A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

setembro 10, 2010

Meu pai…

O céu é azul celeste. Um azul tão intenso, tão profundo. Com os olhos entreabertos parece que só essa cor existe. A temperatura é agradável. Posso sentir que a primavera chegou. Esta estação é a minha favorita, porque nela tudo renasce, e se não renascer, não despertará mais. Para mim, essa teoria vale para tudo, e também pode ser aplicada ao amor.

O céu azul celeste

Sentado ali em frente ao lago, me transportei para outro lugar do planeta, onde a areia é muito fina. Eu não avistava e nem ouvia o mar, mas sim o vento brincando com a areia. Aterrisei com segurança na frente de uma tenda. Era uma só uma tenda no meio do deserto. Eu fiquei surpreso. Não tanto por estar naquele lugar, mas porque nunca imaginei que poderia alí chegar.

Em um momento senti o coração apertar, porque eu fui tomado por um sentimento de desespero.

“Por que, eu tinha que ir para o deserto nesta viagem?” Normalmente eu escolho meus vôos para lugares paradisíacos, cachoeiras, florestas ou mesmo as cidades cheias de gente, de ruído, iluminação, história, poluição. As cidades e lugares que já visitei ou que imagino como são. Essa é a primeira vez que eu vou para um lugar onde não há nada. Apenas uma barraca e muita areia, sem saber se há pessoas. 

Então comecei a olhar à minha volta e comecei a definir as cores.
“O céu é azul como na frente do lago onde estava sentado e as dunas parecem tingidas de ocre.”
“Eu estava no céu, por isso cheguei aqui.”
“Sou perfeitamente capaz de resolver problemas de importância global!”
“Sei que agora eu exagerei um pouco, mas eu sinto que eu posso, e não vou desmentir, pois aqui ninguém me escuta!”

De repente, saiu um homem da tenda. Vestido com uma túnica azul, com turbante. Eu sorrio como um sinal de saudação. O sorriso significava: estou um pouco perdido, mas venho em paz. Minhas asas sumiram – isso sempre acontece comigo quando um estranho aparece. Ninguém sabe o segredo das minhas asas.

Ninguém sabe que posso voar.

O homem olhou para mim com seus grandes olhos e sorriu. Seus olhar profundo me causou arrepios. Eu nunca vi olhos como aqueles, olhos que perfuram e você fica hipnotizado e não consegue parar de olhá-los. E, com a quantidade de luz que tinha, não consegui definir o rosto muito bem. Só sei que ele parecia assombrado, e eu, com os meus pés de chumbo, não conseguia sair do chão.

Eu posso voar

“Bem, o primeiro contato foi bem sucedido, mas como eu posso me comunicar com ele?” Pensei.

Não há necessidade de falar, veio para perto de mim e me olhou com atenção. E eu de novo não consigo vislumbrar-lhe o rosto.  E ele, observando cada centímetro do meu corpo. Ele se virou, parou atrás de mim e me cheirou cabelo. Voltou para a minha frente. Ele sorriu novamente e agora eu podia ver o branco dos seus dentes, que contrastava com a cor de seu rosto.

Então ele se virou e foi para a barraca.

Eu estou lá na frente da barraca, esperando que alguma coisa aconteça. Aperto os olhos e fico olhando para o céu azul.

Depois de um tempo, o homem apareceu de novo, pareceu surpreso ao me ver ainda lá, no mesmo local.

“Então, eu não estou louco!” Gritou de repente.

“Eu não sou louco! Eu não sou louco! Meus sonhos se tornaram realidade, você está aqui!” Dizia estas palavras e vinha cada vez mais perto. Agora a voz me era familiar. Estava a três passos de mim e de repente levantou e esticou os braços. Naquele momento eu percebi que tinha mãos grossas, fortes e grandes, mãos que me fez lembrar as do meu pai. Seus braços estavam esticados e ainda não sabia o que fazer.

Eu estava com medo de abraçá-lo, pois o meu poder de vôo desapareceria para sempre.

Consegui dar o primeiro passo e eu senti seu olhar em mim. Um olhar doce, de alegria e paz. Quando eu dei o segundo passo, o seu rosto tornou-se familiar para mim. Depois do terceiro passo, nos abraçamos, num abraço muito longo e forte, e as lágrimas começaram a correr pelo meu rosto. O tempo parou para mim e eu chorei muito. Naquele momento, minha alma derramou tudo o que estava acumulado durante os anos de vôos para lugares mágicos. Senti como minha capacidade de voar estava me deixando e como meu coração se enchia de paz. O vazio no coração foi preenchido com a cor azul e as lágrimas caíram no chão fazendo brotar flores. Em um instante, ao nosso redor, havia um tapete de flores azuis e vermelhas. Naquele momento eu entendi tudo, o destino me deu um poder mágico. Olhei para o rosto do homem e ele era o meu pai, que faleceu há exatos dez anos e 4 dias. E agora vou ter um lugar para onde voltar. Sempre.

