A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

agosto 18, 2011

Reflexões sobre a eutanásia… praticada em animais – parte 2

Um dos posts que mais gerou comentários por aqui foi o Reflexões sobre a eutanásia… praticada em animais onde conto a difícil decisão que tive que tomar ao sacrificar a Bubba, minha companheira.

Hoje, li no El País, no blog Puerto Libre, da escritora Ángeles Mastretta, que ela também passou por essa difícil decisão dias atrás. Me emocionei com o texto dela. Tentei reproduzí-lo, em português, abaixo:

Todos os cães merecem o céu…

Ela tinha pernas curtas. Não era bonita. Tampouco era simpática, porém tinha personalidade, e agora tenho dificuldade para respirar quando  penso nela. Ela me dava alegrias que nem ela mesma sabia. Não era até ha três anos a cachorra de uma mulher corajosa e, desde então, a princípio relutante, a minha companheira. Nós penteávamos seus pelos, ela concordava, cresceram as orelhas, descobrimos o quão simpática que era: quando sentia o cheiro de pão com manteiga pode-se dizer que sorria. Tinha os olhos doces e sempre me olhava como se precisasse de alguma coisa. Abanava o rabo quando me via voltando para casa. E dedicou a mim até a última gota de seus últimos dias.

Não importava o tamanho da escada que tinha que subir – ela a enfrentava para estar comigo. Há pouco tempo lhe sobravam tumores e lhe faltavam forças, e qualquer ruído a assustava e a deixava com medo. Agora penso que razões não lhe faltaram. Amanheceu muito doente. Quando chegou o Dr. Gustavo Hernandez, que é um santo, consultou-a e disse: “O prognóstico vai de reservado para muito ruim”. Entendi que não dava mais para ela continuar vivendo assim. E eu senti que estava pronta para ouvir isso dele por seu bem e para ela não sofrer. Coitadinha. Por esse tempo já lhe haviam passado várias surpresas malignas que caem sobre os moribundos de qualquer índole. Cães, leões e gente sabem quando vão morrer, porque eles sentem. E cada um sabe que gostaria de ter acesso aos santos óleos e acreditar em milagres e auxílios espirituais. Ela não queria mais comer. E senti que melhor seria pô-la para “dormir”, enquanto se deixava acariciar com todo o tempo do mundo. Não com a minha pressa habitual, mas lentamente.

O veterinário pegou a injeção de anestésico que se aplica antes do veneno e eu vi um rosto de um inimigo nesse  homem piedoso e disse que teria que avisar aos meus irmãos antes de decidir e que voltaria em um momento. Deixei-os no jardim e enquanto entrava em casa solucei copiosamente como não fazia  há anos. Fui ao meu escritório e colei  o meu rosto no vidro da janela. Eu não posso com a morte, ela está acima de mim,  eu a odeio. Liguei para Cati, Mateo, ao pobre Héctor, para minha irmã que nunca está, aos meus irmãos, aos meus sobrinhos – e quem mais me poderia dar razão da sem razão que é dispor da vida alheia para evitar-me uma pena? Voltei até o veterinário e disse que não poderia, que precisava de tempo, quem sabe outro dia, quem sabe mais tarde. Como se fosse possível esperar. O santo homem, que tinha interrompido a sua manhã de consultas para vir até nós, se foi com a promessa, não pedida, de que eu ligaria para ele a cada três horas.

