deixar nada do lado de fora. Isto não é uma coisa fácil, quando se sofre uma decepção de amor, porque a entrega nos coloca totalmente indefeso diante do outro, e este passa a ter a possibilidade, de fazer conosco o que bem quiser. E ai é que reside a responsabilidade do amor, porque quem se entrega totalmente, está a mercê do outro, que nos pode ferir quando bem entender.

Hoje, amo esta mulher incondicionalmente, sem defesas, sem subterfúgios. Ela teve uma paciência incomum comigo, e as vezes me pergunto como foi possível não perde-la, diante de tantas indecisões pelas quais passei.

Estamos juntos a quase 15 anos, temos 2 filhos dessa união (tenho mais 4 de meus outros casamentos), estou aposentado, e tenho 2 netos.

Recentemente fizemos uma viagem ao Uruguai, uma segunda lua-de-mel. Poucos dias antes da viagem, havia em mim um desejo intenso de que alguma coisa durante nosso passeio acontecesse, algo que pudesse fundamentar o amor que eu sentia por ela. Muitas vezes, no início de nosso casamento, eu percebia certa frustração nela e uma insegurança quanto ao que eu sentia. Seus ciúmes eram intensos, e muitas vezes brigávamos por coisas que eram completamente frívolas. E dentro de mim estava iminente que o motivo não passava apenas do fato de que eu não a amasse realmente, o que não era verdade. Apenas eu não tinha a capacidade de lhe passar aquela segurança que todo ser humano que sentir em relação ao amor de seu companheiro.

Havia em mim o desejo de que alguma coisa inusitada ocorresse, e em minha imaginação, poderia ser um fato qualquer, como a idéia de uma velha cigana que de repente surgisse do nada, em meio a uma rua qualquer, e nos parasse para ler nossas mãos, revelando que portávamos em nossos corações um amor grandioso, desses que duram não só a vida inteira, mas muito além da morte.

Deixamos os filhos menores aos cuidados da avó, e partimos, pela primeira vez depois de muitos anos, em uma viagem sozinhos. Íamos pelo caminho, cheios de amor, para um país que não conhecíamos e dentro da alma de cada um dos dois expectativas múltiplas.

Passamos todo o litoral do Uruguai, maravilhados com as praias, e fomos até Montevidéu. Na nossa última noite lá, saímos para jantar, e como não estávamos tão famintos, resolvemos entrar num café na Avenida 18 de julho para comer algo mais frugal, depois de passarmos alguns dias experimentando as carnes saborosas tão típicas da culinária local.

Antes que entrássemos no café, passamos por uma fonte, que já havíamos cruzado uma vez sem perceber realmente do que se tratava, quando de repente minha mulher disse-me, espantada:

-Olhe só quantos cadeados.

Foi como se um raio tivesse me atingido. No mesmo instante percebi do que se tratava, pois já havia lido a respeito, porém nem me lembrava mais de que estava localizada em Montevidéu. Estávamos diante da “Fonte dos Cadeados”, onde muitas pessoas colocam cadeados presos à fonte, simbolizando um compromisso de amor para o resto da vida. Sentimos-nos como duas crianças, dando voltas em torno da fonte, examinando detidamente cada um daqueles cadeados que foram colocados lá. Estávamos fascinados. Algum tempo depois, dentro do café em frente, havia uma agitação dentro de nós dois que perdurava. Algo surpreendente tinha acontecido conosco. Percebíamos um no olhar do outro, uma agitação dentro de cada um de nós, e uma magia no ar que tomava conta de tudo a nossa volta. Sabia o que se passava na mente dela, e ela também sabia o que se passava a na minha. Depois de comermos, voltamos ao hotel em que estávamos, embalados pela idéia de deixarmos na fonte um cadeado com nossos nomes, e gravado nele uma promessa de amor.

Achar o cadeado foi relativamente fácil, mas tive que caminhar muito até achar uma casa de gravações, onde pudessem fazer a inscrição de nossos nomes nele, além de uma jura de amor eterno, o que levaria ainda um bom tempo. Finalmente, com o cadeado gravado, deixamos o carro estacionado numa rua, e fomos a pé até a fonte dos cadeados, e lá deixamos o nosso, registrado com fotografias e beijos.

Foi um momento maravilhoso, que nos deu a sensação de termos escolhido o lugar certo para visitar em nossa viagem.