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5 Comentários »

  1. Augusto, não sei nem o que dizer. Lindo demais. Senti na alma, cada sentimento seu. Lembre sempre que, tudo o que você desejar de coração, será atendido.
    Bjs millllllll

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    Comentário por Ivana — setembro 11, 2010 @ 2:45 | Responder

  2. ““Por que, eu tinha que ir para o deserto nesta viagem?” Normalmente eu escolho meus vôos para lugares paradisíacos, cachoeiras, florestas ou mesmo as cidades cheias de gente, de ruído, iluminação, história, poluição. As cidades e lugares que já visitei ou que imagino como são. Essa é a primeira vez que eu vou para um lugar onde não há nada. Apenas uma barraca e muita areia, sem saber se há pessoas.” Quem sabe você estava procurando por seu pai em lugares errados. E como a “história” daquela pessoa que não acreditava em NADA e foi buscar Deus nas religiões, só que nas religiões ela não encontrava respostas até que por fim ela descobriu que não precisava buscar Deus em lugar algum porque Deus estava dentro dela. Alguns Sonhos e/ou Projeções Astrais acontecem sem nos darmos conta e nem ficam registrados em nossa memória, em compensação outros ficam registrados o que nos prova que a Vida não acaba aqui, amenizando assim a dor da perda.

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    Comentário por Emília — setembro 11, 2010 @ 13:03 | Responder

  3. Magnífico.Voce sabe fazer uma bela história.Parece até real.
    Parabéns!!!!

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    Comentário por Irany — setembro 11, 2010 @ 19:51 | Responder

  4. a saudade é sempre grande…tanto quanto a perda.
    as pessoas, como consolação dizem: VAI PASSAR.
    mas nao passa nunca.
    a saudade fica e a dor tambem.
    acho que existe até qeum tente esquecer a pessoa e a coloque lá num lugar aprazivel, SE consolando, de que ela estaria num lugar muito melhor.
    mas o lugar muito melhor é aqui perto da gente.
    pelo menos é o que pensamos.
    na nossa cultura nao somos preparados para a perda;
    quando ela vem, a falta deste preparo aflora imediatamente.
    a experiencia mais arrepiante que eu tive sobre isso foi quando faleceu o ai de um amigo que eu considrava irmão.
    a família, espirita, estava muito tranquila…
    osd e fora estavam desesperados.
    eu me lembro de passar o dia com o Luis, que tinha a mesma idade que eu, 19, tomando conta dos irmaos dele, bem mais novos, nem entrados na adolescencia.
    levamos para comer na padaria, pra tomar sorvete, pra passear de carro.
    mal ficamos no velorio.
    NOSSO PAI JÁ NÃO ESTA LÁ, eles me disseram.
    uma semana depois, o Luis chegou feliz na faculdade…havia recebido uma mensagem do pai.
    so havia alegria naquilo.
    e era como se ele pudesse ve-lo e toca-lo sempre.
    já se vao quase 30 anos desta experiencia, e eu sei que nunca conseguirei agir da mesma forma.
    acho que vc conseguiu uma comunicação.
    a paz sentida é o indicio de que ele vai bem.

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    Comentário por Lilian — setembro 13, 2010 @ 12:36 | Responder

  5. BOA NOITE MEU IRMÃO …É LINDO O QUE VOCE ESCREVEU. ME FEZ CHORAR DE EMOÇÃO … EU TB TENHO MUITAS SAUDADES DO PAI E DA MÃE. O DIA QUE VOCE FOR ASSISTIR O FILME NOSSO LAR , VOCE VAI VER A CENA DO ENCONTRO DE ANDRÉ LUIS, COM A MÃE DELE. É EMOCIONANTE. NÃO HÁ QUEM NÃO CHORE… EU FICO IMAGINANDO COMO SERIA BOM PODER ABRAÇÁ-LOS NOVAMENTE …BJOS. AMO VOCE.

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    Comentário por ivone veronica martin — setembro 14, 2010 @ 0:22 | Responder


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