A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

novembro 12, 2010

O Crack – a droga dos pobres (?) no Brasil – parte 2

O consumo massivo de crack é relativamente novo no Rio de Janeiro se o compararmos com São Paulo, onde há muitos anos a comercialização da droga teve sua expansão, instalando-se principalmente na região do bairro da Luz, área central da metrópole e que aos poucos se expandiu para outras regiões, criando na cidade várias “cracolândias”.  A explicação padrão é que o narcotráfico carioca, enquanto tinha poder suficiente, impediu a venda local dessa droga para evitar que os seus efeitos enlouquecessem e desorganizassem suas tropas. Em Salvador, o Projeto Axé, que objetiva a reinserção social na escola de milhares de crianças de rua ou em risco de marginalização, reconheceu a impotência da sua “Pedagogia do Desejo” ante ao fenômeno do crack.

Um grupo de jovens consumidores de crack em pleno centro de São Paulo, na "Cracolândia". (AP Photo / Andre Penner)

A dependência gerada por esta droga é tão avassaladora e destrutiva que a organização não governamental admite a necessidade de internação para tratamento, uma exceção em sua metodologia, que rejeita a imposição e baseia-se em persuadir, através das artes e da cultura local, para restaurar a esperança e o desejo de construir uma vida melhor.

Em Fortaleza, uma mãe deixou seu filho de ano de idade com um fornecedor de crack como garantia de pagamento e desapareceu por alguns meses, como mostra um documentário feito pela Central Única de Favelas da cidade, que exibe a violência e as condutas extremas que as pessoas são levadas pela dependência de crack. Em Porto Alegre, está sendo disseminada a “merla”, outro subproduto da cocaína chamado em outros lugares de pasta base, tendo o ácido sulfúrico e o querosene como componentes, o qual os conhecedores apelidaram de “morte súbita”, pela sua letalidade.

As novas drogas não substituem as outras, mas são “somadas” as que já existem no mercado de consumo de cada viciado, agravando o drama social e pessoal. Por isso, a maioria dos entendidos é radicalmente contra a descriminalização da maconha e as medidas para facilitar o acesso a quaisquer drogas – lícitas ou ilícitas.  A tendência é o avanço do uso de drogas cada vez mais pesadas. O jovem que fuma cigarros comuns tem quatro ou cinco vezes mais probabilidade de aderir a uma droga ilegal que aquele não fumante, e algo semelhante acontece com os usuários de álcool.

Aqui em São Paulo temos acompanhado a multiplicação de pontos de consumo e venda de crack. Até pouco tempo atrás eles se concentravam só na região da Luz, mas agora o crack se espalhou. Uma das avenidas mais importantes da Zona Sul foi invadida por usuários e traficantes, que vendem a droga à luz do dia. Dias atrás, a TV Globo mostrou a Avenida Jornalista Roberto Marinho, antiga Avenida Água Espraiada, usuários caminhando no meio dos carros, passando pela mureta de concreto e desaparecendo. A cena se repete ao longo do dia na avenida. Outro traficante se mistura aos usuários em plena luz do dia, entregando a mercadoria e saindo com o dinheiro. Mais um cachimbo é aceso. O crack hoje acompanha o ritmo frenético da avenida, que tem 4,5 km de extensão e corta seis bairros da Zona Sul. Por ela, passam quase 30 mil carros só nos horários de pico. Por alí, os assaltos aos carros tornaram-se comuns.

De uns tempos pra cá o córrego Água Espraiada virou território livre para o consumo de crack a qualquer hora do dia.  A polícia passa e é como se nada estivesse acontecendo.

Isso é comum também na Praça da República ou em ruas limítrofes e sob a visão de policiais. Os meninos e meninas estão por lá a qualquer hora do dia, enrolados em seus cobertores sujos – logo um rapaz saca o cachimbo, queimando a pedra de crack. Ele passa para outro e, assim, consomem a droga tranquilamente. Consumindo também a saúde e a vida deles. Outros tantos usuários ficam por alí caídos, “dormindo” sob o sol escaldante. É quase uma visão apocalíptica!

O tráfico e consumo de crack se espalha por toda a parte. O governo paulista perdeu totalmente o controle e não tem ações preventivas e de combate contra a droga.

Dias atrás, também na TV, vi uma reportagem falando de uma nova “onda” – a mistura de crack em cigarros de maconha. A mistura acaba valorizando o crack, que causa uma euforia maior que a maconha e leva a dependência da segunda droga, mais potente e devastadora que a primeira. O crack, segundo especialistas, vicia já no primeiro trago. Portanto, essa mistura, chamada de “mesclado” é um passo para a dependência.

Isso tudo deixa uma pergunta que não quer calar: o que a sociedade pode fazer para controlar a epidemia do crack?

Penso que programas de reintegração e assistência às famílias de drogados poderiam resolver o problema somente em parte. A prevenção ao uso seria a medida correta a ser adotada, e políticas públicas de qualidade poderiam reverter essa situação. Todos nós, como parte da sociedade, deveríamos adotar uma postura mais humana e abraçar essa causa, deixando de ser meros telespectadores. Deveríamos nos tornar membros integrantes desse processo preventivo, pois penso que essa luta tem que ser coletiva.

6 Comentários »

  1. Os drogados por sua vez, usando da inteligência que lhes resta, sabem como sair do papel de traficantes para simples usuários de drogas, por isso não são pegos nas abordagens policiais. Os policiais não podem prender usuários de drogas. A Lei precisa ser revista? Traficantes e usuários coexistem, um não sobrevive sem o outro. Aparentemente é um caso sem solução.

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    Comentário por Emília — novembro 12, 2010 @ 15:04 | Responder

  2. Como você já teve muita vontade de encontrar a solução.
    Tudo isso está assim, creio eu, que devido à pressa em que os dias estão passando e os nossos pensamentos não estão conseguindo acompanhar. O que nos deixa frustrados diante da tragédia em que estamos vendo.
    Muito triste.

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    Comentário por Irany — novembro 13, 2010 @ 10:29 | Responder

  3. Ontem o Profissão Repórter mostrou uma matéria sobre os drogados na Cracolândia e o drama das famílias que não sabem o que fazer e se desesperam ao perceber que estão perdendo seus filhos(as) para o vício. Os drogados são praticamente zumbis que saem dos buracos de construções infestadas de lixo. Mas quem consegue abandonar o vício sabe o desafio é constante onde vale a tal frase: “um dia de cada vez”. Na reportagem um rapaz voltou para casa dos pais, arrumou emprego na lojinha do tio e até ficou com melhor aparência. A pergunta que fica…até quando ele continuará assim???

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    Comentário por Emília — novembro 17, 2010 @ 13:37 | Responder

  4. As drogas estao destruindo sonhos ;na minha casa meus dois irmaos sao dependentes da droga ,estamos sem saber o que fazer ja chegamos ate a pensar em suicidio eu estou sofrendo ao ver eles afundando sem agente poder fazer nada so pesso a Deus uma solucao o mais rapido possivel ;;;;

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    Comentário por rutiane santos da silva — janeiro 12, 2012 @ 21:15 | Responder

  5. PARQUE LINEAR JABAQUARA PSDB GOVERNO ALCKMIN QUER TIRAR OS MORADORES PARA FAZER CRACOLANDIA ,Ex.POE NOIA E TIRA MORADOR.E QUER PAGAR SÓ 200 MIL EM CASA QUE VALE 500 MIL ISSO SIM E ROUBO E GOLPE

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    Comentário por Luiz Carlos da Costa — outubro 14, 2016 @ 8:00 | Responder


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