A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

janeiro 20, 2011

“Fica com o telefone celular que eu fico com a sua vida”

É janeiro de 2011. E tenho que assumir – já estou doido com tanto trabalho. Pensei que esse ano fosse conseguir uma reconciliação com minha agenda. Mas é melhor assumir que ela já está morta.

Quem é dono de quem?


Algumas semanas atrás eu li em algum lugar que uma mulher/empresária, comanda 3.300 empregados e tem uma família de seis filhos. Dizia que fala muito pouco ao telefone, mas que interagi através de e-mails e que vive com um Blackberry e um laptop que usa para trabalhos mais complexos.

Como ela, eu também tento conciliar minha vida com “modernidades” – trabalho das 9h00 às 18h00 e em seguida, vou para casa, onde trabalho mais umas horinhas. Logo, estarei trabalhando 24 horas por dia! Essa frase, “eu estou trabalhando 24 horas” é a coisa mais assustadora que eu já ouvi na minha vida.

Somos escravos do tempo!

“Fica com o telefone celular que eu fico com a sua vida”. Foi como se ouvisse essa frase da boca de uma mulher quando vim trabalhar em São Paulo há quase dez anos. Uma “chefa que não era chefe”, com cara de demônio, me deu meu primeiro celular – e ele me deu as boas vindas à escravidão do século XXI. E eu não soube escutá-la.

Agora tenho mais responsabilidade, mais salário, um celular e um laptop – esse que gentilmente a empresa me empresta para me escravizar todos os dias. E todas as noites também.

Eu hoje eu sou o mais… tonto dos que trabalham comigo, digamos assim. Eu sou o rei dos clics e dos telefonemas, sempre resolvendo ou tentando resolver os problemas de um curso em EAD do qual sou o gestor no estado de São Paulo.

E agora percebo a verdade de uma frase que me disse uma amiga – e com uma dor óbvia: “Não creia nas leis ou em qualquer outra coisa. Seus diretores sempre terão a razão. Você vai se tornar cada dia mais um mecanismo, um telecomunidador e a tecnologia não vai salvar sua vida”.

Faz alguns anos que desenvolvo essa merda (perdão, essa M acaba comigo) de “tele-trabalho” – trabalho quase todos os dias a noite em casa, depois do jantar, quando eu gostaria de estar com minha família ou a sós comigo, com meus amigos ou com meus silêncios.

E durante o dia também. Eu tenho tantos eventos e tantas reuniões que se tornaram multitarefa e um modo de vida: ouço, tento reter um pouco (apenas o suficiente, que é sempre muito) e, ao mesmo tempo tenho que falar ao telefone, responder e-mails, ver o que tem acontecido no mundo, ouvir amigos de trabalho em outro momento, depois respondo mais e-mails…

É muito ruído… É muito lixo mental.

Somos escravos do trabalho!

E de repente cai a ficha: o dia foi feito de 24 horas e sempre será assim (pelo menos desde que eu tenho o celular).

Eu não posso sonhar com um cronograma de trabalho melhor e menor. Eu não posso sonhar com intervalos de silêncio. Que não me chamem para nada, que não me encontrem e que não me busquem. Eu já não posso sonhar com nada.

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5 Comentários »

  1. Nossa mente voa quando estamos precisando de “mato”.

    Os mandos e os desmandos desta sociedade voraz, dita capitalista, não pode dormir, não pode ser vazia, não pode ser ela mesma, sempre terá uma marca, uma pessoa, um enche saco a cobrar resultados.

    Eu vou sonhar e sonhar forte com um mundo mais… simples!!

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    Comentário por Solange — janeiro 20, 2011 @ 17:52 | Responder

  2. para quem trabalha online como nos fica dificil separar o trabalho no computador do que é lazer.
    eu tb me vejo assim…
    trabalho das 8 as 18 e chego em casa e ligo o note no balcao da cozinha.
    qdo é tempod e curso online vou respondendo duvidas ou acompanhando alunos pelo site
    quando não é, produzo meus textos nos blogs, faço pesquisa, estudo.
    ouço do marido: plugada de novo?
    estou precisando desplugar!

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    Comentário por Augusto — janeiro 20, 2011 @ 17:54 | Responder

  3. ops saiu errado!

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    Comentário por Lilly — janeiro 20, 2011 @ 17:58 | Responder

  4. Tenho um colega que está prá lá de “P” da vida porque o chamaram para trabalhar antes que suas férias acabassem, “o grande problema” é que sabem que ele trabalha bem, então deixam tudo nas “costas” dele. Os que deixam tudo nas “costas” dele são um bando de acomodados(prá dizer outra coisa) por isso precisam tanto dele? Será que a mentalidade é: Já que ele faz tudo eu vou me mexer prá quê? Será??? Outro dia em razão do meu trabalho visitei uma unidade em que uma Diretora disse: tenho tanta coisa prá fazer, que não tenho tempo nem prá morrer… Dizem que a informática foi criada para que o homem realizasse seu trabalho mais rapidamente e assim tivesse mais tempo para o lazer, mas o homem ao invés de aproveitar o tempo livre para o lazer criou mais trabalho. São escolhas…

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    Comentário por Emília — janeiro 20, 2011 @ 19:20 | Responder

  5. Só queria dizer que transformar um cronograma é uma opção realizável! Qual o primeiro passo? Sonhar! Força & saúde, =:o)

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    Comentário por Kuka — janeiro 23, 2011 @ 22:55 | Responder


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