Não foi necessário. Eu o chamei antes das duas primeiras. Não sei porquê, achei que não tinha o direito de dizer aos outros o que faria e como. Nem consolo daria ouvir deles os muitos anos que ela tinha e os mil pesares e lamentos pelos quais passava. Ela gostava de andar por aqui, farejando em cantos e dormindo sempre pertinho de mim,  com uma orelha sempre atenta e acordava se eu mudasse de lugar.  A colocava elegante sem que ela se importasse com isso, sempre com duas fitas em cima da cabeça com os pelos amarrados em chumaços que mais pareciam duas nuvens fofas. E pareciam. Mas ontem de manhã apareceu manchada, suja e dando voltas sobre si até cair de tonturas. Exausta. Deixando-se carregar e olhando-me. E de que modo me olhava com seus olhos de mármore opaco! Também já enxergava mal. E caminhava como que na ponta dos dedos, como se precisasse de uma bengala. Um desastre, eu sei, mas isso não me acaba com a culpa e nem com o choro. Ela trombava com as paredes e, por vezes, parecia mais bêbada do que eu pareço agora. Tínhamos que decidir ou não. Não! Seria eu sozinha. E decidi que hoje ao acordar me prometi não perturbar ninguém com esta pena que muito poucos entendem. Nós a acariciamos durante todo o tempo, vendo como a vida foi e deixou de ser.  A essa presença que se perde chamam alma. Eu creio que até ali ela chega, mas algumas pessoas pensam, e quanto as invejo, que se vai para outra parte, para outra dimensão depois que se morre. “Adeus, menina, nos vemos do outro lado da ponte”, disse o veterinário antes de despedir-se dizendo que por isso ele não cobra. Talvez esteja certo – não há um preço que pague sua decisão abraçando a nossa.

Leia um belo artigo sobre o tema Eutanásia em animais  Família faz ensaio fotográfico emocionante para registrar último dia de cão e, no original, em inglês This Story Of A Dog’s Last Day On Earth Is Beautiful And Utterly Heartbreaking

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19 Comentários »

  1. Não sei o que falar. Minha garganta ficou seca.

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    Comentário por Irany — agosto 18, 2011 @ 23:26 | Responder

  2. Passei por algo assim. O Samuka. Quando ele chegou falei.. ou ele ou eu! E sabe o que aconteceu? Ficamos os dois rs e eu adorava aquele pilantrinha, bravo q só ele. Mas quis o destino q ele adoecesse e tivemos q sacrificar, na verdade ele era da minha irmã mas, no fundo era só meu. Nunca mais esqueci isso… chorei muito..sofri muito… marcou fundo na minha alma.. pena que depois dessa… nunca mais quis ter outro cachorro, por conta do sofrimento que passei com a perda do Samukinha. Até hj sinto sua falta.
    E, garanto… não é fácil passar por isso…

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    Comentário por Ivana — agosto 21, 2011 @ 2:57 | Responder

  3. Olá Augusto
    Gosto muito das suas publicações…essa em especial me emocionou muito pois conversamos anteriormente sobre esse assunto…é muito bom saber que outros compartilham das mesmas crenças…
    Um abraço e força sempre em sua bela jornada
    Muito obrigada mais uma vez
    Gisela.

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    Comentário por Gisela — agosto 23, 2011 @ 0:45 | Responder

  4. Olá Augusto
    Hoje só estou escrevendo para informar que descobri um “desenho animado” que se chama “Todos os cães merecem o céu!”como a frase abaixo da foto da cachorrinha…é uma graça(meus alunos gostaram muito…até se emocionaram)…logo no começo da história o cachorro morre e quando ele pergunta se está no céu a “cachorrinha anjo” diz que todos os cães merecem o céu pois são naturalmente bons e fiéis(SÓ ESSA FRASE JÁ VALEU O DESENHO!)…já a história é uma analogia ao comportamento humano,sobre valores verdadeiros como amor e amizade…muito bonitinho!!!
    De qualquer forma escrevo pois muitas pessoas que buscam apaziguar seus corações…pois acredito de todo coração que eles REALMENTE merecem o céu!…não só os cães mais também todos os seres que amamos e nos deram amor…gatinhos,passarinhos…e nos veremos do outro lado da ponte…
    Com carinho…
    Gi

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    Comentário por Gisela — agosto 24, 2011 @ 19:39 | Responder

    • Olá Gisela.

      Gostei muito do seu comentário. Vou procurar ver esse desenho.

