A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

dezembro 2, 2010

O Brasil e seus nomes, por José Murilo de Carvalho

Acabo de ler na edição digital do El País, um ensaio onde o historiador brasileiro José Murilo de Carvalho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro e membro da Academia Brasileira de Letras, conta a notável história dos nomes do Brasil desde o início do século XVI até os dias de hoje. Murilo analisa a relação entre mito e país, a utopia e a realidade, o progresso e a destruição, a esperança e a frustração. Enfatiza a persistência destes contrapontos fundamentais do início do século XVI até o dias atuais. Perguntar-se sobre a identidade, de acordo com Carvalho, envolve olhar-se no espelho sem hesitação e com absoluta sinceridade, porque, caso contrário, você não poderá compreender as contradições da formação, tanto de uma nação como da própria vida.

Descobrimento do Brasil

 Shakespeare, em seu “Romeu e Julieta”, fez Julieta afirmar que a rosa manteria seu perfume, fosse qual fosse o seu nome. Porém, o mesmo pode acontecer com o nome de um país?

 A terra encontrada por Cabral em 1500 foi chamado de “Pindorama”, ou “Terra das Palmeiras” pelos habitantes nativos. Ao chegar nas praias desconhecidas e novas, o navegador batizou-a de “Terra de Vera Cruz”, embora alguns dias mais tarde foram renomeadas como “Ilha de Vera Cruz.” Isso se deveu ao fato de que o navegador era um cavaleiro da Ordem de Cristo e, portanto, ele sempre usava uma cruz no peito.

Nau de Pedro Alvares Cabral in the Armed Paper (Lisbon-Library of the Academy of Sciences)

Ao ser informado da descoberta, o rei de Portugal, Dom Manuel, comuniciou o grande evento a Fernando e Isabel, monarcas da vizinha Espanha, proclamando que a nova terra chamava-se  “Terra de Santa Cruz.” Em 1503, numa famosa carta a Lorenzo de Medici, Américo Vespúcio a batizou de “Mundus Novus”. Na mesma época foi espalhada a notícia do grande número de papagaios no Novo Mundo, e assim surgiu o nome popular de “Terra dos Papagaios”. Mas, mais importante do que as aves tropicais era uma árvore alta, grossa e espinhosa, com um tronco de flores vermelhas e amarelas, que os índios chamavam “Ibirá pitanga” ou árvore vermelha. Os Portugueses então logo a identificaram como a madeira do Brasil (Pau Brasil), nativa da Ásia e conhecido desde o século XII como uma fonte de corante para tecidos. Foram encontrados registros deste nome na Itália do século XI e na Espanha desde o século XII. Marco Polo falou do “Brésil” e Vasco da Gama também. E desde 1511, nos mapas, o novo nome de “Brasil” se tornou comum, mas muitos protestos aconteceram contra tal expressão. A mudança no nome da Ilha de Vera Cruz foi obra do diabo, disse Frei Vicente do Salvador, alterando a “árvore divina” por uma árvore comercial.

Imagens do Brasil

Porém, há muitas outras controvérsias. A primeira foi a grafologia. Como escrever esse nome? Houve, a partir do século XI, pelo menos 23 maneiras diferentes de escrever a palavra e até o século XX continuavam discutindo se deveria ser “Brazil” ou “Brasil”. A maior disputa foi histórica. Qual seria a origem do nome do país? A versão tradicional passou a ser fortemente questionada a partir do primeiro quarto do século XX, quando o historiador Capistrano de Abreu levantou uma outra hipótese sobre a origem do nome. Na sua opinião, “Brazil” era originalmente uma ilha mítica e paradisíaca localizada na altura da costa da Irlanda – desde 1375, nos mapas dos monges irlandeses, que eram muitos viajantes, a Ilha “Brazil” sempre figurou – desde que foi assumido que o rei mítico Brasal, teve a sua residência na ilha desde tempos imemoriais. O historiador Gustavo Barroso defendeu a nova interpretação em um livro publicado em 1941. Como Frei Vicente, ele odiava a idéia da madeira. Em segundo lugar, era mais digno que o nome do país derivasse de uma terra lendária de que de um vil produto tropical comercializado por cristãos novos.

Os índios eram conhecidos como "Brasis", enquanto os brancos eram considerados Portuguêses. Os índios - estes sim são os verdadeiros Brasileiros

O gentilício “brasileiro” também incomodava muitas pessoas. O termo foi originalmente aplicado para descrever um comerciante de pau brasil, um trabalho nada superior do que o de um ferreiro ou de um mineiro. Na verdade, é importante lembrar que até fins do século XVII era ofensivo chamar um homem branco de “brasileiro”. Os índios eram conhecidos como “Brasis”, enquanto os brancos eram considerados Portuguêses. Um Português nascido no Brasil era chamado de “português do Brasil” ou “luso-americano”. Mas, na época da independência se difundiram também os gentilicios “Brasiliense”, “Brasílico” e “Brasiliano”.

Victor Meirelles de Lima (1832-1903) - Primeira Missa

Mesmo que não tenha embasamento histórico, a hipótese da ilha medieval do Brasil como fonte original encaixava perfeitamente com dois aspectos fundamentais do imaginário nacional, que tiveram suas origens em antigos textos de Cabral e Vespúcio, mas que apareciam também nos escritos da independência e do romantismo, e que chega aos nossos dias: referimo-nos à alegada natureza paradisíaca da terra brasileira – um país grande, rico e bonito. A grandeza natural justificava uma outra característica do nosso imaginário, a utopia do grande império, consubstanciado no nome da nova nação, quando conquistou sua independência em 1824. O Brasil será sempre o país do futuro, como rezava o título do famoso livro de Stefan Zweig, de 1941.

Brasil, terra de exploração comercial ou Ilha Encantada. Julieta não tinha razão.

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1 Comentário »

  1. ótima matéria Augusto. Quanto ao Brasil continuar sendo ‘perfumado’, apesar de ter outro nome, acho que sim. Seria sim o país do paraíso! bjs, fer

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    Comentário por Fernando Teixeira — dezembro 9, 2010 @ 13:58 | Responder


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