A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

janeiro 3, 2008

Minha Mãe

Por que isso tudo está acontecendo agora? Estou sentindo medo de novo… Será que estou exagerando? Agredindo-me? O que é aquilo que chamam de certo? Eu não sei onde é a porta de saída e nem tenho asas de anjo que me façam voar para casa…

Estava ainda há pouco na cozinha. Sentando num banquinho, comendo doce de abóbora, quando veio a lembrança de minha mãe. Saudades… E hoje, agora, estou precisando tanto dela… Mãe – saudades! Se achegue! Faça ninho para eu deitar a cabeça em seu colo. Faça cafuné. Por favor, ocupe o lugar do medo…

Lembro dela com carinho. Sempre foi uma lutadora. Recordo-me da casa velha que vivíamos na Rua 4-A, Vila Alemã, quando mudamos para a cidade (Rio Claro), logo depois que saímos do Haras e Fazenda São José do Morro Grande, onde meu pai foi tratorista. Eu devia ter uns cinco anos. Era uma casa geminada. Ao lado, moravam minha tia Joana e meu tio César. Ela, irmã de minha mãe e ele irmão do meu pai. Pergunto-me qual é a lembrança mais forte dessa época. E vem a sensação de medo. Medo de perder minha mãe. Todos os meses ela sofria de uma enxaqueca grave. Ficava dois ou três dias na cama. Chegou a ser internada. Tinha medo que não voltasse. Desde então, nunca soube lidar muito bem com a perda. Cresci assim, com esse fantasma sempre assombrando meus pensamentos.

Dessa casa, mudamos para a Rua M-1-A, Vila Martins. E dessa para outra, na mesma Rua. Depois meu pai comprou um terreno na Rua 10-A, Vila Nova e lá construiu a casa onde vivi até 1999. Colocar-nos morando ali foi uma vitória de meu pai. Casa própria, dois quartos, pequeno terraço, grande quintal, terreno cercado por bambus. Tenho muitas lembranças de minha mãe nessa casa – algumas tristes, outras alegres, mas todas lindas.

Sempre foi dona-de-casa e fazia milagres com o pouco que tínhamos. Infância pobre em recursos, mas rica em aprendizado. Fogão-a-lenha, quintal de terra, horta nos fundos. Muitas vezes meu pai criava um porco ou galinhas, que vinham do sítio do meu avô. Ele mesmo matava. Era horrível vê-lo matar um porco. Uma marretada na cabeça e uma facada em baixo da perna dianteira esquerda. E sangue, muito sangue. Em época de inverno e “vacas-magras”, quando não tínhamos hortaliças, minha mãe nos instruía – “hoje vamos fazer assim: um quadradinho de queijo para cada um. Coloquem uma colherada de arroz e feijão na boca (isso mesmo – nós comíamos de colher!), cheirem o queijo e mastiguem a comida, ainda cheirando o queijo. No final do prato, comam o quadradinho de queijo”. E assim aconteceu muitas vezes. Ainda sinto o cheiro do queijo. E era delicioso!

A minha infância e de minhas irmãs foi sem presentes de Natal e sem festas de aniversário. Às vezes minha mãe conseguia fazer um bolinho, que comíamos tomando K-suco.  E era maravilhoso! E tinha os parabéns pra você. E chorávamos de felicidade. Coisa muito simples, mas significativa.

O tempo foi passando. Fui crescendo. Chegou o dia de ir para a Escola. Eu não queria ir. E a D. Maria literalmente me levou arrastado, segurando-me com uma das mãos. Na outra mão, um cinto do meu pai. E eu esgoelando. Agradeço por isso a cada dia. Hoje me cumprimentam pelo mestrado já feito, pelo doutorado em andamento. Disso tudo, de que vale imaginar que minha mãe e meu pai também estariam felizes diante de seu filho que estudou? Eles já não estão mais aqui para abrir-me um sorriso.