      Abrs.

      Augusto

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      Comentário por augustomartini — agosto 24, 2011 @ 20:57 | Responder

  5. eu tenho mais paciencia com animais do que com humanos, quem me conhece, sabe.
    eu tenho a minha menina Loba, um pastor alemão doce e inteligente, incapaz de se zangar comigo, mesmo quando eu esqueço de dar o jantar ( e ela me lembra disso com focinhadas carinhosas no rosto), ou a arrasto para o banho, eu enfio remedios pela garganta dela.
    se destesta o banho, depois ela adora quando me deito ao lado dela no sol morninho e ficamos ali, brincando de puxar a toalha.
    se não quer comer, eu canto a musica do passarinho e ela come, não porque tem fome, mas pq imagina que eu vou ficar triste?
    sei lá…canto e ela come.
    mando dar bom dia pro pai, e ela entra arrastando as patas no meu quarto e poe a cabeça na cama: espera do meu marido o “bom dia menina” que ele sempre diz.
    dou os belisquetes que ela gosta: queijinho e frutas citricas, e a chamo de apelidos como PRE diminutivo de preciosa, PRI, de princesinha, FU de focinho fofo, catola, doga, petutinha.
    e ela atende a todos, com olhos brilhantes e expressão feliz.
    e ela já tem 11 anos…velhinha pra uma cahcorra
    se penso no fim dela?
    não penso.
    ontem na TV vi uma policial com cara de durona, que pegou o cão com quem fazia o policiamento e se aposentou( caes da PM são aposentados com 8 anos)
    o que ela disse é o que eu penso: não é cachorro…É FILHO.

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    Comentário por lilly — agosto 29, 2011 @ 19:54 | Responder

  6. Que legal !
    Também penso igual ,Lilian!Eu tbm falava,vai com o pai,olha a vó,o vô…bebê da Gi!Eu não cantava,mais tinha que jogar a bolinha umas 3 vezes antes dele parar com ela ao lado do pote e só então comia(Manias de filho!)…são formas de carinho(e eles entendem tudo,né?!)…e você esta certa em não pensar no final dessa vida aqui …você esta curtindo e seus amores estão te curtindo…”Amor é tudo que importa!”…podem achar “brega”,mas não ligo(eu gosto de brega!)…pior é ter vergonha de ser “brega” por causa do amor!

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    Comentário por Gisela — agosto 31, 2011 @ 21:49 | Responder

  7. Ontem tomei a decisão mais difícil de minha vida, pedi para terminarem com o sofrimento da minha querida Pituka, ela iria completar 9 anos no próximo dia 17 de março, mais infelizmente não estará presente ao meu lado. Peço perdão a Deus e principalmente a ela por essa decisão, espero que ela tenha me compreendido. A pituka me trouxe só amor, carinho compreensão e muitas alegrias. Ela sempre foi desde filhote muito frágil, eu nunca medi esforço , tempo e dinheiro para tratar dela. Em março de 2012 ela teve pancreatite passou muito mal, cuidamos, tomou muitos remédios, exames, felizmente ficou mais um ano comigo, agora durante o carnaval fizemos mais alguns exames e descobrimos que ela estava com um grave problema no coração, aumento do fígado e deficiencia respiratória. Eu não sei explicar mais diante de tudo isso ela estava aparentemente bem… mais novamente o destino nos pregou uma peça, ela já era ceguinha também há mais ou menos 2 anos… na madrugada de segunda feira dia 18 de fev. ela sofreu uma queda horrível e fraturou sua coluna , o pior diagnóstico que ela poderia ter. Cuidamos, internamos, mais eu havia prometido para ela que nunca a deixaria sozinha e fui na clínica buscá-la e a levei para veterinária que sempre cuidou dela. Já cheguei com a decisão tomada, conversei com a médica e aplicou-se a injeção na minha bebê.
    Ela ficou calma, tranquila, não a deixei partir sozinha, fiquei a seu lado o tempo todo. Pedi muito perdão para ela e Deus. Agora ela descansa feliz, sem dor , sofrimento e cegueira.
    Descanse e seja feliz, porque aqui você me fez uma pessoa melhor e muito, muito, muito feliz também.
    Perdoe a mamãe, sinto muito sua falta.
    bj no seu coração, mamãe Elaine

