A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini

maio 10, 2007

Sítio Bela Vista… Lembranças de Infância

Houve uma época em que os colonos das fazendas migraram para as cidades, em busca de outro tipo trabalho.

Os cafezais ficavam no mato, porque não havia quem os capinasse. Minha história de vida começa a partir daí. Meu pai, que era tratorista na Fazenda São José do Morro Grande, que ficava nos arredores de Rio Claro, veio para a cidade. Eu tinha 4 ou 5 anos, não sei bem ao certo… Minha primeira residência na cidade foi numa casa simples, localizada na Rua 3-A, entre as avenidas 38-A e 40-A, na Vila Alemã.

Meus avós continuaram suas vidas no campo, em um sítio de propriedade da família. Chama-se Sítio Bela Vista. Lá, a brisa soprava mansa, refrescando a tarde ensolarada de verão, e a gente ouvia um “chiii”….

Esse som vinha de uma árvore gigante, que ficava ao lado da casa, a qual tinha uns quinze metros de altura, que eu chamava de “pé-de-garrafinha”. Mais tarde fiquei sabendo que o nome popular era Jambolão.

Sentando-se à sua sombra, via-se em toda extensão, lá em cima, no morro, o pomar de quase um alqueire de superfície: o “quintal” do sítio de meu avô. Mais adiante pés de café, manga, limão, carambola, goiaba, jaboticaba… Havia ali outras árvores frutíferas de várias espécies e qualidades: laranjeiras, mamoeiros, bananeiras, pitangueiras… Muitas nativas e outras plantadas a esmo, sem qualquer plano ou simetria. Ouvia-se a todo instante o cantar dos sabiás de papo amarelo, dos sabiás laranjeira, o orulhar das pombas e das rolinhas, bem-te-vis, o trinado dos canários-da-terra e um sem número de pássaros canoros.

Lembro também, que a temperatura gostosa, acompanhada da preguiça das 14 horas, sempre convidava ao repouso e ao cochilo.

Bem acima, lá no meio do campo, estava o poço, que ficava a uns quinhentos metros da casa, na parte mais alta do pasto, onde havia uma pedra muito grande.

O sítio não possuía um manancial. Apenas um pequeno riacho. Sua nascente era fonte de água pura, borbulhante e fria. Nos tempos de hoje essa água cairia numa caixa de cimento, bem fechada, de onde seria distribuída, por encanamento, com bombeamento elétrico. Mas, naquele tempo, vinha para a casa em queda natural.  Aquela água era em quantidade quase insuficiente para atender ao consumo do sítio, ou seja, para o uso da família, para matar a sede do gado, para o chiqueiro e mangueirão dos porcos, galinhas…

Para o consumo do gado, a água corria em bicas de coqueiros de macaúbas, passando pelo curral.

Para a casa, a água seguia em canos plásticos. E na cozinha não havia pia ou torneira. Para que torneira?!… A água era de graça… As louças eram lavadas em bacias.

Do lado de fora da cozinha ficava um tanque que servia para lavar roupas e onde, antes das refeições lavávamos as mãos e os pés.

Pombas selvagens, rolinhas, galinhas e codornas se misturavam em verdadeira disputa, à cata do alimento jogado na porta da cozinha. Eram aves quase mansas, não fugindo à aproximação do homem. O máximo que faziam era voar baixo, para pousar novamente, uns cinco ou seis metros adiante.

Na frente do curral ficava o malhadouro, assim chamado porque as vacas ali ficavam deitadas horas e horas, ruminando tranqüilas, indolentes, e onde, à noite, dormiam sossegadas. Ali o capim não crescia. Era um terreno batido, desnudo, onde os gaviões e anus pretos e brancos pousavam sobre os animais, catando parasitas. O curral era de pau-a-pique, feito de lascas fincadas no chão, de mais ou menos um metro e oitenta de altura. Ali estava também, amarrado pela rédea, o melhor companheiro de meu avô – Passeio, cavalo baio, manso como um cordeiro – era um cavalo “pombo”. Era montado em pêlo, sem arreios. Cavalgando-o, meu avô saía pelos campos e estradas…

Um dia, meio sem eu saber o porquê, apareceu lá no sítio um caminhão que foi buscar a mudança. Demorei a entender aquela situação. Mais tarde compreendi que meu avô, velho e doente, vendeu o sítio para ir ao encontro da “civilização”, ficando, assim, mais perto dos médicos. Acabavam-se ali meus sonhos de fantasia, meus bons finais de semana e férias… No caminhão, alguns móveis velhos, uma arca – que hoje está comigo – poucas roupas, documentos, galinhas…

Foi difícil para meus avôs saírem dali. Sentiam-se arrancados, arrastados, deixando a terra que gostavam e que eu aprendi a amar até então.

Seguiam no caminhão, em cima dos sacos de arroz, olhando para trás, até o sítio sumir numa curva da estrada.

Acabava-se ali um pouco de minha infância. 

Quando meus avós vieram para a cidade, eu já morava na Vila Nova, numa casa que meu pai construiu com muito esforço, onde morei até dez anos atrás… E a casa dos meus avós foi construída ao lado da nossa. Mas essa também é uma outra história…

Hoje o sítio tem outro nome e o atual proprietário é um empresário de São Paulo. Eu volto lá de vez em quando. Nunca o esqueci… A porteira, a terra seca, o cheiro do pão caseiro feito no forno de barro, a Gruta do Índio!

Naquele dia em que meu avô chegou, todos tinham nos olhos gotas de água do “Sítio Bela Vista”.

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3 Comentários »

  1. […] tenho saudades das visitas, em férias ou não, ao sítio de meus avós. Era costume todas as noites a família se reunir para rezar o terço após do jantar, a luz de […]

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    Pingback por Mais algumas lembranças de minha infância e de minha vida… parte 11 | A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini — setembro 30, 2013 @ 10:45 | Responder

  2. […] abatido pelas ágeis e habilidosas mãos da tia Leonor ou de minha avó quando moravam no Sítio Bela Vista em Rio Claro/SP. O arroz e o feijão eram os da lavoura da família, colhidos por eles, deixados […]

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    Pingback por A deliciosa simplicidade da infância narrada por uma de minhas irmãs – Tereza. | A Simplicidade das Coisas — Augusto Martini — outubro 13, 2013 @ 18:54 | Responder

  3. […] abatido pelas ágeis e habilidosas mãos da tia Leonor ou de minha avó quando moravam no Sítio Bela Vista em Rio Claro/SP e onde a Tereza passava a maior parte das férias escolares. O arroz e o feijão […]

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    Pingback por A deliciosa simplicidade da infância narrada por mim – Tereza – Introdução | Memórias de Tereza — outubro 20, 2013 @ 12:43 | Responder


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