Durante a infância e adolescência, sempre ouvia minha mãe dizer: “Contente-se com o que tem. Há quem esteja pior.” Então é isso? Alegria de pobre é pensar que há outro pior? Tenho que ficar feliz, por exemplo, por não ter um braço se vejo ao lado outra pessoa que não têm dois? Eu não conseguia. Mas também sempre soube que tristeza não resolve nada. Chorar não é demonstrar caridade ao mundo. Sempre tive comigo uma força que foi procurar transformar essas energias em coisa úteis. Mas ultimamente não tenho conseguido…

Minha mãe era católica e devota de São José. Missas, imagens, rezas do terço faziam parte do nosso cotidiano. Aquela coisa do Deus opressor sempre esteve presente. Também era ela quem socorria os parentes e amigos em casos de necessidade, em acompanhamentos ao médico, etc. Sempre solícita, atendia todos que a buscavam. E lá ia ela, com seus vestidinhos floridos, com mangas curtas e bolsos, nos pés, chinelos de dedo. Assim ia também aos velórios. E quando eu dizia que era uma papa-defuntos, argumentava: “vou no velório de todos que conheço, para que, quando eu morrer, tenha bastante gente no meu”. E como tinha gente no enterro dela! Se existe vida do outro lado, deve ter ficado feliz.

Ela adorava novelas de rádio e TV. Entrava nas estórias, chorava de soluçar. Quando estava ali, assistindo suas novelas, não tinha atenção para mais nada. E meu pai dizia: “varda, varda! Veja se sua mãe é pouco boba! Chorando por causa de novela”.

E vieram os casamentos das minhas irmãs – Tereza e depois Ivone. E com eles, os netos: Tatiana, Regiane, Jean, Rosana, Endgy e Maira. E minha mãe sempre a tentar lhes fazer todos os gostos. Passou a se preocupar mais com a vida dos netos do que com a dela própria. “Um gosta assim, o outro assado”. Para todos dedicava a atenção devida. Às vezes dizia: “vou fazer tal comida e guardar um pouco para a Regiane”. “Esse doce está separado para a Tatiana”.

Mais para o fim da vida, às vezes a pegava comendo doces sem poder, pois já estava com grave doença coronária e quadro diabético preocupante, tudo em conseqüência dos remédios. Adorava cocadas. De vez em quando comprava uma cocada do “Baiano Padeiro”, que passava com sua carroça vendendo pães e doces de porta em porta. Escondia o doce no armário da cozinha. Ia comendo aos pouquinhos. Quando eu descobria, ralhava com ela. Devia tê-la deixado comer quantas quisesse! De que vale a vida sem os pequenos prazeres?

Penso em qual foi a pior frase que ouvi da boca dela. E acho que sei. Depois de ter passado por uma complicada cirurgia cardíaca, voltou para casa e logo em seguida retornou para o hospital. Como de costume, fui visitá-la no meu horário de almoço. A Ivone a estava acompanhando. Disse-me que ela não queria comer. Peguei uma Pêra, comecei a raspar com a colher para forçá-la a comer. Ela voltou os olhos para a Ivone e disse: “fale para o Dinho parar com isso e me deixar morrer”. Saí dali feito louco. Cheguei ao Arquivo de Rio Claro, onde trabalhava, fui até os porões e chorei copiosamente por quase duas horas. D. Iolanda foi a única testemunha. Naquele momento, não conseguia enxergar o quão egoísta eu estava sendo querendo-a viva e desrespeitando todo o sofrimento. Alguns dias depois ela morreu.

Durante algum tempo tive um sentimento de culpa pela morte da minha mãe. Pensava se havia feito todo o possível. Teria mesmo feito tudo? E as coisas desagradáveis que dissera para ela? O que mais me perturbava era o fato de não ter tido a chance de dizer adeus. Estava na Unesp no momento da morte. Nunca mais sentiria o seu abraço carinhoso, o cheiro de sua pele ou os seus afagos em meus cabelos.

Alguns dias atrás eu estava me sentido muito solitário e vazio, muito perturbado emocionalmente. Minha raiva de Deus atingira o seu auge. Tudo o que eu mais queria naquele momento era o colo de minha mãe. Chorei e falei:

– Eu só queria poder abraçá-la mais uma vez.

Sentei-me na sala, soluçando. Sentia-me esgotado. Subitamente, fui tomado por uma sensação de calor. Pude sentir fisicamente dois braços abraçando-me e um aroma familiar há muito esquecido. Era ela. Senti sua presença, o seu toque e o seu perfume.

Hoje sei que minha mãe está sempre comigo. Amo-a de todo o coração e sei que sempre estará ao meu lado. Naquele momento, quando eu estava quase desistindo, ela fez-me saber que nunca deixou de me amar e que viver vale a pena.

2 Comentários »

  1. Oi! amei o que li me lembro da vó sempre,quando ia dormir lá no dia seguinte logo cedo via ela com minha gemada na pascoa sempre com os nossos ovos de pascoa que tempos bons que saudade de tudo isto.

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    Comentário por Tatiana — agosto 20, 2009 @ 21:36 | Responder


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