Calle de los suspiros - Colonia del Sacramento - Uruguai


Embora feliz, eu sentia que a missão ainda teria de ser completada de alguma forma misteriosa que eu não sabia. Seguimos viagem para Colonia de Sacramento, que eu tinha vontade de conhecer por motivos históricos. E para nossa surpresa, descortinou-se a nossa frente uma cidade pequena, repleta de uma sensação de volta no tempo, cheia de ruazinhas estreitas, e belos prédios antigos. Lá, no dia seguinte, passamos pela “Calle de los Suspiros”, uma ruazinha encantadora e misteriosa, cuja história é cercada de lendas. Uma delas diz que lá morreu uma jovem, que numa noite foi morta por um mascarado que a apunhalou, enquanto aguardava encontrar-se com seu amor. Antes de morrer, seu último suspiro foi de amor pelo homem amado que nunca mais a veria.

A magia que nos havia encantado na fonte dos cadeados ainda embebedava nossos corações, e decidimos que, na nossa última noite em Colonia de Sacramento, iríamos até esta rua depositar nossas juras de amor iniciadaem Montevidéu. Deixamoso carro em uma praça, descemos abraçados e em silêncio a Rua dos Suspiros, levando nas mãos uma garrafa de vinho espumante. Não havia ninguém na rua naquele momento, e o único som que ouvíamos, além de nossos passos sobre as pedras de cantaria, vinha das ondas do rio dela Platabatendo nas muralhas da “vieja ciudadela”.   Ali, no frio da noite, tendo somente as estrelas por testemunha, tomamos um pouco de vinho, e escondemos uma das cópias da chave do nosso cadeado em um local secreto, e despejamos o restante do vinho sobre ela. Ajoelhado sobre as pedras, fiz minha promessa de amor, segurando a mão de minha bela esposa. Voltamos para o Brasil na manha seguinte, com as duas chaves restantes, que guardamos em nossa bagagem, plenos de uma sensação de missão cumprida.

Foi uma viagem maravilhosa, onde fui surpreendido por momentos irreais, e fantásticos e uma emoção inesquecível. Fui tomado de uma felicidade que jamais havia sentido antes em minha vida, que vem da capacidade de aprender a amar novamente, despojado do temor da entrega total a uma mulher, da doação integral de minha alma e meu coração a uma mulher. Lá, tive a certeza de ter encontrado o meu amor definitivo, e sei que em nenhum mundo, ou tempo, neste ou outro, possa existir alguma outra pessoa com a qual eu pudesse querer partilhar a minha vida.

Sei que o amor não acontece para todas as pessoas. Como no poema de Drumond, “temos que estar atentos para quando ele aparecer em nossas vidas, reconhecer os sinais do amor quando ele acontece, prestar atenção”.

 Tenho por esta mulher um amor tão grande e tão forte, que o universo inteiro se tornou insuficiente para poder abarcá-lo. Hoje, passados estes quase 15 anos, percebo que sempre amei minha mulher, mas que somente com o seu amor e dedicação pude reaprender o significado do amor.

Um dos momentos que mais gosto, é quando, depois de fazermos amor, ficamos abraçados um ao outro, deixando nossos corpos relaxar, enquanto conversamos noite adentro. Então, antes de irmos dormir, olho em seus olhos e vejo ainda a mesma bela jovem de 20 anos que apareceu sorrindo na vida de um homem de 41 anos, 15 anos antes, e que com sua despretensiosa inocência entregou um presente nas mãos dele, que até então, achava que sabia tudo de amor.

Quando o sono finalmente vem, sei que estou na “Calle de los Suspiros”…

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4 Comentários »

  1. Muito linda essa história!!! Espero um dia encontrar um AMOR assim!!! Porque eu mereço!!!

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    Comentário por ivone veronica martin christofoletti — setembro 5, 2011 @ 0:45 | Responder

  2. Uauuuuuuuuuuuuuuuuu estou sem palavras… que amor lindo.. que amor além da vida… obrigada Augusto por compartilhar conosco uma história tão emocionante e especial. Valeu meu anjo! Bjs

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    Comentário por Ivana — setembro 5, 2011 @ 17:51 | Responder

    • Oi Ivana.

      A história é mesmo linda. E temos é que agradecer ao José, por ter autorizado a publicar texto tão tocante.

      Abrs.

      Augusto

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      Comentário por augustomartini — setembro 5, 2011 @ 17:52 | Responder

  3. Achei a história muito bonita e romântica, realmente nasceram um para o outro por isso sobreviveram a tantas idas e vindas. Mas acredito no amor entre duas pessoas que embora diferentes em personalidade estejam dispostas a ficar juntas por algum motivo que nem mesmo sabem. Acredito no Amor não dependente, onde se respeita a individualidade do outro(é a minha visão do Amor Completo). Amor não se explica, não se racionaliza, apenas se vive, sente!!! Como dizia Vinicius de Moraes(aquele que continuou amigo de suas ex-paixões/seus ex-amores) Que (o amor) seja infinito enquanto dure.

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    Comentário por Emi — setembro 6, 2011 @ 0:39 | Responder


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