A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

setembro 6, 2010

Turismo nas favelas

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou segunda-feira na favela Dona Marta do Rio de Janeiro, o projeto Rio Top Tour, um novo passo nas mudanças em curso nos subúrbios da cidade mais conhecida no Brasil.

Após a expulsão do tráfico de drogas e da milícia armada das favelas e com a presença de Unidades de Polícia Pacificadora (UPP), que estão conseguindo manter o controle das comunidades, buscam mostrar agora aos turistas o lado mais suburbano de cidade.

O novo projeto visa formar moradores das favelas como uma espécie de guias que orientam os grupos de visitantes por suas ruas íngremes. No caso da Dona Marta, uma das principais atrações consistem na visita das lajes escolhidas anos atrás por Michael Jackson para gravar um de seus vídeos. Onde uma vez os militantes  faziam a venda de cocaína e controlavam a entrada principal da favela, agora você pode desfrutar de paz de uma vista privilegiada das montanhas e do oceano.

Com a chegada das excursões na favela pacificada, o Ministério do Turismo e o Governo do Rio procuram dar uma nova guinada na sua estratégia para limpar a imagem de uma cidade que durante décadas foi acompanhada por notícias como sendo um dos lugares mais violentas do mundo. Dentro de quatro anos será realizada no Brasil a Copa do Mundo de Futebol e  os Jogos Olímpicos de 2016. Ambos os eventos vão arrastar enchentes de visitantes dos cinco continentes e os níveis necessários de segurança que não têm nada a ver com a situação alarmante que assola esta cidade para as últimas três décadas precisam ser resolvidos.

Estatísticas do Instituto de Segurança Pública (ISP) do Rio mostram que a implantação das novas UPPs tem uma relação direta com a melhora nas taxas de criminalidade na cidade. A mudança é registrada nas áreas central e sul, as mais frequentadas pelos turistas e os cidadãos com maior renda, embora existam áreas menos privilegiadas, como a favela Cidade de Deus, no oeste, ou o tradicional bairro da Tijuca,  na zona norte, onde as UPPs têm colhido bons resultados e pode respirar um clima de paz. Outro efeito imediato da retirada das redes criminosas nas favelas tem sido a valorização imobiliária de algumas áreas que há anos viviam em decadência absoluta.

No final de agosto, 10 traficantes fortemente armados tomaram 35 reféns no Hotel Intercontinental em São Conrado, em um dos bairros mais ricos da cidade, que para alguns significa a evidência de que a nova estratégia de segurança do governador do Rio, Sergio Cabral , é mais propaganda do que realidade. O evento, que incluiu a implantação de uma operação policial e uma intervenção na favela, culminou com um tiroteio dramático na rua, que terminou com um morto, sete feridos, prisão de criminosos e a libertação de todos os reféns. Cabral aproveitou a oportunidade para dizer que ninguém em seu governo não tinha ilusões quanto ao desafio da criminalidade do Rio. Ele também anunciou que em breve as favelas da Rocinha e Vidigal “estarão livre do poder paralelo.”

O anúncio parece anedótico, mas é um grande avanço na consolidação de um espaço seguro no sul da cidade. A Rocinha é um labirinto de 144 hectares, controlada pela facção criminosa Amigos dos Amigos (ADA). Autoridades disseram que 2.000 policiais serão necessários para preencher os subúrbios, para expelir a droga e impor a ordem na área. No Vidigal vizinhos também exigem grande esforço para acabar com a hegemonia dos criminosos.

Por agora, o governo do Rio mobilizou 12 unidades de UPPs e fixou a meta de atingir 2014 com 40 favelas “pacificadas”. Estima-se que a cidade do Rio de Janeiro tenha entre 650 e 1.000 favelas. A chegada das UPPs aos subúrbios são geralmente precedidas por intervenção do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da Polícia Militar, que é responsável por identificar as bolsas de traficantes  para intervir sem muitas complicações. Uma vez cumprida esta etapa, as unidades de manutenção da paz assumem o controle das ruas, o que prevê uma unidade permanente no subúrbio.

Apesar dos resultados positivos, o projeto também recebeu algumas críticas. A mais difundida é que a expulsão dos traficantes das melhores zonas da cidade é apenas uma medida cosmética, uma vez que, longe de abandonar o crime, eles se reorganizam em outras favelas dos subúrbios e zonas interiores.

Outra crítica freqüente entre os moradores dos bairros que já possuem UPPs é que os agentes, que teoricamente deveriam ter um perfil misto entre polícia e assistente social, facilmente recorrem ao uso de cassetetes e spray de pimenta. “Pode ser verdade, mas a realidade é que antes  a polícia entrava na favela com pistolas e rifles. Se agora foram substituídas por pistolas de gás e cassetetes, já é um avanço”, diz o sociólogo especialista em violência urbana Ignacio Cano.

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3 Comentários »

  1. Para o projeto ser implantado na Favela Dona Marta, imagino que os moradores tenham sido consultados com antecedência e que tal projeto atenda suas necessidades. Será que foram consultados? A privacidade é um direito do cidadão e se os moradores não desejam turistas circulando prá lá e prá cá?

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    Comentário por Emília — setembro 8, 2010 @ 13:34 | Responder

  2. Oi, Emília.
    Agradeço o seu comentário.
    Quanto aos moradores terem sido consultados, tenho minhas dúvidas. Aqui, nossa população está acostumada – e não deveria – a dizer amém para tudo!
    Beijos.
    Augusto

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    Comentário por augusto Martini — setembro 8, 2010 @ 15:42 | Responder

  3. Coincidentemente ao período eleitoral, as favelas estão sendo agraciadas por benefícios que deveriam acontecer frequentemente são eles: 1-Foi inaugurada(maio/2010) uma agência bancária Santander no Complexo do Alemão, que terá oito de seus moradores entre os funcionários da agência, se a experiência for bem sucedida outras agências serão abertas em outras regiões, é o que se promete. 2-Lançamento de um pacote de TV a cabo por assinatura voltada ao público de baixa renda na favela Cidade de Deus. Nos dois festejados eventos, ficou evidente a falta de saneamento básico nas comunidades…

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    Comentário por Emília — setembro 15, 2010 @ 17:59 | Responder


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