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    Comentário por elaine — fevereiro 20, 2013 @ 11:56 | Responder

  8. Que texto Lindo!!!!
    Infelizmente hj estou pior do que ontem
    Cada dia sem meu Bob me deixa mais
    Deprimida!!!
    Só espero que me perdoe e que um dia em algum lugar lá em cima eu possa encontrar ele novamente abraçar e dizer o quanto o amo!!!

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    Comentário por Dri — fevereiro 19, 2014 @ 14:32 | Responder

    • Oi Dri. Isso vai passar, verá. Tenha fé. Abraços. Augusto

      Em 19 de fevereiro de 2014 14:32, A Simplicidade das Coisas — Augusto

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      Comentário por Augusto Martini — fevereiro 19, 2014 @ 14:34 | Responder

  9. […] que todo esse conflito sobre a eutanásia animal é baseado na questão de que em nossa cultura, os animais de estimação são elevados ao estatuto […]

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    Pingback por Reflexões sobre a eutanásia… praticada em animais – parte 4 | A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini — fevereiro 20, 2014 @ 14:38 | Responder

  10. Hoje de tarde encontrei seu texto sobre eutanásia, estou ainda em choque pelo que passamos, eu e minha amada, Thora, mas estou mt mt triste e chorona e ai voltei no histórico e reli tudo, e encontrei outros textos, obrigada, alivia ainda não mas ao menos minha sensação de culpa por tomar a decisão de colocar minha chow para dormir está um pouco menos ruim, era uma ferida só pelo corpo, meses de tratamento e cremes pomadas, monte de rémedios, dor, tadinha dor, havia banho de 4 em 4 dias que limpava os machucados muitos todos … ai ai ai mas dói viu a falta que ela me faz… obrigada, mesmo pelo seu site nos trazer carinho nessa hora de dor e sim como a escritora diz…com essa pena que muitos poucos entendem … aubraços…Ruth di

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    Comentário por Ruth — agosto 8, 2014 @ 19:45 | Responder

  11. Olá.. Bem, eu li seu outro texto, o primeiro, sobre eutanásia e devo te agradecer pois me deu uma luz. Meu cachorro tem 16 anos e meio, está bem senil, provavelmente no fim da vida.. Estava pensando a respeito de eutanásia pois ele não se alimenta mais sozinho, nem bebe água sozinho, e, mais recentemente, essa semana, ele perdeu a força nas patinhas de trás. Fico com raiva, de verdade, do veterinário que minha família leva ele pois disse, ainda quando ele andava e estava bem melhor que hoje, que talvez a eutanásia fosse o caminho. Isso não me entra na cabeça, e nossa, até eu estava pensando nisso a pouco.. Mas, ler seu texto e ver meu cachorro acordando procurando por alguém e dormindo denovo quando o peguei no colo, bom, isso tirou de mim completamente a idéia da eutanásia. Ele está com as dificuldades da idade, incluso doenças degenerativa (do cérebro) mas nos reconhece, chora quando minha mãe sai.. Então, imagina como ele se sentiria sabendo que vai morrer, por escolha das pessoas que sempre estiveram com ele? Muito obrigada de verdade pelo seu texto.

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    Comentário por Raquel — setembro 2, 2014 @ 13:47 | Responder

    • Oi Raquel.
      Fico muito feliz que o texto tenha lhe ajudado. Força, fé, paz e bem!
      Abraços.
      Augusto

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      Comentário por Augusto Martini — setembro 2, 2014 @ 14:16 | Responder


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